quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Uma caracterização histórica de Bragança

Atendendo aos pedidos de diversos amigos e, especialmente de ex-alunos, que se preparam para o Concurso Público da Prefeitura Municipal de Bragança em 2011, publico abaixo uma Caracterização Histórica do Município de Bragança*, reunida a partir de vários estudos já publicados em diversos materiais, fontes e obras consultadas, minhas e de outros autores. Pela falta de espaço, resumi partes do texto e espero que esse material sirva aos objetivos e perspectivas de todos.
CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA DO MUNICÍPIO DE BRAGANÇA/PA[i]
Prof. M.Sc. Dário Benedito Rodrigues Nonato da Silva[ii]
Segundo estudos históricos e relatos, foram os franceses os primeiros europeus possivelmente a 08 de julho de 1613, numa exploração marítima de reconhecimento e conquista das terras da América, investigaram o litoral paraense. Porém, existem controvérsias sobre a indicação oficial dessa data, segundo diário dos jesuítas que acompanhavam Daniel de La Touche em sua viagem do Maranhão ao Pará.
Essas origens históricas de Bragança remontam ao início da colonização portuguesa no Pará, inserido no processo de conquista, entre tantas lutas que os lusitanos travaram contra estrangeiros e nativos para a manutenção do controle, posse e direito sobre o território. Neste período, a região que se tornou nos dias atuais a cidade de Bragança fez parte de uma estratégia da Coroa para garantir ao Estado português a sua ocupação, passando a ser, por volta de 1677 um assentamento de imigrantes açorianos que, na época, buscavam a esperança numa terra nova.
Arthur Cézar Ferreira Reis (1972) noticiou que os primeiros europeus a fazerem o reconhecimento da área foram os franceses em uma expedição chefiada por Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière composta por homens cultos, como cientistas, geógrafos, botânicos. Teriam explorado o local três anos antes de Francisco Caldeira Castelo Branco, com a intenção de estender suas conquistas, pois já se encontravam estabelecidos no Maranhão e em terras da Guiana. A expedição tinha como comandante Charles des Vaux e permaneceu cerca de um mês às margens do rio Caeté. Somente em 1616, comandados por Castelo Branco, os portugueses chegaram ao local que hoje é a cidade de Belém, capital do Estado do Pará.
Por volta de abril daquele mesmo ano, Caldeira Castelo Branco comandava soldados e índios na construção do Forte do Presépio, às margens do rio Guamá, quando soube da invasão de navios holandeses nas cercanias do forte. Uma forte ação liderada por Pedro Teixeira conseguiu afundar um desses navios.
O comandante pediu auxílio à Coroa, ao Governador do Estado do Brasil, Gaspar de Souza e Capitão-Mor do Maranhão, Jeronymo de Albuquerque, enviando-lhes a notícia sobre a situação encontrada. Para Portugal mandou um navio e para o Maranhão ordenou uma comitiva capitaneada por Pedro Teixeira e Antônio da Costa, que seguiram por terra, escoltados por dois soldados e trinta nativos conhecedores do caminho. Segundo Ernesto Cruz (1955), a comitiva de Pedro Teixeira margeou o rio Guamá até chegar à nascente onde se encontra a cidade de Ourém, passando por terras da atual região bragantina até alcançar a costa às proximidades do rio Turiaçu, no Maranhão.
Foi nesse percurso que Teixeira e sua comitiva tiveram o primeiro contato com o povo que mais tarde faria parte da formação de Bragança: a tribo dos caetés, da poderosa nação Tupinambá. Uma situação nada amigável, já que Baena (1969) conta que os índios tentaram eliminar a comitiva e seu comandante, porém o armamento português, aliado à hostilidade natural entre as tribos que habitavam a região, foi determinante na vitória dos portugueses. Após a batalha, segundo os historiadores, os que sobreviveram se submeteram ao poder do homem branco.
O caminho percorrido por Pedro Teixeira provavelmente já poderia existir como uma trilha usada pelos índios, já que estes guiaram o alferes e seus companheiros. Presume-se, pois, que a comunicação entre Belém e São Luís por algum tempo tenha sido feita por este caminho.
