domingo, 31 de março de 2024

Os 500 anos de nascimento de São Benedito

Celebramos hoje com alegria e com fieis de toda a Igreja Católica os 500 anos de nascimento de São Benedito, o Mouro ou o Africano (assim chamado por sua cor da pele), pertencente à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFM Cap). É conhecido na Europa como São Benedito de Palermo e é aqui festivamente celebrado como São Benedito de Bragança, o santo de maior devoção do povo desta cidade na Amazônia paraense.

Foto 01: São Benedito no altar-mor de sua Igreja em Bragança (2021). Fonte: Dário Benedito Rodrigues.

A data de 31 de março de 1524, considerada a de nascimento de São Benedito é uma versão aceita verdadeiramente pelos Frades Capuchinhos e presente no texto da bula de canonização de São Benedito, datada de 24 de maio de 1807.

Neste documento há uma referência ao ano de 1526 como sendo o de seu nascimento, porém, a mesma bula justificou essa nota por problemas de pesquisa no tempo da escrita do documento e solicitou outros estudos sobre o fato. Também existe uma placa escrita em italiano na porta de uma cela no Convento de Santa Maria de Jesus com as datas de 1524 e 1589, indicando o local de habitação de São Benedito e em referência aos anos de seu nascimento e falecimento. Uma informação referencial de seu documento de canonização dá conta de que sua certidão de bastismo não foi encontrada, o que dificulta ainda mais a certeza da data.


Foto 02 e 03: Detalhes da cela de São Benedito no Convento de Santa Maria de Jesus. Fonte: Pesquisa na internet (2024).

 Benedito nasceu em São Fratello, cidade da Província de Messina, localidade próxima à Santa Maria de Jesus, subúrbio de Palermo, na Itália, local homônio ao convento onde morou e que guardava seu corpo, antes do incêndio que quase o consumiu por completo em 25 de julho de 2023.

Foto 04: Restos mortais de São Benedito consumidos pelo fogo na Igreja de Santa Maria de Jesus. Fonte: Pesquisa na internet (2023). 

Era filho de escravizados africanos de origem etíope e deve ter sido libertado no momento do nascimento, por ser o primeiro filho de Cristóvão Manasseri e Diana Larcan. Suas duas irmãs e seu irmão permaneceram escravizados. Benedito ajudou seu pai no cuidado de gado e no cultivo do campo.

Foi irmão leigo na ordem franciscana, com vocação eremítica, com fama de santidade em vida e com inúmeras narrativas de ser taumaturgo. Os biógrafos de São Benedito admitem a profunda religiosidade católica de seus pais e sua estreita observância à fé cristã, o que teria inspirado a vocação de Benedito.

Aos 18 anos, decidiu viver a vocação religiosa e aos 21 foi ser eremita, já tendo professado seus votos de pobreza, castidade e obediência, junto a Jerônimo Lanza, com quem conviveu por muito tempo, na região montanhosa de Santa Domênica, arredores de São Fratello, depois em Mancusa e por último no monte Pellegrino, próximo a Palermo. Segundo algumas narrativas, essas mudanças de lugares de moradia se devem em parte à procura por cura e milagres e por conta da fama de santidade de Benedito.

Cumprindo decisões da Igreja, foi designado à vida num convento, onde serviu como cozinheiro. Apesar de analfabeto e negro, após a morte de Lanza, foi eleito em 1583 por seus confrades como Guardião, função equivalente a de Superior do convento, sendo considerado um homem de muita sabedoria, piedade e oração. Ao terminar o tempo de mandato, retornou às funções na cozinha, tendo também trabalhando como porteiro do Convento de Santa Maria de Jesus.

Foto 05: Gravura de São Benedito em Palermo, século XVII. Fonte: Arquivos Históricos Arquidiocesanos de Palermo (pesquisa em 2021).

