quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

In Memoriam (2015). Saudades.


Entre tantos, muitos conhecidos e amigos falecidos em 2015, suas famílias e os bragantinos sentirão muitas saudades de todos. Aqui, alguns pelos quais sentiremos saudades...

Ortiz do Rosário Falcão, +02.01.2015
Maria de Nazaré Pinheiro Pimenta, +03.01.2015
Raimundo Manoel de Souza, +05.01.2015
Neuma Maria Soares de Sousa, +06.01.2015
Lívia Maria Alves da Silva, +19.01.2015
Antônia Ribeiro de Freitas, +19.01.2015
Maria da Conceição de Castro, +20.01.2015
Leandro Ribeiro da Silva, +28.01.2015

Robson do Nascimento Gomes, +28.01.2015

Elena Braga de Paiva, +03.02.2015

Maria de Nazaré da Silva Martins, +08.02.2015

Benedito Torres Cavaleiro de Macêdo, +08.02.2015

Hilda Saraiva de Quadros, +10.02.2015

Aurimar Monteiro de Araújo, +12.02.2015

Célia Coelho Bassalo, +18.02.2015

Nazareno Felipe Furtado, +18.02.2015

Socorro de Jesus Miranda Rodrigues, +21.02.2015.
Francisco Paulo de Lima, +28.02.2015
Pe. Expedito Lima Freire, +01.03.2015
Raimundo Ferreira do Nascimento, +01.03.2015

Vilma Melo Milhomem, +01.03.2015

Raimundo Moreira de Araújo, +09.03.2015
Rodrigo José Castro da Silva, +09.03.2015
Antônio André Lisboa de Sousa, -10.03.2015
Júlia do Socorro Reis Alencar, +12.03.2015