A Coroa decidiu, em 1618, transformar o Maranhão e Grão-Pará em Estado independente devido à extrema dificuldade de comunicação desta região com o Governo Geral do Brasil, instalado na Bahia. Com isso, ficou demarcado que as divisas do novo Estado iriam do Ceará à fronteira setentrional ainda indefinida do Pará. Francisco Coelho de Carvalho foi seu primeiro governador, assumindo o cargo no ano de 1626 em São Luís. Cumpriu um mandato de dez anos (1626-1636), período em que o Estado do Maranhão foi dividido em várias Capitanias hereditárias.
Segundo Heraldo Maués (1969), quando o governador Francisco Coelho de Carvalho veio ao Pará em 1627, ao passar pelo rio Gurupi, desembarcou e estabeleceu os fundamentos de uma povoação cujo nome era Vera Cruz do Gurupi, onde estabeleceu 60 colonos que viajavam com ele. Logo após, deu continuidade à sua viagem até Belém por terra, havendo a hipótese de que teria seguido o mesmo caminho de Pedro Teixeira.
Francisco Coelho de Carvalho teria gostado tanto da região que fundara a povoação que a transformou em capitania, com o nome de Gurupi, doando-a a seu filho, Feliciano Coelho de Carvalho. O rei Felipe III não confirmou, porém, a doação para Francisco Coelho. Em 1633, o filho mais velho de Gaspar de Souza, Álvaro de Souza, resolveu se apossar das terras a que tinha direito por herança e escolheu o sítio que ficava entre o rio Turiaçu e Quatipuru, o que coincidia com o território da Capitania do Gurupi. A nova capitania passou a ser chamada de Caeté.
O primeiro núcleo populacional da colonização na região do rio Caeté (ou Caité = caa + y + eté = mato bom, verdadeiro, na língua tupi), buscou firmar a tentativa de controle e dominação nas áreas da União Ibérica na América, com o nome de Vila Sousa do Caeté. Muitos anos depois, o antigo povoado ficou conhecido como Vila que-era.
O primeiro donatário do Caeté nomeou João de Herrera da Fonseca como seu lugar-tenente e primeiro capitão-mor. Para garantir o progresso da capitania, Herrera providenciou a transferência de aldeias inteiras para as cercanias do povoado. Prova disto é a existência de uma carta do Rei, datada de 1644 (da Coleção de Cartas Régias publicadas pelos Anais da Biblioteca e Arquivo Público do Pará), permitindo que Álvaro de Souza levasse índios para sua capitania.
Outra notícia desta capitania é encontrada em Leite (1943), dando conta de que entre 1674 e 1698, o donatário do Caeté resolveu fazer a transferência da sede das margens do Gurupi para a margem direita do Caeté, alterando o nome de Vera Cruz para Souza do Caeté. Esse período é mencionado por Serafim Leite que não especifica a data da instalação da Vila Souza do Caeté e não menciona o responsável pela mudança. Ernesto Cruz (1955) comenta a possibilidade de ter sido feita na administração de João de Herrera.
Embora o sistema de Capitanias não tenha dado muito certo, os donatários da Capitania do Caeté lutaram por algum tempo para mantê-la. Ernesto Cruz (1955) acredita que em seu início tenha sido prospera, mas com o passar o tempo a falta de colonos e as extremas dificuldades enfrentadas causaram sua falência. Pela Ordem Régia de 14 de junho de 1753, o governador Mendonça Furtado a reverteu para a Coroa após mais de um século sob o domínio da família Souza.
A partir de 1751, com a administração do Marquês de Pombal, a história toma novos rumos e a Província do Maranhão e Grão-Pará entra em novo período, chamado por Arthur Cézar Ferreira Reis de Ciclo Pombalino.
Uma das principais providências do novo ministro para a Amazônia foi transferir a capital de São Luís para Belém, criando a Província do Grão-Pará e Maranhão, combatendo o “sub-aproveitamento e/ou desperdício de suas potencialidades econômicas, devido à completa ausência de um projeto político de base cientifica” (SOUZA JÚNIOR, 2001, p. 37).
Em seguida, nomeou seu irmão ara ser o primeiro governador, Francisco Xavier de Mendonça Furtado. Entrava em vigor uma experiência moderna de colonização mediante o assentamento de famílias, visando à defesa do território e à povoação das localidades por meio do incentivo à formação de famílias constituídas por brancos e índios com o objetivo de fortalecer os laços portugueses nas novas terras.