Benedito era procurado por muitas pessoas, que desejavam ouvir seus conselhos e que lhe pediam orações e milagres. Um dos mais recentes hagiógrafos de São Benedito, Dom Stanislaw Lukumwena Lumbala, hoje bispo emérito de Kole, na República do Congo, o associa à taumaturgia, com a cura pelo toque das mãos.

Ele morreu em 04 de abril de 1589, data considerada como o dia de sua festa litúrgica. Notas de sua biografia reunida em alguns sites italianos afirmam que após sua morte e devido à amizade com o Vice-rei da Sicília, o conde de Alba di Lista, seu túmulo foi reaberto para que o pudesse visitar.

O mesmo Vice-rei, após a manifestação de Giandomenico Rubiano, interessado em sua beatificação, conseguiu de Filipe II a autorização para que seu corpo fosse retirado do cemitério dos frades e posto em uma sacristia em 04 de maio de 1592. Seu sucessor, o duque de Escalona, convenceu Filipe III a transferir o corpo de Benedito para o interior da igreja em 03 de outubro de 1611, tendo recebido do rei 1.500 escudos para a construção de uma arca de prata para se colocar o corpo. Filipe III ainda escreveu à Santa Sé e solicitou a abertura do processo de beatificação de Benedito.

Foto 06: Detalhe do interior do Convento de Santa Maria de Jesus, em Palermo. Fonte: Claudia Salvia (2021).

Este processo iniciado após sua morte foi interrompido algumas vezes e retomado em 1622, sendo novmente paralisado em 1625. O povo continou a venerar Benedito como santo, com incentivo e tolerância dos bispos locais. Em 24 de abril de 1652, o Senado de Palermo proclamou Benedito como co-padroeiro e intercessor da cidade, mesmo sem a canonização e realizando anualmente no aniversário de sua morte uma pregrinação a seu túmulo.

Benedito foi beatificado em 15 de maio de 1743 pelo Papa Bento XIV. O processo de canonização continuou, sendo que em 1777 suas virtudes heróicas foram reconhecidas pela Igreja Católica. Tendo seus milagres confirmados finalmente, em 24 de maio de 1807, na Solenidade da Santíssima Trindade, o Papa Pio VII o proclamou santo, através da Bula Civitatem Sanctam, o primeiro santo negro da história.

Seu culto público, autorizado pela Igreja Católica e promovido logo após a sua morte pelos franciscanos, também serviu em muitos lugares de colonização portuguesa e espanhola como um modelo de santidade negra para a evangelização de negros escravizados, libertos ou livres, traficados para o Novo Mundo. Parte desse culto foi vivenciada pela constituição de irmandades leigas de São Benedito (ou de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, conjuntamente) com grande concentração desde a primeira metade do século XVIII. Isso aconteceu em boa parte do território do Brasil.

Foto 07: Página do 1º Compromisso da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança (1798). Fonte: Acervo Palma Muniz, IGHP.

Essas irmandades, como a de São Benedito de Bragança (que existiu canonicamente entre 1798 e 1988), são um exemplo de associativismo, de identidade e pertencimento, que permitiu uma organização estatutária, a formação de estrutura hierárquica com alguma participação de negros, o recolhimento de esmolas e ex-votos para alavancar o culto com esmolações em forma de peregrinação, a construção de templos específicos (como na Vila de Bragança), a celebração de festividades anuais e alguma forma de assistência à saúde e acompanhamento cristão no tempo da morte, com a celebração de exéquias e missas em sufrágio da alma de seus irmãos associados, por exemplo.

O aspecto místico envolvendo a vida de São Benedito possui narrativas que se equiparam à confecção de suas imagens e esculturas. Uma dessas narrativas, no site Vatican News, dá conta de que diante da imagem de Nossa Senhora que se encontra na igreja do Convento de Santa Maria, ele passava um longo tempo de contemplação e oração e conta-se que Nossa Senhora lhe oferecia o Menino Jesus para que ele o sustentasse em seu colo e com ele permanecia em seus braços. A tradição católica da figura de São Benedito apresenta sua imagem com a do Menino Jesus e suas esculturas em geral se reportam a esse modelo. A imagem portuguesa de São Benedito do altar-mor da Igreja de São Benedito em Bragança (PA), possivelmente esculpida no final do século XVIII e início do século XIX, possui a mesma estrutura.