Camilo José Santos Blanco, +13.03.2015

Osmarina Maria da Conceição, +18.03.2015

Benedita da Silva Belém, +26.03.2015

José Wilson Pimentel Tavares, +26.03.2015

Maria de Nazaré Fernandes Luz, +26.03.2015

José Ananias da Rosa, +27.03.2015

João Batista da Silva Costa, +04.04.2015

Maria de Fátima Alencar dos Santos, +19.04.2015

Deyvison Santana Alves, +23.04.2015

Miguel Santa Brígida, +26.04.2015

Antônio Protásio de Assunção, +11.05.2015

Francinaldo Ramos da Silva, +11.05.2015

Aspázia Borges de Almeida, +11.05.2015

Márcia Regina Medeiros Smith, +22.05.2015

Elson Otávio da Silva Lima, +26.05.2015

Cláudia Maria Risuenho Abdon da Cunha, +31.05.2015

Flávia Cilene Alves Silva, +05.06.2015

Maria do Socorro Brito Lima, +17.06.2015

Maria de Jesus Rodrigues Felipe, +22.06.2015

Maria das Graças Brito de Sales, +28.06.2015

Sayure Conde, +29.06.2015

Bernardino Ferreira Barbosa, +05.07.2015

Claudomiro Sousa Guimarães, +12.07.2015

José Antônio Conde da Silva, -17.07.2015

Gabriel Pinheiro, +18.07.2015

Josefa Trindade de Oliveira, +10.08.2015

Maria Antônia Marques, +10.08.2015

Carlos Henrique Marques dos Santos, +11.08.2015

Maria do Socorro Fernandes Menezes, +13.08.2015

Cirene Maria da Silva Guedes, +16.08.2015

Amarilis da Silva Pereira, +04.09.2015

Darcy Eiko Oruma Tsuchya, +05.09.2015

Pedro Furtado de Vasconcelos, +05.09.2015

Francisco Wellington Gomes Alves, +13.09.2015

Alcides da Silveira Castanho, +17.09.2015

Luiza de Oliveira Quadros, +22.09.2015

Angelita Matos da Silva, +23.09.2015

José Matheus Ferreira da Silva, +29.09.2015

Maria Risuenho de Brito, +01.10.2015

Maria das Graças Melo da Cunha, +23.10.2015

Carlos Alberto da Costa Nascimento, +25.10.2015

Normélia Santos Ribeiro, -25.10.2015

Benedito Orlindo da Silva Alves, +09.11.2015

Edson Rubens Costa Reis, +12.11.2015

Leandro Ribeiro da Silva, +12.11.2015

Pedro Zacarias das Chagas, +18.11.2015

Manoel Teodomiro de Sousa, +20.11.2015

Antônia Cunha de Athayde, +26.11.2015

Maria Luiza da Rosa, +26.11.2015

Joana Lisboa Tavares, +29.11.2015

José Carlos de Oliveira, +01.12.2015

Mirian Mendes Barbosa, +02.12.2015

Benedita Antônia Borges, +04.12.2015

Josiane Lúcia Nascimento, +04.12.2015

Luíza Araújo Silva, +06.12.2015

Maria de Lima Gomes, +17.12.2015

Francisco de Assis Maciel Gomes, +21.12.2015

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Minha imagem do ano de 2015. Aylan Kurdi: tragédia, guerra, vida e morte

Texto de Eduardo Affonso, publicado no Facebook, em 03 de setembro de 2015

No dia em que ia morrer, Aylan Kurdi usava calças azuis e uma camiseta vermelha. A mãe deve tê-lo penteado, ainda que fossem poucos os fios, e tão finos. Agachando-se diante dele, ou segurando-o sobre os joelhos, amarrou-lhe os sapatos e fez, pela última vez, o laço. Aylan caminhou até o porto, com passinhos curtos, ou foi levado no colo? No colo, possivelmente - os braços envolvendo o pescoço da mãe, cabeça reclinada sobre o ombro dela - para não atrasar a marcha rumo à morte.
Até ontem, o mundo não conhecia Aylan, sírio, três anos. Hoje, sua boca colada à areia, as mãozinhas com as palmas para cima, estampam jornais, deslizam nas telas dos computadores, se agarram à nossa retina.
Ao contrário de outras dezenas (milhares?) que foram dar à praia, ou jazem do fundo do mar, de Aylan se sabe o nome, a idade, e que tinha um irmão, que também caminhou com ele (ou foi levado no colo, pelo pai) naquela madrugada, rumo ao porto. E esse nome o humaniza (dar nome a uma coisa é uma forma de amá-la). O corpo anônimo emborcado na praia é um ilegal, uma estatística – Aylan, sírio, três anos, trazido pelas ondas, é a criança que fomos, a que levamos ao pediatra, a que dorme no berço ao lado da nossa cama.
A vida não foi cruel com Aylan. Poupou-o de morrer na guerra, entre poeira, gritos e estilhaços. De ser mutilado, ver a mãe estuprada, o pai degolado. Poupou-o da fome nos campos de refugiados. Poupou-o da longa jornada sobre os trilhos até ser barrado pelos soldados de Montenegro. Poupou-o das cercas de arame farpado da Hungria, dos caminhões frigoríficos da Áustria, das patrulhas da Inglaterra sob o Canal da Mancha - da polícia italiana, dos xenófobos franceses, dos neonazistas alemães.
Em três, quatro minutos, a água salgada invadiu suas narinas, inundou seus pulmões. Nesses infinitos três, quatro minutos, procurou pela mãe, pelo braço do pai, sem entender porque o abandonavam. Então sentiu sonolência - e mar, mãe, medo se tornaram uma coisa só, depois coisa nenhuma.
Aylan não sabia, naquela manhã, que era para a morte que o vestiam de camiseta vermelha e calças azuis. Na foto em que se deu a conhecer ao mundo, o Mediterrâneo, não a mãe, é que penteia seus cabelos.
Não consigo fixar o olhar no seu rosto, nem me demorar nas suas mãos vazias. O que me afoga, junto com ele, com as esperanças de tantos que fogem como ele e ficam pelo caminho, são seus sapatinhos.


