sábado, 3 de setembro de 2011

História da Igreja de São Benedito em Bragança

História da Igreja de São Benedito de Bragança

Prof. Dário Benedito Rodrigues, historiador, docente da UFPA Bragança

Imagem: Acervo pessoal de Dário Benedito Rodrigues. Foto recebida da Prof.ª Ana Sousa de Oliveira, em 2002.

No estudo sobre os antigos templos em Bragança, percebemos como os negros “optaram” em lutar lado a lado com os senhores para a construção de seu espaço de festividade, do seu espaço sem o conflito, barganhando algumas compensações devido a tal lealdade, mesmo continuando escravos.

Coincidindo com o ciclo de anexação da Amazônia ao contexto colonial, nesses centros de devoção, o culto aos santos trazidos da cultura dominante, européia, constituiu-se num arcabouço plástico e teatralizado de romarias e autos, procissões e festividades, uma tradição constante nas práticas religiosas do povo.

Todavia, o que os brancos viam como “petição dos Irmãos de São Benedito” podia ser mais do que a gestação de uma identidade no mundo da religião. É possível pensar de que modo a livre população de cor, livre ou escrava, procurava se articular – mantidas as diferenças de cor e de situação – na busca por uma maior autonomia.

Um pouco de história acerca dos templos na Vila de Bragança pode clarear o entendimento. A Igreja de São João Batista, primeiro templo, resquício das missões anexadoras da região da Capitania do Caeté e do Gurupi, não era capaz de atender às mudanças geográficas e movimentos da população, além de estar em péssimas condições havia muito tempo[i].

Foi implementada a construção de outro templo, cujo orago seria dedicado a Nossa Senhora do Rosário, atendendo à Irmandade dos muitos europeus e brancos aqui residentes numa das povoações da vila, restrita a estes. A construção se deu provavelmente entre as décadas de 1720 e 1760. E esse novo templo serviria também aos índios que estavam sob o controle de jesuítas e colonos. Isso pode ter sido uma das prerrogativas fundantes para a organização da irmandade anos depois, na comunidade do Vimioso, região limítrofe de Bragança antiga (hoje certamente o bairro da Aldeia) sob o título de São João Batista.

Anos mais tarde, nas últimas décadas do século XVIII, a igreja de São João Batista carecia de reformas urgentes e a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário não possuía tantas condições a ponto de mandar construir seu templo. O Ouvidor Geral, Feliciano Ramos Nobre Mourão, a mando do Governador do Grão-Pará, no ano de 1764, nas vilas e povoações, resgatou em suas impressões aspectos da estrutura política, sócio-econômica, religiosa e cultural dessas povoações, além de fornecer subsídios interessantes para entender o incremento de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, em 1754, dado a Bragança, cujo donatário era Gaspar de Souza, Porteiro-mor da Casa Real e Ourém, sob as orientações jesuíticas. Anos mais tardes, a construção foi iniciada, por volta dos anos de 1780.

Até então, a Irmandade de São Benedito existia desde 1798 numa ermida – pequena capela construída na lateral da Igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, na época. Era uma construção relativamente precária, feita de taipa e sem muito conforto. E o trabalho para se comprometer com a construção da Igreja foi árduo, decisivo e desgastante. O primeiro Compromisso de 1798[ii] prevê um pagamento não só aos irmãos de São Benedito, mas a todos os outros cargos da irmandade para que se pudesse erguer o templo (Altar particular) em honra ao Santo Negro, em seu capítulo 7º, que diz:

Para poder subsistir esta devoção, e se possa concervar o culto ao nosso santo, e conseguir se f. (for) premittindo e se assim f. (for) que pelo decurso dos tempos de faça Altar particular para nelle se colocar a sua Imagem, serão obrigados todos os Irmaos a pagarem outenta reis cada hum anno, bem entendido, esta pensão e obrigação nao comprehende ou dous Irmãos brancos, porque fica comotado aquella quantia do anual pelo trabalho e zello com que esperamos satisfação aos deveres daquelles ministerios de Escrivão e Thezoureiro, e este indulto tambem deve valer para os Irmaos Juizes, Juízas, mordomos, e mordomas no anno em que o forem.

