quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Don Quixote veio de trem (último texto de Maria Lúcia Medeiros, publicado em O Liberal, em 2005)



Don Quixote veio de trem

Quantos viventes emergiriam daquele negrume, daquela escuridão? Quantos, de verdade, atravessariam o enfileiramento de mangueiras que delimitava, à direita e em diagonal, o grande espaço vazio onde se localizava  a casa,  já previamente limitada a 200 metros pela sombra monstruosa da lateral da Estação de trem? Raros passantes, lamparinas acesas, eu via flutuar ao longe; outros mais longe ainda,  cujos sons dos tamancos na terra batida meus ouvidos retiveram para sempre.
Uma vez, entre as mangueiras, eu vi dois homens carregando um morto dentro de uma rede e alguém, à frente, lamparina à cabeça parecia mostrar o caminho do cemitério, localizado lá no fim da rua onde ficava a casa, à minha direita. Soube depois que, em retorno, era comum os homens pararem, mesmo àquela hora da noite, no Café das Almas, bem colado ao cemitério para um trago merecido e uma cuspidela, após tão pesada e árdua tarefa.
Às vezes, à esquerda, debaixo do único poste de parca iluminação, surgia como do nada mesa pequena com toalha alvíssima e em cima dessa mesa panelas brilhantes, luzidias, areadas onde um senhor Izidoro postava-se a vender um mingau mais pobre ainda, cuja escassez de leite fazia com que a miséria resplandecesse debaixo daquela luz.
Quanta vontade de fazer parte daquela ceia iluminada, sem Simão, sem os filhos de Zebedeu, Tomé, Bartolomeu nem Judas Iscariotes nem tampouco o filho de Alfeu.
Mas é que naquele tempo as doenças grassavam: tifo, paratifo, febres terçãs, impaludismo e às crianças de minha família não era permitido alimentos que não fossem feitos em casas seguras, prudência dos meus pais pois médicos só em Belém.
Outra vez uma vaca com as ventas resfolegantes e o barulho dos cascos na terra batida  me fizeram, cheia de pavor, abandonar rapidamente meu mirante minha janela de onde eu via estrelas cadentes, cães vadios, um zeppelin, uma bandeira portuguesa hasteada no alto de um sobrado verde mais à frente fustigada pelo vento que vinha lá de baixo, de onde passavam os barcos, da maré que trazia o cheiro do peixe.
Bem mais tarde, debatendo-me entre certezas, dúvidas, mentiras e verdades desta tão humana vida ou obcecada pelo espírito alucinado de algum pesquisador, quis “passar a limpo” a história do Zeppelin:
Disse-me calmo o poeta Max Martins:
_ Não, não é do teu tempo isso, Maria Lúcia, não deves tê-lo visto.
_Sim, sim, claro que o viste.  Havia até uma base deles em Igarapé-Açu confirmava meu primo e conterrâneo Valdir Sarubi.
Do mingau do homem pobre, da toalha alvíssima e do brilho do alumínio das panelas sob o foco teatral do único poste de iluminação tentei, em vão, munida de um material de desenho, repetir o branco e o brilho dentro do negrume.  Em vão.  Mas a imagem continua irretocável dentro da escuridão, apesar de todos os anos passados.
Jamais cheguei a confirmar minha... digamos, a evidência de meu posto no mirante.  Tudo levava a crer que adultos atentos que eram meus pais não se aperceberem de uma criança sozinha, na ponta dos pés, no escuro da casa, correndo de janela em janela, seria quase impossível.
Quanto aos mortos levados nas redes, imagem repetida dos desassistidos, repetiu-se, repetia-se e nem precisava confirmar.
Quando precisei ir ao dicionário para aclarar a palavra RÓTULA, que era como se chamava em minha cidade para veneziana, encontrei: gelosia, persiana, escotilha, luneta...  Fiquei satisfeita visualizando a palavra veneziana, persiana, rótula (eram móveis) e as comparei pela configuração, pelo desenho delas a pautas, linhas.  E ao fazer o mesmo exercício com as palavras luneta, escotilha, vigia a configuração era, comparativamente, a do óculo, monóculo, binóculo, telescópio, quem sabe?
Sim, tirando as fantasias, limitações naturais, invencionices próprias das crianças, eu, emocionada, confirmei que, de fato, eu lia o amplo vazio, o nada ou o tudo que se postava à minha frente.
Foi então nesse campo já naturalmente adubado pela fantasia que descobrimos, eu e meu primo, o reembolso postal e  a maravilha de receber pelo correio, os livros que começamos a devorar e a disputar quem lia mais livros e maiores.  Lembro de Ubirajara chegando numa manhã esplêndida, o nome de meu primo escrito no pacote do correio.  Sofri, esperando que ele acabasse de ler pra passar pra mim.
Mas o meu Don Quixote não chegou pelo correio.  Veio de trem, presente de minha madrinha e quase fiquei sem fala.  Era meu, era grande, era ilustrado e a partir desse momento minha vidinha de menina, minha história ainda tão pequena, cresceu pros lados e  pra cima, animou-se.  Conheci D.Quixote, Sancho, Rocinante.  Juntei-me a eles  e até hoje combato moinhos de vento.

Ilha do Mosqueiro, abril, 2005.
Maria Lúcia Medeiros

Fonte: Jornal O Liberal.

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