Para executar as novas ordens, Mendonça Furtado “procedeu a uma revisão integral dos padrões de vida” (REIS, 1972, p. 59), visitando todas as povoações e elevando à categoria de vila antigos aldeamentos missionários que tinham potencialidades para sobreviver. Todas as Capitanias hereditárias abandonadas ou falidas foram reincorporadas ao patrimônio real. A Capitania do Caeté foi uma delas.
Quando passou pela área do Salgado em 1753, o governador entendeu que seria necessária a intervenção estatal na revitalização da região, pois as salinas do litoral que estavam sendo exploradas pelos jesuítas poderiam acrescentar recursos aos cofres da Coroa. Segundo Cruz (1955), o governador teria atribuído a decadência da Capitania aos constantes conflitos entre colonos e missionários provocados pela escravização indígena.
Iniciou os trabalhos de revigoramento, primeiramente transferindo o povoado para a margem esquerda do rio Caeté, elevando-o à categoria de vila, que denominou Vila de Nossa Senhora do Rosário de Bragança. Mandou implementar melhorias, como a construção de residências para novos colonos e a plantação de duas grandes roças à custa do Tesouro Real, onde seriam cultivados a mandioca e alguns legumes possíveis. Como na época, a comunicação com Belém pelo mar era difícil, mandou abrir uma estrada que ia da nascente do Caeté até a Casa Forte no Rio Guamá, onde hoje é Ourém, para facilitar o transporte da produção dos colonos para Belém. Também proveu o porto do Caeté com canoas, para que os colonos fossem pelo rio até sua cabeceira e de lá seguissem pela nova estrada. O governo também providenciou, nas proximidades da Casa Forte, a abertura de um estabelecimento de ensino da Língua Portuguesa aos jovens.
Apesar de todos esses esforços feitos para deslocar os colonos para a região, até mesmo a tentativa de transformar degredados em colonos na resultou em uma presença portuguesa significativa. O maior desafio de Pombal foi tentar resolver a situação dos nativos, que viviam entre os trabalhos impostos pelos colonizadores e a fuga para as aldeias dos missionários jesuítas em busca de proteção. Esses padres lutaram abertamente contra os colonos nas suas pretensões de escravização da mão-de-obra indígena. Com isto, os povoados se esvaziavam e não progrediam.
A política indianista aplicada primeiramente na Amazônia e estendida ao restante do Brasil implicava na transformação do índio em cidadão do Reino português, tirando-o da condição de escravo e dando-lhe o status de homem livre, utilizando estratégias como a obrigatoriedade do ensino da Língua Portuguesa, a regulamentação do trabalho indígena, a transformação das aldeias em vilas, a aceitação do índio no serviço militar, o estímulo do casamento do entre índios e colonos, a proibição da habitação coletiva separando as famílias em residências, a obrigatoriedade em acrescentar ao nome do índio um sobrenome português e a introdução de colonos em povoações indígenas.
Entretanto, essa empreitada não foi fácil para o novo governo. Mendonça Furtado enfrentou alguns problemas com os missionários, desta vez os do Caeté, que segundo Ernesto Cruz (1955), tentaram, por todos os meios que lhes alcançavam. Impedir a restauração da vila. Nessa peleja, o padre teria chegado a insultar o Ouvidor-Geral, que esteve na região para observar o trabalho de abertura da estrada entre a nascente do Caeté e a Casa Forte do Guamá. Como conseqüência daquela atitude, o governador mandou instalar na vila de Bragança uma guarda militar comandada pelo Tenente Inácio de Castro Sarmento, que, além de manter a ordem, tinha a missão de arrecadar os dízimos das salinas e pescados da região.
O Grão-Pará foi o primeiro estado a receber imigrantes açorianos, no início de 1677, para o desenvolvimento da região em atividades próprias das experiências que já realizavam sob o signo da colonização portuguesa. No Pará, podem ser citadas a pesca e a agricultura, atividades que até os dias atuais são largamente exercidas em Bragança e região. Segundo César Pereira (1963), os açorianos trouxeram sua cultura e procuraram imprimi-la em seu quotidiano, nas novas terras ocupadas.