Foto: Imagem na internet (2015)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Em tempo de provação: um caso de romanização em Bragança no século XIX (ensaio inédito)



Em tempo de provação: um caso de romanização em Bragança no século XIX[i]
Dário Benedito Rodrigues[ii]

“O fato não era aceitável como uma lei, mesmo sendo sempre um fato... Para afirmar a não-coincidência entre fatos e sentidos, era necessário um outro cenário, religioso, que reintroduzisse (...) a contingência histórica desta natureza e, com referenciais celestes, um lugar para este protesto...” Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano.

É comum na historiografia nacional e confessional tratar do papel das irmandades religiosas, ordens terceiras e confrarias[iii] como associações depositárias de uma cultura religiosa popular, em seu período áureo, ou seja, no século XVIII, somada à ação de sujeitos sociais componentes da hierarquia eclesiástica e do laicato, o que perpassou longos períodos da história da cultura popular.
Reconhecendo que tais argumentos não esgotam o conhecimento histórico em questão, nem invalidam novas abordagens, trato neste artigo das apropriações e lutas entre os representantes da hierarquia católica, os “irmãos de São Benedito” e entre si, lançando mão de um levantamento bibliográfico e de fontes documentais do Juízo de Capelas de Bragança, para tomar parte dessa situação eclesial e, através de um exemplo conflituoso, verificando como se deu a proposta de efetivar a romanização[iv] da Igreja Católica em Bragança, do Grão-Pará, na segunda metade do século XIX, em torno do culto a São Benedito.
Este trabalho tem como objeto de estudo as relações históricas entre o Clero, senhores e membros da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança (IGSBB), especialmente no século XIX, tomando como pano de fundo os primeiros indícios dessa romanização introduzida pelo Clero bragantino no espaço das relações entre os dirigentes da IGSBB.