As celebrações pelos 500 anos de nascimento de São Benedito iniciaram em Palermo em 03 de janeiro passado, para um triênio de comemoração desse quinto centenário a ser rememorado entre os anos de 2024 e 2026, por conta das versões para sua data natalícia.

Foto 08: Dança da Marujada de São Benedito de Bragança. Fonte: Ana Mokarzel.

São Benedito é celebrado mundialmente em 04 de abril, dia de sua morte, porém no Brasil, por  uma especial deferência canônica da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é celebrado no dia 05 de outubro.

A tradição religiosa e cultural bragantina e mantida por muitos anos pela comunidade católica preserva uma festividade com muitas cores, sons, comensalidades e que se juntam à Marujada de São Benedito e a eventos de dança, reza, almoços, novenas, missas e a solene procissão de 26 de dezembro, dia de festa na cidade, que a partir dessas características tão especiais e singulares possui certamente a maior festa de São Benedito do mundo católico.

Foto 09: Andor de São Benedito em Bragança, em 1982. Fonte: Dário Benedito Rodrigues.

A manifestação de festas em devoção a São Benedito e a realização da Marujada em Bragança e na Região Bragantina foram estudadas por uma equipe de pesquisadores da Faculdade de História da UFPA Bragança, cujos documentos estão encaminhados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) com o propósito de em breve tornar a celebração Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Foto 10: Logomarca do Jubileu de 500 anos de São Benedito. Fonte: Conselho Nacional das Irmandades de São Benedito (CONISB).

Oração do Jubileu dos 500 anos do nascimento de São Benedito

Ó São Benedito, flor da Etiópia, lírio transplantado para a terra da Sicília, tu que amaste o Cristo Crucificado e a sua Mãe Santíssima, de quem recebeste nos braços o Divino Menino e obtiveste numerosos milagres.

Tu, seguidor de Francisco de Assis, ofereceste um exemplo brilhante aos jovens.

Tu que soubeste interpretar as Sagradas Escrituras, esquadrinhar o coração dos homens, ouve a nossa oração, que o povo fiel te dirige depois de quinhentos anos do teu nascimento.

Ao mundo ainda escravo do pecado, aos homens divididos pela cor da pele, às nações sem paz, obtém o perdão, o bem e a paz de Jesus, da Virgem Maria e de São Francisco, para que os homens se amem como irmãos, como filhos de Deus, não se odeiem, como seguidores de Francisco de Assis cantem o hino do amor universal.

Dá saúde aos doentes, conforto aos aflitos, apoio aos pobres, numerosas vocações à vida cristã, e à Igreja o triunfo da Verdade do Evangelho. Amém.

+ Dom Orani João Cardeal Tempesta, O. Cist. Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. com aprovação eclesiástica

Foto 11: Anúncio dos 500 anos de São Benedito. Fonte: Paróquia de Santa Maria de Jesus (2024).


Referências bibliográficas:

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https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-10/sao-benedito-um-dos-santos-mais-amados-pelos-brasileiros.html

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https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/08/01/restos-mortais-de-sao-benedito-sao-destruidos-apos-incendio-em-igreja-italiana-video.ghtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benedito,_o_Mouro


* Dário Benedito Rodrigues é bragantino, historiador e professor da Faculdade de História da UFPA, Campus de Bragança.

* Observação importante: Qualquer utilização desse material sem a prévia consulta ao autor não está autorizada e se constitui em crime sujeito às penalidades da legislação brasileira. É concedido à Diocese de Bragança do Pará e à Universidade Federal do Pará o direito de uso, utilização e reprodução deste material.

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