Apesar de todas as dificuldades, o trabalho escravo negro, aos poucos, foi substituindo a mão-de-obra indígena, intensificando-se a partir da segunda metade do século XVIII, quando os navios negreiros aportavam em Belém. Isto foi facilitado com a criação da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755. Em Bragança, a exemplo do que ocorreu em outras localidades, o escravo negro foi empregado como auxiliar na lavoura, concorrendo para que a cidade se tornasse um entreposto entre São Luís e Belém.
Somente em 1854, através da Resolução de n.º 252, de 02 de outubro, a vila tornou-se cidade, por determinação do Presidente da Província, tenente-coronel Sebastião do Rego Barros, com o nome de Bragança.
Bragança é uma das cidades mais importantes da Zona Bragantina, referenciando-se pela população hospitaleira, o comércio, a agricultura, a organização socioeconômica e sua posição geográfica entre o Pará e o Maranhão. Antes da implantação da Estrada de Ferro de Bragança, em 1908, as relações com Belém e São Luís eram feitas através de viagens marítimas, demoradas e perigosas; ou então pela via do Guamá, onde metade da viagem era feita por terra, a pé ou a cavalo, a outra metade em embarcações, rio abaixo, até a cidade de Belém. Anos mais tarde, esse trajeto foi feito em pequenos navios da Companhia Costeira do Maranhão. Por essa circunstância criou-se em Bragança uma sociedade estável devido às relações comerciais com a capital do Estado do Maranhão.
A população bragantina desenvolveu-se a custa dos três grandes elementos étnicos: o branco, o índio e o negro. A maior parte da população hodierna mestiçou com a indígena se integrando à civilização cristã, dando origem à população cabocla. A diversificação de hábitos materiais, espirituais e de um modo geral culturais, é uma conseqüência da miscigenação entre branco e índio, formando um outro padrão de vida. Elucida-se que, o elemento branco colonizador de Bragança, foi aquele constituído por trinta casais açorianos enviados pelo governador Mendonça Furtado. A população indígena era formada por elementos da nação Tupi, já citada anteriormente.
Entre 1897 e 1900 verificou-se nova imigração de europeus, desta feita com os espanhóis, em número de 956 colonos, localizando-se na Colônia Agrícola Benjamin Constant, no distrito de Tijoca. O negro em grande percentagem ofereceu sua contribuição com os traços dominantes da língua, costumes e crendices. Nota-se também a presença de migrantes nordestinos advindos para o trabalho nos seringais e nas demais regiões, como a do Almoço, Montenegro e dos Campos.
A história da Região Bragantina confunde-se com a história da Estrada de Ferro de Bragança a Belém. Tanto que o crescimento percebido, tanto social como cultural e econômico veio através do trem. Outro fator importante na construção das ferrovias foi a possibilidade de unir por via terrestre grandes extensões territoriais, ligando regiões que até então se encontravam isoladas, possibilitando o escoamento de produção agrícola e favorecendo o surgimento de novas cidades, suscitando assim uma especulação imobiliária.
A Estrada de Ferro é um marco histórico na vida de Bragança, daí porque ela serve de baliza no tempo, na periodização da história do mundo caeteuara. Alguns historiadores, como Ubiratan Rosário (2000) distinguem nitidamente três fases:
1ª) Fase pré-ferroviária (período de formação) que vai de 1613, com a chegada dos colonizadores europeus, no Caeté, até 1908, implantação e término da ferrovia, num período que envolve a lenta fase, da Colônia, do Império e da República Velha até os primeiros anos do século XX, quando Bragança passou por um crescimento organizado e encabeçado pelo governo do Major Antônio da Costa Rodrigues.
2ª) Fase ferroviária (período do conhecido e suposto auge e da maturação) que vai de 1908, com a instalação da Estrada de Ferro de Bragança até 1966, quando por ato do governo militar fica extinta a ferrovia, interrompendo esse ciclo como fim do primeiro despertar bragantino.
3ª) Fase pós-ferroviária (período de mutação) que provocou inicialmente certa depressão, com ameaças de decadência, com perdas de funções econômicas e políticas, com retração de seu território municipal e de tensão nos espaços da comunidade caeteuara, além da mitificação da Estrada de Ferro como símbolo da modernidade e do enriquecimento da elite bragantina, ainda lembrado por muitos dos seus contemporâneos.
