quinta-feira, 4 de março de 2010

Lindanor Celina e Bragança: um momento histórico

Hoje, recordamos com saudade a memória de Lindanor Celina. Divulgo algumas referências entre História e Literatura presentes em uma de suas mais lidas obras, A Menina que vem de Itaiara. Na Amazônia, temos uma plêiade de escritores consagrados que alcançaram status e que fazem parte da análise e leitura de currículos e registros de Instituições de Ensino Superior no Estado do Pará e pelo mundo. Nesse grupo figuram Bruno de Menezes, Max Martins, Dalcídio Jurandir, Benedito Nunes, Maria Lúcia Madeiros, Adalcinda Camarão, Lindanor Celina, entre outros paraenses.

A figura de Lindanor Celina, nas palavras de Dalcídio Jurandir “incorpora-se ao pequeno grupo de escritores paraenses que não desgarram da província e juram amor constante àquelas criaturas e coisas sempre tão ignoradas e remotas, que são o Pará.” Na foto, as três irmãs, Lindanor (com Laudy ao colo) e Lucimar, em Bragança, em 1928.

Ela é considerada uma escritora contemporânea e de uma originalidade incomum, além de ser uma romancista de grande porte, Lindanor dividiu a crítica paraense por acrescentar uma modalidade diferente em sua obra, a crônica, não considerada Literatura por vários de seus críticos à época. Com um modo peculiar de narrar fatos do quotidiano, tanto no romance quanto na crônica, Lindanor Celina teve fama só no Brasil, mas ganhou fronteiras internacionais.

Apresento abaixo uma parte do momento histórico da Menina, que veio de Itaiara, acerca de sua percepção literária sobre a festividade de São Benedito, em Bragança, nas três primeiras décadas do século XX. Esse período foi um cenário de grande efervescência cultural, com grande alcance e significado, graças à ação da escrita, da imprensa e da preservação de fontes e narrativas produzidas por estudantes entusiastas, folcloristas e acadêmicos.

É fato consagrado na versão de Lindanor Celina um modus vivendi do bragantino na história da devoção a São Benedito, representante do folclore e da cultura bragantina. Dessa forma, como resultado de pesquisa e de fundamentação teórica, passamos a ter uma imagem seletiva da visão sobre a riqueza histórica do culto a São Benedito, imagens construídas na perspectiva folclórica, elaboradas na relação entre história e memória e que permite constatar o quanto é universal o sentimento e a representação cultural, como importante referencial. Na foto, as irmãs, Lucimar e Lindanor, na Praça da República, em Belém.

A obra e sua referência

Bragança, cidade da Marujada e de São Benedito, das palmeiras imperiais. Algumas imagens passam na lembrança e na memória de Lindanor Celina ao traçar, biograficamente, na trajetória de Menina que vem de Itaiara a sua própria trajetória, fazendo do cenário do beneditino uma das imagens que lhe foi mais cara nas experiências e memórias na obra retratadas, para acatar a idéia de uma valorização exacerbada do adjetivo bragantino.

O romance é, além de tudo, um relato da memória autobiográfica da autora, encarnada na sua protagonista central, Irene, que relembra sua vida em Itaiara (Bragança, bairro do Taíra) desde os quatro anos de idade, quando sai com sua família de Buritizal (Castanhal). Na obra, Lindanor (ou Irene) viveu sua infância e adolescência. Na foto, Lindanor menina e adolescente, em Bragança.

Partiu para Belém, e daí ganhou o mundo, indo para a França, onde estudou na Universidade de Nancy e na Universidade de Sorbonne. Dedicou-se ao ensino de literatura luso-brasileira na Universidade de Lilly III, a maior e mais importante do norte da França, ficando lá até seu falecimento em 2003, mas sem nunca ter esquecido um de seus lugares.

No debate mais cabível aqui, a Literatura serve como referência para a análise do historiador, incorporando a experiência social que é o seu objeto de estudo, como fonte de história. Lindanor Celina (e até mesmo seus críticos) se convence de que essa era a imagem de Bragança e um de seus arcabouços culturais (precisamente na festividade de São Benedito) que ela deveria mostrar ou suscitar maior atenção. Uma postura de quem escreve as memórias no início do século, onde a própria experiência serve como inspiração para o romance. Na foto abaixo, Lindanor tocando violão no quintal de sua casa, em Bragança.

Uma riqueza impressionante de detalhes, ao descrever a Bragança – ou Itaiara – das décadas de 30 e 40 do século XX, com suas festas, tradições, brincadeiras, comércio, arquitetura. Com uma observação muito enérgica, a Irene (de Lindanor) relata os folguedos, as aventuras, as proezas e as travessuras que vivenciara no período. Uma tentativa de recuperar, com a memória, uma forma simples de falar, de escrever e ao mesmo tempo o refinado poder de persuasão de quem passou, como a autora, uma parte da vida dedicada à academia.

Através do livro, passeamos nas ruas, entramos nas casas bragantinas, participamos das brincadeiras e procissões, e até mesmo dos passeios nos campos e piqueniques e banhos nos igarapés. No livro, “salvamos” uma Bragança do passado ao tempo de quem lê o livro, seja pelo inventário social, cultural e econômico que levanta e enseja, seja pelas impressões de quem se contextualiza com a obra. Na foto, com Caetano Veloso, na casa da jornalista Elanyr Gomes da Silva (Lana), amiga de Lindanor.