O centro da devoção mais importante marca a história religiosa de Bragança, no caso, o de Nossa Senhora do Rosário e o de São João Batista. Não obstante, desde o início, a igreja da Virgem do Rosário estava no caminho do rio e o local dos festejos da padroeira se tornara muito apertado dado o fluxo de leigos católicos que participavam dele.

E assim foi desde o início da colonização até meados do século XIX. O culto religioso foi celebrado em ermidas e oratórios, em cunho leigo e acentuadamente familiar. No Grão-Pará as heranças desse tempo da construção de templo podem ser resgatadas com as impressões de viajantes e de cronistas que passaram descrevendo as situações sociais das práticas religiosas das irmandades e seus conflitos[iii].

Nesses pequenos templos, construídos por particulares, intencionados pelo fervor missionário das ordens religiosas e devotos nem tanto populares (políticos, no caso), é que tais sujeitos expressavam sua fé e sua cultura.

Vários senhores brancos também se filiaram aos quadros da irmandade negra e pode-se deduzir daí um novo controle da confraria, dando mais importância ao Santo Negro do que a já aprovada padroeira de Bragança, Nossa Senhora do Rosário, pois Dom Miguel de Bulhões, da ordem religiosa dos dominicanos, tinha grande devoção a esse título de Maria, sugerindo a freguesia que o escolhesse como onomástico da posterior paróquia e até 1754, com a elevação do povoado à categoria de Vila[iv]. Isso favoreceu a disposição de Nossa Senhora do Rosário como padroeira de Bragança e do orago que estava sendo construído, com a ajuda de índios e colonos.

Com relação a Igreja de São Benedito, encontrei um conjunto de leis que definem verba disponibilizada para sua construção, que autorizavam os gastos, inclusive a renovação desses patrocínios para os irmãos negros. Mas como saber se os investimentos foram realmente implementados com a obra? Não se pode.

Uma notícia chama a atenção. No ano de 1854, a Câmara Municipal de Bragança era notificada pela Irmandade do Glorioso São Benedito para requisitar o espaço para a construção do templo beneditino, já que a Irmandade trabalhava e festejava em busca de condição para erguer seu templo, para abrilhantar ainda mais a festa.

Buscaram uma colina de largas vistas, motivo para recreios e festas, de que usufruía os fiéis e irmãos quando para lá iam com seus problemas pedir soluções a São Benedito. A igreja de São Benedito deveria ultrapassar os limites da dos brancos, com mais pompa, mesmo contando com o apoio destes em leis que autorizavam as despesas com a construção do templo. Mais um acordo devia ser estabelecido, desta vez, para beneficiar os negros.

Constam das atas da Câmara que, em 1854[v], os vereadores defeririam o pedido dos negros “logo que a Câmara mande alinhar o quadro da praça serão os supplicantes deferidos”. Uma batalha legal passa a ser travada junto à Presidência da Província para ajudar no custeio da obra. Noto as sucessivas liberações de verba, autorizadas por decretos-lei, investida no ideário da Irmandade de São Benedito: a posse de seu templo.

A nova construção, mais sólida e duradoura que a pequena ermida, larga e imponente, a cerca de seiscentos metros do antigo local, despertou o ávido interesse dos brancos senhores da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.

Vendo então, o inesperado prosperar do seu primeiro intento, os irmãos de São Benedito partiram para a aprovação e autorização eclesiástica.

“Antes de tudo foi a Irmandade de São Benedito que, em 4 de abril de 1868, solicitou a Dom Antonio Macêdo Costa, Bispo do Pará, a construir em Bragança um templo dedicado a São Benedito”. (GIAMBELLI, 1992, p. 02)

Como a autorização dependia do dito controle eclesiástico, os irmãos de São Benedito pedem o parecer do Vigário de Bragança na época. Somente vários meses depois, o Frei João da Santa Cruz, Vigário Interino, a 05 de dezembro, deu parecer positivo. Desde a organização urbanística de Bragança, dado o impulso da “indústria da alvenaria”, a Igreja começou a ficar distante para as comodidades dos senhores, a cidade transferida para a margem esquerda do Caeté, se expandia para oeste.