Bragança instituiu uma sociedade baseada na educação portuguesa, o que influenciou nos hábitos, costumes e na vida social de seus habitantes, observando-se, ainda hoje, tais padrões nos casarões revestidos de azulejos importados, com aspectos nitidamente lusitanos, obviamente instalados nas áreas urbanas privilegiadas, fortalecendo o caráter de camada (ou classe) superior da sociedade. Pode-se observar que a cidade no começo do século XX era um município próspero, organizado, com um setor comercial que já alcançava todos os ramos e estava prestes a ser ligada à ferrovia. Sua rua principal estava localizada onde hoje está o centro comercial, para onde afluíam as pessoas da cidade e do interior vender e comprar gêneros de todos os tipos.
A arquitetura de Bragança recorda a Belle-Époque no belíssimo Coreto Pavilhão Senador Antônio Lemos, inaugurado em 1910, quando também aparece o primeiro jornal do ciclo, “O Comércio”. Em 1911 inaugura-se o belo Mercado Municipal. A cultura local vai viver sua vertigem final nos anos 50, quando Armando Bordallo da Silva, à frente da Comissão Paraense de Folclore, leva de Belém a Bragança, a I Jornada Paraense de Folclore, realizada entre os dias 22 e 27 de dezembro de 1958.
Com o processo de expansão e urbanização, iniciado a partir de 1900, Bragança foi sofrendo a descentralização de sua população, com a construção de novas obras, acompanhando o surto de progresso que se estabelecera no município, o que deslocou para estes “novos bairros” a grande massa de nordestinos e colonos do interior. Tudo o que se destinava ao melhoramento das obras era gerido por um extenso, mas eficaz, Código de Posturas Municipais.
Construída com a finalidade de escoar a produção agrícola da Zona Bragantina para o consumo da capital e das áreas com mão-de-obra ocupada na extração da borracha exportada para a indústria automobilística internacional, a Estrada de Ferro de Bragança, como meio moderno e regular de transporte, assegurava a exportação e valorização dos produtos da roça, o que contribuía para o surgimento de uma classe endinheirada, capaz de financiar nas décadas de 20, de 30, de 40, e de 50 uma elite intelectual produtora de jornais e revistas, criadora de grêmios e associações recreativas e culturais, tudo como reflexo da opulência agrícola e comercial, a refletir-se na fachada dos casarões.
A sociedade bragantina, formada antes por índios, padres e colonos, depois por senhores, escravos e também padres, passou a ser, na fase ferroviária (1908-1966), a sociedade de proprietários de plantação e de “sítios”, sociedade de trabalhadores, caboclos – os “caboclos do sítio” – que eram, na verdade, os mais autênticos portadores do rico folclore bragantino, da Cavalhada à Marujada, do Boi-bumbá ao Xote, institucionalizadas pelas irmandades religiosas, enfatizando-se a do Glorioso São Benedito.
No seu auge ferroviário, essa sociedade integrava os lavradores, pescadores, comerciantes (enriquecidos com a evolução dos ciclos da borracha e da castanha-do-pará), conforme Maria de Nazaré Sarges (2002). Também doutores, médicos e advogados “aprovisionados” e outros que vieram graduados da capital. Homens ilustres chegam, tanto da capital quanto do vizinho Estado do Maranhão. Apareceram aí poetas, jornalistas, fazedores de jornais e revistas, bem como uma incipiente historiografia local, como a dos irmãos Bordallo da Silva, de Coutinho de Campos e de João Henrique de Araújo.
Depois do Lemismo do Laurismo, influenciaram a política bragantina o Baratismo e o Anti-baratismo. Das lideranças políticas dessa fase ferroviária, projetaram-se Augusto Corrêa (anti-baratista), Lobão da Silveira (baratista), que acabou senador pelo Partido Social Democrático, e ao qual caberia como destino no Senado, fazer o apelo desesperado em nome de seu município e em nome da Zona Bragantina, contra o projeto de extinção da Estrada de Ferro de Bragança. Devemos reconhecer que no período anterior à ferrovia, a sociedade não ficara alheia e incólume aos macro-eventos regionais da Amazônia, como a Cabanagem que também a envolveu.
De uma maneira geral, os habitantes desse município mantiveram suas características gerais: povo provinciano e não apegado a interesses comuns, mas particulares, o que quase sempre se apresentou na falta de conservação do nosso patrimônio histórico, cultural, arquitetônico e literário, na identificação e prática da cidadania, grande mal para a História recente e para a formação educacional de seu povo.