Além de Menina que vem de Itaiara, destacam-se também entre seus trabalhos os romances Estrada do Tempo-Foi (1971) e Afonso Contínuo: Santo de Altar (1986), bastante similares à linha autobiográfica do Menina. Por isso sua obra é tão procurada para clarear as imagens que tentamos desvendar, construir e recuperar, dando novo significado ao livro.

Sobre a autora

Lindanor Coelho de Miranda nasceu em Castanhal, em 21 de outubro de 1917, mas como fazia questão de lembrar, “abriu os olhos em Bragança”. Ao completar 11 anos, Lindanor foi morar em Belém, onde estudou no Colégio Santo Antônio, como interna.

Depois de retornar a Bragança, trabalha como professora, é aprovada em concurso público federal e vai morar em São Luís, Maranhão. Sem ter 18 anos, casa-se. É transferida para Belém e obtém a primeira colocação em concurso nacional promovido pela Aliança Francesa, da qual era aluna, em 1957. Escrevia desde 1954 no jornal Folha do Norte. Na foto abaixo, em lançamento de um de seus livros, com o casal de amigos Antônio e Cirene Pereira.

Em 1963, publicou seu primeiro e um dos mais famosos livros, Menina que vem de Itaiara, sendo o livro escolhido pelo suplemento literário do Jornal O Estado de São Paulo, como o livro do semestre. Já tinha três filhos e estava separada. Logo depois separa-se do esposo. E parte para Paris em 1974 e vai lecionar Literatura Brasileira na Universidade de Lilly III.

Casa-se com Serge Cashà (Doutor em Letras pela Universidade de Sorbonne e professor de Literatura Brasileira na Universidade de Nantrerre, França), com quem viveu até sua morte, em Clamart, arredores de Paris, em 04 de março de 2003. Respeitando um desejo dela, suas cinzas foram espalhadas pela baía de Guajará, em Belém. Na foto abaixo, com o marido Serge Cashà e Antônio Penna.

Tendências

Nessa parte de sua obra se reflete uma tendência folclorista em registrar os costumes mais tradicionais, as pessoas, os trejeitos, os espaços, os lugares de maior circulação popular, os modos de ser do bragantino de ontem e que de, certa forma, sintetiza um momento da autora em registrar, a seu modo e segundo sua interpretação, o desejo totalizante de ver a cidade Bragança viva em sua memória, guardada para as gerações posteriores.

Opiniões

Dalcídio Jurandir na abertura do romance Menina, muito amigavelmente, observa que Lindanor Celina em sua obra mais conversa do que escreve, é uma “tagarela” aos olhos do leitor, falando incansavelmente, deixando-o “sem fôlego”. De fato a sensação é realmente esta, como em se estar sentado no chão próximo à cadeira de alguém mais velho, contando suas memórias sem parar, um ritmo ditado pelo seu estilo e narrativa.

A própria palavra Itaiara, provavelmente seria um anagrama (palavra obtida pela transposição de letras de outra palavra) do bairro Taíra, onde Lindanor residia ainda na cidade. Neste sentido, seu livro tornou-se um fio condutor de nossa pesquisa, pela precisão dos detalhes de suas lembranças. Suas lembranças trazem à tona o brilho dos tempos em que Bragança ainda passava por seu apogeu, tanto econômico, cultural, como de crescimento populacional, atraindo vários migrantes, em especial os nordestinos, que vinham em busca de trabalho e melhoria de vida.

A narrativa relembra o símbolo maior desse período de prosperidade econômica da cidade que era a sua Estrada de Ferro, construída para melhor escoar os produtos agrícolas da zona bragantina para a capital, o que gerou negócios enriquecedores para certa parte da sociedade bragantina, como nas passagens onde ela descreve desde os inúmeros personagens, como também a riqueza imponente nas casas. Na foto, com o Maestro Waldemar Henrique.

Citando Lindanor Celina: “Nossa vida ali era esta: papai viajando pelo misto das terças-feiras, cada semana, levando partidas de peixe e camarão seco, às vezes algum tabaco, farinha, feijão, para vender na estrada, e voltando pelo horário de quinta ou sábado.

Referências e imagens: TUPIASSÚ, Amarilis; PEREIRA, João Carlos; BEDRAN, Madeleine. Lindanor, a menina que veio de Itaiara. Belém: Secult, 2004.

5 comentários:

  1. Feliz em encontrar aqui mais informações sobre Lindanor Celina , a escritora , cronista que mais sou fã, desde criança!

    ResponderExcluir
  2. Ela esteve tantas vezes em casa, visitando minha avó, eram muito amigas... Lembro bem de Lindanor Celina, sempre animada...

    ResponderExcluir
  3. Era a minha professora de português na universidade de Lille ( França )... Que saudades dela ! ;-)

    ResponderExcluir
  4. Parabéns Dário por escrever sobre Lindanor Celina.

    ResponderExcluir
  5. Preciso desse livro com urgência. Alguém que possa emprestar ou vender? Moro em Brasil Novo Pará

    ResponderExcluir