Os negros estiveram, inclusive, sujeitos a servir de objeto de ganho para o senhor, como no aluguel do escravo Julião, de Francisco Antônio Belém, que arrecadou grandes quantias com o serviço de negro nas obras do templo, em 1876. Além de tentar encontrar uma solução para dar sustentabilidade a seus intentos, os negros foram alocados para o trabalho na construção da própria igreja.

Verificando os documentos de tomadas de contas junto a Tesouraria da Irmandade de São Benedito eles podem nos dizer o quanto arrecadaram os senhores com os escravos disponíveis a esse serviço. Uma dedução é possível fazer: a obra deve ter durado mais de vinte anos até sua finalização, pois o espaço de tempo que se pode retirar dos documentos encontrados perfaz o período de 1854 a 1876, com a então troca de oragos entre Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, data não compatível com a da Cronologia Eclesiástica da Amazônia, escrita por Dom Alberto Ramos.

A promessa de manutenção de certa amizade entre brancos e negros é quebrada justamente aí. No objetivo de ajudar os negros a viabilizarem o seu centro de devoção, os brancos queriam, na verdade, outro espaço para os festejos da Virgem do Rosário, na festa dos senhores. Como encarar mais esta perda? Como isso pôde ser enfrentado? Respostas que advêm do próprio quotidiano, de negação, de conflito, de dor, de subordinação e humilhação a que estavam submetidos os negros.

Um acordo entre as irmandades, extremamente injusto, é interposto. Dom Miguel Maria Giambelli, ainda bispo da Diocese de Bragança, relata em artigo inédito de 1992, da permuta entre os dois templos, como sendo de 1872, data da autorização pelo Bispo do Pará. Mesmo que as obras ainda não estivessem conclusas a posse já estava garantida aos senhores brancos, da Mesa regedora da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Um sonho de alcance da liberdade, somente com o arrefecimento da devoção na imagem do templo? A promessa quebrada, a graça alcançada.

O templo no tempo

A construção é datada entre a primeira e a segunda metade do século XVIII, de estilo barroco e herança jesuítica e indígena, única edificação do tipo ainda existente no Município, situada no largo e quadrilátero entre a Avenida Visconde do Rio Branco, a Rua General Gurjão e a Travessa Cônego Miguel, nesta cidade. Segundo o Cadastro Municipal, a propriedade do imóvel é das Obras Sociais da Diocese de Bragança (Diocese de Bragança), com as seguintes medições:

- Área total do lote: 741 m².

- Área construída no lote: 560 m².

No Centro Histórico, é um imóvel de importante referência do Patrimônio material, como a única edificação existente deste tipo e com larga importância do Patrimônio imaterial já que é o ponto central das manifestações de culto e devoção a São Benedito, de sua Festividade e da Marujada de São Benedito de Bragança.

Abriga a imponente imagem de São Benedito, esculpida em estilo português, possivelmente datada do século XVIII ou início do XIX, com mais três imagens de São Benedito em tamanho pequeno, sendo duas de madeira e uma de gesso. Essas imagens são as que percorrem as Regiões circunvizinhas à área urbana de Bragança (Campos, Praias e Colônias), entre os meses de maio e dezembro, no ritual conhecido por Esmolação. Possui um Altar-mor modificado do original no século XIX quando da troca dos oragos entre Nossa Senhora do Rosário e São Benedito em 1872, além de ornamentação característica, que é o centro de atenção de fiéis e devotos do Santo Negro.