Pela Lei de n.º 658, de 31 de outubro de 1870, que motivava a construção da ferrovia, o governador concedeu incentivos às companhias que se interessassem em construí-la. Segundo Ernesto Cruz, a via férrea começaria no Marco de Pedra que assinalava a primeira légua patrimonial de Belém e terminaria na cidade de Bragança.
Bragança era o município mais populoso da microrregião bragantina. As migrações ocorreram com a construção da “Estrada de Ferro Belém-Bragança”, principalmente por grupos de nordestinos que aqui se concentravam; vindo muito depois os japoneses que se estabeleceram como introdutores da policultura. Com o censo populacional de 2000, o município de Bragança tinha cerca de 100 mil habitantes, sendo que 70% dos bragantinos vivem na cidade.
Iniciada em Belém, durante a Monarquia, em 1883, a Estrada de Ferro de Bragança chegou a Jambuaçu em 31 de dezembro de 1897; a Livramento em 9 de março de 1903. Em 1905, atingiu Igarapé-Açu. A Peixe-Boi dia 1º de março de 1907. A Capanema a 16 de novembro. A Quatipuru dia 24 de fevereiro. Finalmente a Bragança chega em 3 de maio de 1908. Daí estende-se até o Sapucaia em 9 de maio desse ano.
Atualmente, tem uma área de 2.090,234 km² e situa-se na mesorregião do Leste Paraense e microrregião Bragantina, que adota seu adjetivo pátrio numa zona de interseção entre o Pará e o Maranhão. Limita-se ao Norte com o Oceano Atlântico; ao Sul com os municípios de Santa Luzia do Pará e Viseu; a Leste pelo município de Augusto Corrêa e a Oeste pelos municípios de Tracuateua e Capanema. Segundo estimativas do IBGE (2006), a população é de aproximadamente 103.751 habitantes com densidade populacional de 49,6 hab/km².
Sua posição está a 30 metros de altitude em relação ao mar. Tem sua posição geográfica determinada pelo paralelo 01º03’17’ de Latitude Sul em sua interseção com o meridiano de 46º 45’54’ de Longitude Oeste (Greenwich).
A climatologia de Bragança obedece ao clima amazônico. No período de janeiro a maio, as chuvas prejudicam sensivelmente as culturas; de junho a agosto, o de maior normalidade para o cultivo e no período de setembro a dezembro, verifica-se o excesso de estiagem, o clima megatérmico e úmido. A temperatura média anual fica em torno de 26º C. De outubro a dezembro ocorrem temperaturas elevadas, registrando-se até máximas de 40º C. Os meses de março e abril são os mais frios, e em junho, normalmente, ocorrem baixas em torno de 14º C. A precipitação pluviométrica média anual é de 2.250 mm., sendo maior a concentração nos meses de fevereiro a abril (55%) e menor de agosto a dezembro (8%), com certo período seco de 3 a 4 meses. A umidade relativa do ar fica em torno de 80%.
A costa marítima é recortada por furos, baías e ilhas, onde deságuam inúmeros pequenos rios, importantes como fertilizadores e como vias de transporte, sendo principal o rio Caeté que nasce em Bonito com o nome de “Caetezinho”; atravessa Ourém, na Vila de Arraial do Caeté; passa por Santa Luzia cortando a Rodovia BR-316; atravessa a Rodovia Dom Eliseu, no km 30, Vila Mocajuba e assim sucessivamente, passando por Bragança até desaguar no Oceano Atlântico.
O rio Caeté sofre influência do movimento das marés. Seu desaguadouro apresenta uma sinuosidade e com pequenos trechos com pouca profundidade. Possui no território bragantino um trecho de aproximadamente 60 km navegáveis por embarcações de porte médio de até 200 toneladas. À margem esquerda, numa planície de pequeno declive, está situada a cidade de Bragança, 30 km distante do litoral, onde se encontra uma das mais belas praias do Brasil, Ajuruteua.
O litoral é constituído por uma baixa litorânea, costa lodosa cheia de reentrâncias e sujeita a inundações periódicas das marés. Encontram-se pequenos rios, originados de igarapés e furos, dentre os quais sobressaem: Tracuateua, Jejuí, Cajueiro, Urumajó, Quatipuru; as ilhas: Buiuçucanga, Mucum, Caeté e Ajuruteua, as praias: Ajuruteua, Maiau, Mucum.
O Município de Bragança apresenta como características gerais uma topografia de plana a ondulada, com grande tendência à erosão moderada, em limitado campo para plantação e impedimento à manutenção contínua da mecanização, por sua limitada possibilidade de nutrientes. Na zona campesina, surge um nível de colinas de topo aplainado, correspondendo aos tabuleiros da formação de barreiras com altitude média de 30 metros, onde se aprofundam seus vales.
Observam-se solos envelhecidos e fortemente ácidos de boa drenagem, permeáveis e de baixa fertilidade natural (latossolo amarelo) existindo ao norte, solos de baixadas inundáveis, pouco profundos e com características associadas ao encharcamento (solos indiscriminados de mangue) e também solos minerais predominantemente em desenvolvimento, provenientes da deposição fluvial e do arraste na Bacia Hidrográfica (solos hidromórficos e aluviais).
No início da conquista do território onde está hoje a cidade de Bragança, a vegetação florestal predominante era perenifólia, hidrófila, floresta amazônica de terra firme, profundamente modificada, em vista dos empreendimentos colonizadores da extinta Estrada de Ferro. Hoje, o que predomina é uma vegetação secundária com lavouras temporárias. No litoral, ocorrem densos manguezais e campos aluviais flúvio-marinhos, ocupados, principalmente pelo capim-de-maneca e por uma palmeira semelhante a babaçu; a noroeste da sede do município, os campos de Bragança. As espécies características da floresta densa são: acapu, tachi, açaí e pau mulato. A faixa litorânea e os baixos cursos são acompanhados continuamente por manguezais, até onde se faz sentir a influência das marés, regionalmente conhecida por apicum. Entre as principais espécies destacam-se o mangue vermelho e o mangue seriva ou siriúba.
A cultura exposta na história de Bragança se manifesta de forma mais acurada na celebração da Festividade do Glorioso São Benedito, organizada em 03 de setembro de 1798 e que se constitui como a maior contribuição de fé e cultura, de história e folclore do povo, em honra ao Santo Negro, iniciada pelos antigos escravos da vila, cujas datas principais são os dias que compreendem o período de 18 a 26 de dezembro, quando acontece a festa e a procissão solene.
Aliada a festa e não podendo dela ser desvencilhada, acontece a Marujada, que reúne rituais coreográficos como a Roda, o Retumbão, o Chorado, a Mazurca, o Xote, a Valsa, o Arrasta-pé e a Contra-dança. O que o quotidiano nega àquelas pessoas o tempo da festa proporciona, com certa posição de superioridade perante os demais, dando mais ênfase aos humildes. É o binômio festa e dança que permite a recriação, pelos marujos e marujas, da sua identidade de grupo social dentro de um sistema mais abrangente que é o conjunto da sociedade. É pela festa e pela dança que a presença da Marujada, cada vez mais marcante no cenário regional, se recria e retoma o amplo aspecto de dominação que a gerou e o espírito que a sustentou durante os mais de duzentos anos de história.
Os pontos mais visitados da cidade de Bragança estão ligados fortemente ao Centro Histórico e ao Largo de São Benedito. Todo o complexo, formado pela Igreja (construída por volta de 1753, de herança jesuíta, com traços barrocos na parte interna, abrigando a efígie de São Benedito, centro dos festejos da Marujada); Praça Fernando Guilhon, Prefeitura Municipal de Bragança (Palacete Augusto Corrêa, construção datada do início do século XX); Coreto Pavilhão Senador Antônio Lemos, trazido da Europa e montado em 1910, na administração do Intendente Antônio da Costa Rodrigues, no centro da Praça Antônio Pereira.
A seguir, uma tabela com os Desmembramentos Geográficos ocorridos a partir da criação da Capitania do Caeté até o Município de Bragança, com a legislação aplicada e os motivos geradores:

Desmembramentos geográficos ocorridos a partir da criação de Bragança

Ano
Lei / Decreto

Motivos

1852
Decreto Imperial n.º 639, de 12/06/1852.
Capitania do Caeté foi anexada à Província do Maranhão.
1856
Lei n.º 301, de 22 de dezembro de 1856.
Criação do Município de Viseu.
1879
Lei n.º 934, de 31 de julho de 1879.
Criação do Município de Quatipuru.
1955
Lei n.º 1227, de 11 de março de 1955.
