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quinta-feira, 11 de julho de 2013

A cidade de Bragança como inspiração literária será tema de mesa redonda

Os escritores Lindanor Celina, Jorge Ramos e Maria Lúcia Medeiros, que encantam leitores e leitoras de várias gerações e que através de suas obras literárias tomam a cidade como inspiração para suas obras, nos estilos mais variados, como romance, poesia e crônicas, serão lembrados amanhã, dia 12 de julho de 2013, na mesa redonda “A cidade como fonte de inspiração: Bragança vista por seus escritores e escritoras”, num evento organizado em parceria com a Prefeitura Municipal de Bragança e Instituto de Artes do Pará (IAP), dentro na programação dos 400 anos de Bragança.
Os facilitadores serão os professores João Jorge Reis, Dário Benedito Rodrigues e o escritor Alfredo Garcia. O evento acontecerá no Barracão da Marujada, no Largo de São Benedito, ao lado da igreja, a partir das 18h. com entrada franca.
Participem! Até lá.


sábado, 8 de setembro de 2012

Saudades de Maria Lúcia Medeiros *15.02.1942, +08.09.2005



Traços biográficos
 Maria Lúcia Fernandes de Medeiros, Maria Lúcia ou simplesmente Lucinha, nasceu em Bragança, em 15 de fevereiro de 1942. Apaixonada por sua terra natal, morou em Bragança até os 12 anos, quando se mudou com parte da família para Belém, onde graduou-se em Licenciatura Plena em Letras, pela Universidade Federal do Pará, aonde atuou como pesquisadora e docente. Sempre que podia, visitava seus conterrâneos e distribuía carinho e conversas à tarde com seus amigos.
Foi a primeira professora de Redação e de Literatura Infanto-juvenil, disciplina que ajudou a inserir no desenho curricular do Curso de Letras da Universidade Federal do Pará, à época. Era também uma grande colaboradora da Universidade da Amazônia (UNAMA) em Belém, envolvida em projetos e palestras, chegando a publicar textos de sua autoria na revista da UNAMA intitulada Asas da Palavra, desde 1995.
Sobre Bragança, Maria Lúcia deixa uma pista em seu depoimento no documentário intitulado A Escritura Veloz, de Mariano Klautau Filho (produção independente, em VHS, de 1994):
“Eu nasci em Bragança, uma cidade simples do interior, com um trem de ferro e um rio na frente. Tive, portanto, uma infância bem brasileira: quintal, primos, frutas, tios, igreja, cinema Olympia. Em Belém já cheguei quase adolescente e meus fantasmas viviam sob as mangueiras, nas ruas largas, na arquitetura imponente de uma cidade de 250 mil habitantes que era Belém dos anos 50.
Quando descobri os livros, descobri um outro jeito de viver. Personagens, situações, lugares ajudavam meu aprendizado do mundo. Ler para mim sempre foi uma salvação. Agora, escrever, acho que sempre escrevi. Lembro que muito menina eu me recolhia e escrevia, escrevia para mim”.

Imagem 1: Maria Lúcia Medeiros, em outubro de 2002. Acervo pessoal.

A escritora, a pesquisadora, a professora e a bragantina
 Com sua seriedade foi uma escritora de excelente produção literária, além da função de professora e poeta. Reconhecida como uma das maiores contistas paraenses. Tornou-se um dos mais importantes ícones literários do Pará.
Seus livros falam de sentimentos, entre eles a angústia e a solidão, com destaque para o viés emocional e da personalidade da escritora bragantina e são ambientados numa época chamada por ela de “modernidade”. Um exemplo disso é o livro Horizonte Silencioso, em que se destaca uma linguagem de enorme nostalgia, quando Maria Lúcia abordava a mudança do tempo, aspectos de sua infância e adolescência.
Seus textos eram fortes e quase autobiográficos. Sua escrita marcante era facilmente descoberta por seus leitores e admiradores da sua obra. Entre seus livros mais lidos estão os contos em Velas por quem? e Zeus ou a Menina e os Óculos.

Imagem 2: Capa de Zeus ou a Menina e os Óculos, livro de Maria Lúcia Medeiros, com arte de Valdir Sarubi. Acervo pessoal.

Em sua atuação como professora, ajudou a realizar o processo de registro e de tombamento em nível de Estado da Residência da família Medeiros, situada em Bragança, local onde ela costumava se hospedar nas suas visitas à terra natal.
Alguns de seus livros já foram listados entre as leituras obrigatórias de processos seletivos da UFPA, assim como em salas de aulas do Ensino Médio por todo o Estado. Lucinha também ajudou a fundar a Casa da Linguagem, sendo uma de suas consultoras.
Foi homenageada na Feira Pan-Amazônica do Livro no ano de 2004, com um sarau intitulado “O elemento fabuloso da narrativa de Maria Lúcia Medeiros”. No mesmo evento, o curta-metragem Chuvas e Trovoadas, filme baseado na obra homônima de Lucinha foi apresentado, sob a direção de Flávia Alfinito. No filme ambientando em Belém, quatro moças são estudantes de corte e costura em algumas tardes do período da Belle-Époque amazônica.
A película de Flávia Alfinito, produzida de forma independente, conta com a narração do ator José Mayer e a participação das atrizes Patrícia França, Suzana Faine, Andréia Rezende, Andreia Paiva e Francis, recebendo o prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Gramado, principal premiação do cinema brasileiro, em 1995.
O último texto escrito por Maria Lúcia Medeiros, na Ilha de Mosqueiro, em abril de 2005, tinha como título Don Quixote veio de trem, momento em que ela já estava bastante doente e com boa parte de seus movimentos comprometidos (clique aqui para ler o texto).
Em suas passagens por Bragança, sempre visitava amigos e conversava com seus contemporâneos, além de participar de eventos. Entre esses eventos, participou da VII Feira de Ciências da EEEFM Bolívar Bordallo da Silva, acompanhada da Prof.ª Mariana Bordallo, mantendo contato com professores e alunos daquele estabelecimento de ensino, em especial, no Projeto Revivendo Bragança.

Imagem 3, 4 e 5: Alunos e professores durante a apresentação do projeto Revivendo Bragança, na VII Feira das Ciências da EEEFM Bolívar Bordallo da Silva, em outubro de 2002. Acervo pessoal.

A apresentação do projeto foi orientada e coordenada pelos professores de História Dário Benedito Rodrigues e Conceição Ribeiro e a participação de 24 alunos do 2º ano do Ensino Médio (Turmas N, O, P, Q e R) do 2º turno da escola. Maria Lúcia ficou bastante emocionada com tudo o que viu e chegou a fazer uma linda homenagem, dias depois, aos alunos e professores do referido projeto no Encontro Bragantino de Estudantes de Letras.

Morte
Maria Lúcia Medeiros foi acometida por uma doença degenerativa conhecida como esclerose lateral amiotrófica, por alguns anos antes de seu falecimento, que paralisou gradativamente seus movimentos, impedindo-a de falar e se expressar, mesmo mantendo a lucidez, o que lhe causou uma situação de séria debilidade. Internada por mais de trinta dias, faleceu às 15 horas de 08 de setembro de 2005, uma quinta-feira, em Belém, aos 63 anos. Deixou 3 filhos.
Seu velório aconteceu no Núcleo de Artes da UFPA, na Praça da República. Seu corpo foi cremado no cemitério Max Domini, no dia 08 de setembro e no dia 11 do mesmo mês, seus familiares depositaram suas cinzas pela Ilha de Mosqueiro, região metropolitana de Belém, um dos lugares prediletos da escritora.
Foi uma das escritoras paraenses homenageadas pelo Instituto de Artes do Pará na edição do Prêmio IAP de Artes Literárias de 2011, na categoria Contos.