Numa situação de enfraquecimento

A Igreja Católica no Brasil inicia o século XIX um tanto enfraquecida do ponto de vista institucional. Colhendo alguns relatos, percebo como crescente o intuito em se proceder a uma renovação e reforma em seus quadros. A necessidade parte da constatação de alguns problemas como a decadência da religião, a ingerência do Estado nos assuntos eclesiásticos e a mentalidade regalista do governo imperial emanando leis que dificultavam a vida das ordens religiosas. Na esfera além do controle eclesiástico, visto na época como problema, havia a força do catolicismo popular e o poderio das irmandades[v] que, na verdade, foram fatores determinantes da manutenção do catolicismo no país[vi].
O quadro da Igreja no final do século XVIII às primeiras décadas do século XIX vai se tornando cada vez mais desolador. Esse quadro se arrasta da estagnação à decadência, sob pressão de fatores que não foi possível controlar, como a tendência de padres e religiosos de se fixarem em cidades e vilas importantes, o que levou muitos deles a uma vida ociosa e mundana, a escassez de vocações para o estado sacerdotal, o baixo nível de instrução do Clero, o descaso pelas necessidades religiosas do povo ou com o atendimento espiritual que deixava a desejar, mostrando certa inoperância em relação aos sujeitos históricos a quem foi destinado um projeto específico de catequese[vii].
Surgiram figuras respeitáveis na doutrina e na vida particular, no ministério pastoral como nos postos políticos de maior projeção no Clero, mas seria ilusão querer estender tais qualidades ao conjunto dos homens da Igreja, na época.
Dentre os fatores que contribuíram para esse enfraquecimento da Igreja, podemos colocar em primeiro lugar a política regalista do ministro Sebastião de Carvalho e Mello – o Marquês de Pombal – que consistia, no que se refere à Igreja, em reforçar a sua subordinação ao Estado. O ministro decretou a expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759, empreendendo uma verdadeira campanha contra o poderio econômico das antigas instituições monásticas e incentivando uma reforma na Universidade de Coimbra, em 1772, sendo influenciado pela cultura iluminista que afirmava uma religião natural como fruto da razão e das instituições humanas. Rejeitava a religião revelada, sobretudo o conjunto dos dogmas cristãos.
Por certo, o Clero deveria ser formado nessa filosofia que, consequentemente, refutaria as normas emanadas de Roma. Com o estabelecimento da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro, entre 1808 e 1821, a cidade vai assumindo a feição de metrópole, com desenvolvimento urbano, festas e teatros. O luxo, a pompa e o mundanismo crescente contribuíram para que o espírito religioso diminuísse na elite da população, sobretudo os que estavam ligados à Corte e o Clero não escapou dessas influências. Por ordem do mesmo Marquês de Pombal, começou a ser adotado no Brasil o Catecismo de Montpellier para substituir os catecismos dos jesuítas, inspirados no Concílio de Trento. Além do regalismo do governo, o Clero brasileiro foi influenciado pelo jansenismo[viii].
O jansenismo no Brasil não tem as mesmas características do que foi vivido na Europa. Enquanto lá foi realçada a teologia de Jansênio (1585-1638) a partir do seu livro Augustinus, com considerações como a de que Cristo não morreu por todos, assumiu-se um significado pessimista da vida, que conduzia ao rigorismo, influenciando de maneira decisiva na vida cristã dos séculos seguintes.
Um outro fator que também agravou a crise religiosa institucional do Brasil foi a influência do Clero por ideias iluministas e enciclopedistas. Tais escolas filosóficas, adotadas na Universidade de Coimbra, onde estudava boa parte dos futuros padres brasileiros, se juntaram as influências liberais e republicanas. Foi o momento que enfatizou a necessidade da Independência, sob forte impacto da república dos Estados Unidos e do processo de independências de territórios hispano-americanos[ix].
Diante desse quadro geral da Igreja, faz-se necessário explicitar que o episcopado (não mais que uma dezena de bispos) manteve uma posição vinculada ao absolutismo monárquico, ao passo que muitos sacerdotes, especialmente os que estudaram na Europa, estavam envolvidos em partidos políticos e exerciam cargos públicos, seja como liberais, seja como republicanos. Diversos padres participaram das lutas e dos movimentos políticos de então. Somada a esse fator, constatamos também que a mentalidade liberal já havia penetrado nas irmandades religiosas e confrarias. A população rural, ainda em grande porcentagem, manteve-se mais ligada às devoções e às expressões exteriores do catolicismo, quase que completamente abandonada pelos clérigos[x].
Os religiosos diminuem a circulação de clérigos nas missões entre o povo e dão uma escassa assistência às respectivas sociedades leigas. O Clero secular se envolve sempre mais em lutas partidárias e, preocupado pelos grandes interesses políticos e sociais da nação, descura a assistência religiosa do povo. Olvida-se ao ensino do catecismo e a pregação dominical.
É justamente na catequese que os bispos reformadores irão insistir, vendo-a como um meio eficaz de renovação. A evangelização por santas missões, visitas pastorais, cuidado nos santuários e o reforço na aplicação das normas do Concílio de Trento, referentes à formação dos sacerdotes, serão seus objetivos. Além do aspecto do envolvimento na política, o Clero secular estava em crise, do ponto de vista eclesiástico, pois vários padres contrariavam decisões da hierarquia católica.
Um assunto sem tantos obscurantismos já que a situação do Clero no Pará já foi estudada por vários autores e lembrada nas memórias escritas de alguns bispos paraenses. Mesmo assim, prevaleceu uma mentalidade negativa sobre o procedimento moral e o descuido pastoral dos padres.
Ao dizer que o Concílio de Trento só foi aplicado no Brasil duzentos e cinquenta anos depois, pode-se também afirmar que o catolicismo que penetrou na população já era marcado pelo sinal típico do tridentismo: unanimidade religiosa – todos eram católicos – conseguida pelos reis que detinham o direito de Padroado, formalismo da religião oficial (catecismo, liturgia, etc.) somado às devoções populares, ambiguidade diante do catolicismo popular aceito como meio de se contrapor aos protestantes e exaltação por intermédio do barroco. Ao lado do Clero, está a formação da mentalidade do povo. O teólogo Comblin é feliz na expressão:

“Então, desde o começo, o Brasil entrou na unanimidade religiosa. Não teve nenhuma lembrança de luta, de dificuldade. Cada brasileiro nasceu destinado ao batismo católico, e esta situação pareceu a mais normal do mundo (...). O ser obrigatoriamente católico não foi sentido com violência e sim como fato da natureza”. [xi]