Criação do Município de Urumajó (atualmente Augusto Corrêa).
1961
Lei n.º 2460, de 29 de dezembro de 1961.
Parte da área desmembrada para a composição do Município de Augusto Corrêa.
1991
Lei n.º 5688, de 13 de dezembro de 1991.
Parte da área desmembrada para a criação do Município de Santa Luzia do Pará.
1994
Lei n.º 5858, de 29 de setembro de 1994.
Parte da área desmembrada para a criação do Município de Tracuateua.
Fonte: IBGE
Referências Bibliográficas:
BAENA, Antônio Ladislau. Compêndio das Eras da província do Grão-Pará. 2.ed. Belém: Universidade Federal do Pará, 1969.
BRAGANÇA 200 Anos de Marujada. Revista Ver-o-Pará. n.º02. Belém: Ver Editora, maio 1998.
CRUZ, Ernesto. A estrada de ferro de Bragança: visão social, econômica e política. Belém: Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, 1955.
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1943. t. 3.
MAUÉS, Raymundo Heraldo. Origens históricas da cidade de Bragança. Separata. Revista de História. n.º 72. São Paulo: 1969.
NONATO DA SILVA, Dário Benedito Rodrigues, A essência beneditina: escravidão e fé na Irmandade de São Benedito em Bragança, do século XVII ao XIX. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura e Bacharelado em História). Bragança: UFPA, 2002.
NONATO DA SILVA, Dário Benedito Rodrigues. Uma História de Bragança sob novos olhares. Cartilha. Bragança: Prefeitura Municipal de Bragança; SEPLAN, 2008-2009.
REIS, Arthur Cézar Ferreira. Síntese de história do Pará. São Paulo: Amazônia Edições Culturais, 1972.
ROSÁRIO, Ubiratan. Saga do Caeté: folclore, história, etnografia e jornalismo na cultura amazônica da Marujada, Zona Bragantina, Pará. Belém: CEJUP, 2000.
SOUZA JÚNIOR, José Alves de. O projeto pombalino para a Amazônia e a “doutrina do índio-cidadão”. In: ALVES FILHO, A; SOUZA JÚNIOR, José Alves de; BEZERRA NETO, José Maia. Pontos de história da Amazônia. 3. ed. Belém: Paka-Tatu, 2001. vol. 1.
*Observações importantes: Qualquer publicação desse material sem a prévia consulta ao autor não está autorizada e se constitui em crime sujeito às penalidades da legislação brasileira.

[i] Parte componente da cartilha de NONATO DA SILVA, Dário Benedito Rodrigues. Uma História de Bragança sob novos olhares. Cartilha. Bragança: Prefeitura Municipal de Bragança / SEPLAN, 2008-2009.
[ii] Historiador e professor de História (UFPA 2002), Mestre em História Social da Amazônia (UFPA 2006), professor da UFPA Campus de Bragança. Pesquisador da História de Bragança com ênfase na História Urbana.

7 comentários:

  1. Esse texto é maravilhoso por isso eu gostaria de saber qual foi a contribuição do negro no processo de formação da sociedade bragantina.

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  2. Como adquiro um exemplar da cartilha publicada pela prefeitura de Bragança?

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  3. Respostas
    1. Lewis Biomatemático, acredito que ao ler o texto percebeu que não se fala em fundação, início de cidade ou argumento que o valha. Na construção do texto, estão citadas com detalhes as fontes utilizadas e consultadas. Considero bastante controverso o episódio citado em D'Evreux, tanto que assim o apresentei. Sobre fontes citadas por você como oficiais, é preciso analisar essa oficialidade totêmica e monumental, mesmo porque não coaduna-se com a análise histórica do conceito de cidade. Outra menção ao seu comentário, é necessário compreender que o termo Cayté (Caeté) refere-se a espaços geográficos muito amplos e presentes na identificação de lugares pelos indígenas de diversas regiões do Brasil à época. Fico feliz com a leitura e com o comentário, pelo que agradeço.

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  4. gente gostaria de uma informação sobre raimundo alves piranha qual, o motivo da expulsão dele da vila do caeté

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  5. amigo bom dia, gostaria de saber , e queria saber porque alguns colonos foram expulsos da regiao , tipo raimundo alvez piranha , fundador da vila de quatipuru

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