Tem ainda outras imagens sacras, sendo uma imagem de São João Batista do século XVIII (proveniente da antiga Igreja de São João Batista, demolida em 1953, por seu avançado estado de degradação, por ordem do Sr. Augusto Pereira Corrêa, Prefeito Municipal à época, com o consentimento da então Prelazia do Guamá), uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, doada pelas Famílias portuguesas quando da visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima à Bragança, uma imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro vinda da Igreja Catedral de Nossa Senhora do Rosário, na década de 1990 quando da reforma deste último templo, uma imagem de São Pedro com características do século XVIII, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus em gesso de tamanho pequeno e uma imagem do Sagrado Coração de Maria, também em gesso de tamanho pequeno.

Em seu Consistório (ou Sacristia), a Igreja abriga alfaias, paramentos litúrgicos, vestidos do Menino Jesus, bandeiras, instrumentos dos grupos de Esmolação, opas, mastros, flores, materiais religiosos de celebração litúrgica, além de equipamentos elétricos e sonoros.

Algumas modificações no prédio da Igreja foram feitas, incluindo a afixação nas paredes de peças e figuras sacras e populares em cimento armado e esculpido na parte interna da Sala anterior à Sacristia, onde está localizado um altar em madeira trabalhada e portal de vidro contendo em seu interior um Relicário com cinzas do corpo de São Benedito, única peça desta natureza fora da Europa e localizada na Amazônia, vinda para o Brasil por concessão da Ordem Franciscana.

Algumas peças em cimento foram afixadas na parte externa da mesma Sala, que dá para a Rua General Gurjão, onde está localizado um velário em ferro, disponível para os fiéis e devotos depositarem suas velas, especialmente no período da Festividade, que ocorre anualmente entre os dias 18 e 26 de dezembro.

No entorno da Igreja encontram-se o Barracão da Marujada, construído pela extinta Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança em 1960, onde são apresentadas as Danças da Marujada e o Salão Beneditino Maria Abdon Braun (atualmente Benedictus Eventos), construído na década de 1980 pelo falecido Sr. Moisés Isaac Abdon Braun com doações e ex-votos de fiéis e devotos de São Benedito e que passa por readequação. Nesse salão são realizados os Leilões anuais de bens, víveres, alimentos não-perecíveis, obras de arte, entregues durante a Festividade e durante a Esmolação.

Todo esse conjunto de prédios fez parte da ação movida de reintegração de posse movida pela antiga Prelazia do Guamá (hoje Diocese de Bragança) contra a extinta Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança, de 1969 até 1988, quando o desfecho apontou a Diocese como proprietária desse patrimônio.

O imóvel apresenta estado bom de preservação, necessitando de intervenção na sua torre, estrutura de fachada, paredes e piso em ladrilho hidráulico. Foi tombado ao Patrimônio Histórico Municipal pelo Decreto 228/06 de 04 de outubro de 2006 (Art. 1º, Item I) e pelo Patrimônio Histórico Estadual pelo Ato de 11 de setembro de 2006 (publicado no Diário Oficial do Estado do Pará de n.º 30.762, de 11.09.2006), com o tombamento do polígono incluindo o Complexo da Igreja de São Benedito (Templo, Barracão da Marujada e Coreto), na Praça 1º de outubro.

Notas:


[i] Autos de devassa de 1764 – Códice n.° 145. Correspondência de Diversos com o Governo. Anais do Arquivo Público do Pará, v.3, t.1, 1997, especialmente pp.112 – 115.

[ii] Fonte pesquisada no Instituto Histórico e Geográfico do Pará em 2002 e em escritos do Prof. Armando Bordallo da Silva, pesquisador, folclorista e sanitarista.

[iii] Os trabalhos de Aldrin Moura de Figueiredo a respeito das disputas entre as Irmandades de Belém podem dar melhor embasamento teórico ao desejo de ampliar estas pesquisas, com excelente referencial documental e analítico.

[iv] GIAMBELLI, Dom Miguel Maria. Bragança e seus Templos Católicos. Artigo da Diocese de Bragança, 1993.

[v] Atas da Câmara Municipal de Bragança, de 09.01.1854, p. 82, 2a sessão ordinária, presidida pelo vereador Queiroz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário