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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Assim falou Hobsbawm...



         “A destruição do passado, ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal a das gerações passadas, é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no final do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores”.
Eric J. Hobsbawm, em A Era dos Extremos: O Breve Século XX.
Foto: Internet (2012)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Hino do 2º Centenário de Fundação de Bragança, em homenagem ao dia da elevação de Bragança à categoria de cidade (02.10.1854)



Poucos bragantinos e interessados na História de Bragança conhecem esse hino e o seu significado. Trata-se de uma canção com letra do insigne professor Bolívar Bordallo da Silva e música de Manoel Belarmino da Costa, escrita e musicada especialmente para as comemorações da fundação da Vila de Bragança, fato que se reporta a 11 de outubro de 1753. O hino encontra-se no livro inédito de Bordallo intitulado Cronologia Bragantina, de onde extraímos esta publicação.
Essa data era considerada pela geração de Bolívar Bordallo como aparecimento da expressão “Bragança” nos documentos oficiais, cuja fonte é a carta do governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado ao rei de Portugal com a intenção de organizar a vila de Bragança no antigo lugar da Vila Souza do Caité (antiga forma de escrita da palavra hoje grafada por “Caeté”).
A letra é uma exaltação ao ethos bragantino, especialmente quando se analisam as peculiaridades econômicas, culturais e sociais, além dos fatos do século XX. A cidade ainda se percebia recebendo uma grande influência da capital do Estado do Pará, ligada por uma via férrea, com um comércio diversificado, com serviços urbanos em amplo crescimento, com uma forte indústria de café (as antigas torrefações), com a comercialização do tabaco.
À época, a cidade contava também com respeitáveis noticiosos, revistas, jornais e forte uma vocação literária e musical, enfim, um sentimento baseado nos respingos da modernidade tão divulgada e vivenciada no início do século XX era o motivo principal do apego de parte da sociedade bragantina ao seu passado e sua História.
É de se notar a grande vinculação da letra escrita por Bolívar Bordallo às práticas culturais dos povos indígenas, relacionando-se com os índios tupis que por aqui se chamaram “caités”, da nação Tupinambá, além da exaltação da natureza da cidade.
Eis a letra do hino:

Hino do 2º Centenário da Fundação de Bragança
Letra: Prof. Bolívar Bordallo da Silva
Música: Tenente Manoel Belarmino da Costa

Terra bravia de uma raça altiva!
Pátria indomável de viril nação!
Ouve o fragor de luta primitiva
ao sussurrar a briza uma canção.

Tambores, maracás e tangapemas,
arcos, flechas, com vigor brandidos;
retinem na floresta, entre pocemas,
gritos de guerra c’o altivez erguidos...

Brava terra brasílica, tupi,
estende o manto verde e ubertoso
das matas vicejantes do Curi
às alvas praias do Caité formoso!

Pátria indomável de viril nação!
Símbolo de riqueza e de esperança!
Guarda contigo, bem no coração,
o nome lusitano de Bragança.

Em 31 de dezembro de 1954.

Glossário:
Altivez: nobreza, elevação, brio, orgulho, amor-próprio.
Bravia: bruto, selvagem, bravo agreste, silvestre.
Fragor: ruído muito forte, estrondo, estampido.
Pocemas: gritos de guerra, cantos selvagens.
Tangapema: do Tupi, quer dizer espada de ferro, feminino de tacape.
Ubertoso: abundante.
Vicejante: que viceja, que tem viço, vegetar com opulência, que viça.

Foto: Orla de Bragança, de Tibor Jabonsky. Acervo: IBGE

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Luto. O mundo e a História dizem adeus a Eric Hobsbawm (*09.06.1917, +01.10.2012)



Faleceu hoje o grande historiador Eric John Erneast Hobsbawm, aos 95 anos, vítima de pneumonia, no Royal Free Hospital, em Londes, nas primeiras horas de hoje, onde estava internado. Lutava contra uma leucemia já há alguns anos. A informação foi dada por sua filha Julia Hobsbawm. Deixa viúva a sua esposa por mais de 50 anos, Marlene Schwarz, três filhos, sete netos e um bisneto.
Eric Hobsbawm era considerado um dos mais eminentes historiadores ainda em atividade e um dos pensadores imprescindíveis do século XX. Era uma figura consagrada nos meios acadêmicos e também controversa, por sua longa ligação com o Partido Comunista, a quem apoiou e se filiou.
Entre os seus vários livros, provavelmente um dos mais lidos e indicados é “Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991)”, traduzido para cerca de 40 idiomas, que recebeu diversos prêmios internacionais e é uma das obras do autor mais indicadas no meio acadêmico pelo mundo.
Influente em várias gerações de historiadores e políticos, por suas obras relacionadas ao século XX, Hobsbawm nasceu em uma família judaica, filho de Leopold Percy Hobsbaum, inglês, e Nelly Grünum, austríaca, em Alexandria, no Egito, em 09 de junho de 1917, às vésperas da Revolução Russa, quando esse território pertencia ao Império Britânico, daí ser considerado cidadão britânico.
Eric casou duas vezes, primeiro com Muriel Seaman em 1943. Após o divórcio em 1951, o historiador casou com Marlene Schwarz, com quem viveu até sua morte e com a qual teve dois de seus filhos Andy e Julia. Também é pai de Joshua, de uma relação anterior.
Foi criado em Viena, na Áustria, no período entre as duas grandes guerras mundiais, antes de seguir para a sua vida em Berlim, na Alemanha, em 1931, após a morte de seus pais, período em que acompanhou a ascensão ao poder de Adolf Hitler. Mudou-se para Londres quando Hitler tornou-se chanceler alemão e entrou para o Partido Comunista britânico em 1936.
Estudou História e obteve o título de Doutor na Universidade de Cambridge, depois se tornou professor no Birkbeck College de Londres, centro ao qual seguiu ligado por toda a carreira, desde 1947 e onde também foi reitor. Em 1978 entrou para a Academia Britânica de Ciências Sociais. Atuou como professor em universidades de prestígio internacional, como Stanford, Massachusetts e Cornel. Fez parte da Academia Americana de Artes e Ciências e ainda continuou como professor da New School for Social Research, em Nova Iorque.
Foi membro de um grupo de historiadores britânicos, onde figuram Christopher Hill, Rodney Hilton e Edward Palmer Thompson, que na década de 1960, apesar da desilusão com a queda do regime soviético, mantiveram a sua vinculação ao marxismo e procuraram entender a História da organização das classes populares, por meio do que se conhece hoje como História Social.
Seu último livro, “Como Mudar o Mundo”, lançado em 2011 é uma defesa do uso da metodologia retirada das ideias marxistas para analisar a crise mundial. Sua vida e obra refletem um grande compromisso com o marxismo, tema tratado, por exemplo, em 12 volumes da obra “História do Marxismo”.
Mesmo tendo consciência dos excessos praticados pelos exemplos do comunismo totalitário, Eric Hobsbawm foi até o fim fiel às suas ideias, sustentando que “a injustiça social ainda deve ser denunciada e combatida”, já que “o mundo não vai melhorar por si só”. Deixa um grande legado a todos os historiadores, em obras, palestras e exemplo de vitalidade e atuação na historiografia do século XX, como um dos mais indicados autores e historiadores desse tempo.