Algumas obras de Maria Lúcia Medeiros
Zeus ou a menina e os óculos. São Paulo: R. Kempf, 1988.
Velas, por quem? Belém: CEJUP, 1991.
O Lugar da errância. In: D’INCAO, Maria Angela, SILVEIRA, Isolda Maciel da (Org.). A Amazônia e a crise da modernização. Belém: MPEG, 1994.
Quarto de hora. Belém: Cejup, 1994.
Horizonte silencioso. Boi Tempo, 2000.
Céu Caótico. Belém: SECULT, 2005.

Observações importantes: A reprodução total e/ou parcial dos textos e imagens contidos nessa postagem devem ter a autorização expressa do autor do blog. O não cumprimento dessa premissa está sujeito às penalidades da legislação em vigor.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Don Quixote veio de trem (último texto de Maria Lúcia Medeiros, publicado em O Liberal, em 2005)



Don Quixote veio de trem

Quantos viventes emergiriam daquele negrume, daquela escuridão? Quantos, de verdade, atravessariam o enfileiramento de mangueiras que delimitava, à direita e em diagonal, o grande espaço vazio onde se localizava  a casa,  já previamente limitada a 200 metros pela sombra monstruosa da lateral da Estação de trem? Raros passantes, lamparinas acesas, eu via flutuar ao longe; outros mais longe ainda,  cujos sons dos tamancos na terra batida meus ouvidos retiveram para sempre.
Uma vez, entre as mangueiras, eu vi dois homens carregando um morto dentro de uma rede e alguém, à frente, lamparina à cabeça parecia mostrar o caminho do cemitério, localizado lá no fim da rua onde ficava a casa, à minha direita. Soube depois que, em retorno, era comum os homens pararem, mesmo àquela hora da noite, no Café das Almas, bem colado ao cemitério para um trago merecido e uma cuspidela, após tão pesada e árdua tarefa.
Às vezes, à esquerda, debaixo do único poste de parca iluminação, surgia como do nada mesa pequena com toalha alvíssima e em cima dessa mesa panelas brilhantes, luzidias, areadas onde um senhor Izidoro postava-se a vender um mingau mais pobre ainda, cuja escassez de leite fazia com que a miséria resplandecesse debaixo daquela luz.
Quanta vontade de fazer parte daquela ceia iluminada, sem Simão, sem os filhos de Zebedeu, Tomé, Bartolomeu nem Judas Iscariotes nem tampouco o filho de Alfeu.
Mas é que naquele tempo as doenças grassavam: tifo, paratifo, febres terçãs, impaludismo e às crianças de minha família não era permitido alimentos que não fossem feitos em casas seguras, prudência dos meus pais pois médicos só em Belém.
Outra vez uma vaca com as ventas resfolegantes e o barulho dos cascos na terra batida  me fizeram, cheia de pavor, abandonar rapidamente meu mirante minha janela de onde eu via estrelas cadentes, cães vadios, um zeppelin, uma bandeira portuguesa hasteada no alto de um sobrado verde mais à frente fustigada pelo vento que vinha lá de baixo, de onde passavam os barcos, da maré que trazia o cheiro do peixe.
Bem mais tarde, debatendo-me entre certezas, dúvidas, mentiras e verdades desta tão humana vida ou obcecada pelo espírito alucinado de algum pesquisador, quis “passar a limpo” a história do Zeppelin:
Disse-me calmo o poeta Max Martins:
_ Não, não é do teu tempo isso, Maria Lúcia, não deves tê-lo visto.
_Sim, sim, claro que o viste.  Havia até uma base deles em Igarapé-Açu confirmava meu primo e conterrâneo Valdir Sarubi.
Do mingau do homem pobre, da toalha alvíssima e do brilho do alumínio das panelas sob o foco teatral do único poste de iluminação tentei, em vão, munida de um material de desenho, repetir o branco e o brilho dentro do negrume.  Em vão.  Mas a imagem continua irretocável dentro da escuridão, apesar de todos os anos passados.
Jamais cheguei a confirmar minha... digamos, a evidência de meu posto no mirante.  Tudo levava a crer que adultos atentos que eram meus pais não se aperceberem de uma criança sozinha, na ponta dos pés, no escuro da casa, correndo de janela em janela, seria quase impossível.
Quanto aos mortos levados nas redes, imagem repetida dos desassistidos, repetiu-se, repetia-se e nem precisava confirmar.
Quando precisei ir ao dicionário para aclarar a palavra RÓTULA, que era como se chamava em minha cidade para veneziana, encontrei: gelosia, persiana, escotilha, luneta...  Fiquei satisfeita visualizando a palavra veneziana, persiana, rótula (eram móveis) e as comparei pela configuração, pelo desenho delas a pautas, linhas.  E ao fazer o mesmo exercício com as palavras luneta, escotilha, vigia a configuração era, comparativamente, a do óculo, monóculo, binóculo, telescópio, quem sabe?
Sim, tirando as fantasias, limitações naturais, invencionices próprias das crianças, eu, emocionada, confirmei que, de fato, eu lia o amplo vazio, o nada ou o tudo que se postava à minha frente.
Foi então nesse campo já naturalmente adubado pela fantasia que descobrimos, eu e meu primo, o reembolso postal e  a maravilha de receber pelo correio, os livros que começamos a devorar e a disputar quem lia mais livros e maiores.  Lembro de Ubirajara chegando numa manhã esplêndida, o nome de meu primo escrito no pacote do correio.  Sofri, esperando que ele acabasse de ler pra passar pra mim.
Mas o meu Don Quixote não chegou pelo correio.  Veio de trem, presente de minha madrinha e quase fiquei sem fala.  Era meu, era grande, era ilustrado e a partir desse momento minha vidinha de menina, minha história ainda tão pequena, cresceu pros lados e  pra cima, animou-se.  Conheci D.Quixote, Sancho, Rocinante.  Juntei-me a eles  e até hoje combato moinhos de vento.