Segundo Comblin, já que na Colônia não houve o período medievo, não existiram paróquias rurais como na Europa. A religião foi transplantada de Portugal para a Colônia, junto com o projeto colonizador, e mantida em ligação com a classe senhorial criada pela empreitada portuguesa e preservada nos meios baixos e pobres da população secundária. A religião não teve o contrapeso medieval, mas foi um catolicismo apologético, fixação de catecismo, ritual romano e procissões[xii].
Assim posso apresentar algo das duas dimensões da Igreja: o Clero e o laicato. Desde o início apontei alguns fatores que enfraqueceram a Igreja. Agora me situo diante das manifestações do contexto vivido por ela nos primeiros decênios do século XIX em Bragança, tendo como ponto de partida e motivação a reforma católica. As expressões do catolicismo popular na vila, por não estarem dependentes da hierarquia, somam-se a fatores como a falta de padres nas paróquias e as distâncias amazônicas de um vastíssimo território ligado apenas por caminhos perigosos, estreitos e por uma rede hidrográfica.
Tais restrições tinham algumas finalidades primordiais. Visavam em primeiro lugar diminuir o poderio econômico das irmandades religiosas, cujos bens começam a despertar interesse por parte do laicato. Em segundo lugar, existiu também uma razão de ordem religiosa visando realizar uma reforma nas próprias irmandades, para por termo aos numerosos abusos denunciados com frequência. Esta meta, apresentada como a razão principal de certas restrições régias passa, no entanto, a ser a última a ser levada em consideração.
Ainda temos a ligação entre a Igreja e as oligarquias agrárias das inúmeras vilas onde a força da romanização se fez mais sentida. É possível que estes elementos do embranquecimento da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança (doravante IGSBB), estejam relacionados com a entrada nos quadros da Irmandade de “senhores e sinhás-brancas” e com a introdução de danças e manifestações tipicamente europeias sejam também rastros dessa intervenção da hierarquia eclesiástica[xiii].
A condição legal da Igreja não mudou durante os anos de 1808 a 1821. A influência sufocante do regalismo influenciou todos os atos eclesiásticos e o Estado estava presente em praticamente tudo. Talvez o efeito mais funesto da influência pombalina tenha sido a formação de religiosos e padres para os quais a atuação política se fizera natural, uma parte da vida eclesiástica.
Destarte, todos os movimentos que envolveram lutas sociais no Grão-Pará, como a Cabanagem (de 1835 a 1840), contaram com o apoio e a participação de religiosos. O Clero sendo politizado, não satisfazia nem a Igreja nem o Estado. As duas instituições viam como incômodo esse engajamento político. Exemplo disso foi a suspensão em 1866 de três sacerdotes pelo Bispo do Pará, Dom Antônio de Macêdo Costa[xiv]. A necessidade de reforma era vista como necessária pelas duas forças.
Aí está a preocupação do governo com os padres no que tange ao perigo de sublevação e envolvimento com seus opositores pertencentes aos quadros da Maçonaria. Esses padres tinham sentimentos nativistas, não queriam apenas copiar exemplos do exterior e seus papéis sociais eram determinantes nas vilas e freguesias onde exerciam suas funções religiosas. Com isso, percebemos que não eram o que somente as relações políticas dos padres, mas uma questão de obediência aos seus superiores.
Conforme documento no Arquivo Público do Estado do Pará, em 12 de novembro de 1836 é dirigido um ofício de Francisco Xavier Torres, Major e Comandante do Corpo Expedicionário do Ceará, a Francisco José de Souza Soares Andréa, informando a falta de um sacerdote na Vila de Bragança, pois o Padre Manoel José da Mota foi acusado de prestar ajuda aos rebeldes cabanos e respondia a um processo judicial na Vila de Turiassú.
A 25 de novembro de 1836, outro documento é esclarecedor: um ofício de João José de Oliveira Pantoja, ao Presidente da Província do Pará, comunicando que remeteu ordem ao vigário, padre Manoel José da Mota, exilado no Maranhão, para que retornasse as suas funções em Bragança.
Mesmo o Clero participando da vida política, isto não impedia de ser fraca a influência da Igreja enquanto instituição. O certo é que a Igreja, até a sua separação do Estado (1890) vai reunir forças internas (bispos) e externas (Santa Sé) para empreender as reformas necessárias e os anos seguintes serão marcados por tentativas de estabelecerem negócios com a Santa Sé.
Sem perder de vista o meu intento, que é estudar parte da reforma executada na Igreja em meados do século XIX e na IGSBB, damos um bom passo no sentido de entender o contexto da romanização e o atrelamento entre as duas instituições. Aos eclesiásticos como funcionários do Estado era dificultada uma ação pastoral dinâmica. Na segunda década do século XIX, o Clero estava dividido em duas facções: de um lado o padre Antônio Diogo Feijó, regalista, defensor da abolição do celibato e de uma Igreja nacional. Do outro, D. Romualdo de Seixas, arcebispo da Bahia, ultramontano, propondo a formação de um Clero celibatário, mais ligado a Roma, com autonomia de poder espiritual em relação ao governo. Ambos eram deputados na Câmara Legislativa.
Durante muitos anos, o debate sobre questões religiosas girou em torno desses dois personagens, desses dois homens públicos e eclesiásticos[xv], lutando por ideais diversos. No movimento reformador paraense,