Ilha do Mosqueiro, abril, 2005.
Maria Lúcia Medeiros

Fonte: Jornal O Liberal.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maria Lúcia Medeiros, cinco anos de saudades

Em 08 de setembro de 2005, faleceu em Belém a escritora, professora e poeta Maria Lúcia Fernandes de Medeiros (Maria Lúcia Medeiros, Lucinha Medeiros). Eu estava realizando, com meus amigos historiadores Kelly Batista, Klayton Campelo e Milena Borges, o II Encontro de Estudos Históricos de Bragança, no Teatro Museu da Marujada. E, coincidentemente, na hora da palestra da Prof.ª Mariana Thereza Athayde Bordallo da Silva, que falava do seu pai Armando e seu tio Bolívar Bordallo da Silva.

Nascida em 15 de fevereiro de 1942, Maria Lúcia viveu em Bragança até os 12 anos, mudando-se para a capital. Estudou e formou-se em Letras pela UFPA onde atuou como professora e pesquisadora.

Um de seus contos “Chuvas e Trovoadas” foi imortalizado também no cinema num curta metragem da cineasta paraense Flávia Alfinito. Mesmo doente, sem todos os movimentos e a fala, mas com a lucidez e o domínio da palavra, manteve por um bom tempo intenso diálogo com amigos e conterrâneos.

A maior homenagem acadêmica que recebi como professor foi a dela quando ministrava a palestra de abertura de um encontro de estudantes de Letras em Bragança, na Escola Rio Caeté, em dezembro de 2001. Guardo com muito carinho os e-mail's de Maria Lúcia, as datas de seus telefonemas e pareço que hoje a escuto, nas palavras que deixou aqui pela internet, mesmo doente.

Saudades, Lúcia...