“um de seus líderes mais proeminentes [foi] o próprio Bispo do Pará, que mais tarde iria notabilizar-se como um dos “rebeldes” da Questão Religiosa, que colocou a Igreja em conflito com o Império, e que, no fim da vida, seria nomeado pelo Papa como Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil”.[xvi]

Fica claro agora a posição do governo brasileiro: pede a concessão – o privilégio do Padroado – e depois que a Santa Sé concede, nega o placet para a Bula Sylabus. Pelo Padroado, o governo imperial podia apresentar candidatos a ocuparem cargos eclesiásticos como bispos, tinha o direito de opor o placet aos documentos e atos da Santa Sé, de aceitar recursos contra decisões dos bispos, de cobrar os dízimos do povo católico e a obrigação de pagar côngruas aos bispos e párocos, além de dar proteção às ordens religiosas. Diante desses privilégios em ditar os rumos para a Igreja, o governo não demonstrou interesse de reforma que visasse, sobretudo, às ordens religiosas. Ele teve tudo para tal empreita, mas preferiu agir por meios que só sacrificaram e colocaram essas ordens em pavorosa decadência. O privilégio do padroado não foi capaz de reformar, implementar, atualizar e fazer desenvolver a Igreja no Brasil.
Após haver apresentado alguns fatos que uniam as duas maiores forças institucionais no Império, me dirijo para a situação do catolicismo do povo, um catolicismo mesclado ao do Clero, já que padres também dependiam financeiramente de festas religiosas populares. Sua intenção é realçar algumas dessas manifestações ditas populares, que estavam distanciadas dos quadros institucionais na concepção de administração eclesiástica. Entro no barracão[xvii] do catolicismo popular e uso uma fresta documental de um processo de anulação da eleição de Juiz da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança, em 1884, como guia e ajuda mais adiante detalhada.

Uma situação de conflito e disputa neste tempo de romanização

É interessante observar que a religião manifestada no povo brasileiro já era sentida e vivida como resultado da mistura étnica ocorrida desde os primórdios da chegada dos portugueses e africanos. Referenciando a discussão, o historiador Hauck, ao falar de cultura popular, no livro sobre a história da Igreja no Brasil, faz o seguinte comentário acerca desse catolicismo popular:

“Ao mesmo tempo em que a mistura racial realizou-se no Brasil a fusão de três culturas distintas. O índio, integrado havia séculos na selva tropical, conhecia o segredo das praias e das matas, os perigos, os alimentos, os animais, as plantas medicinais. Os africanos traziam um lastro cultural muito rico e variado, cheio de calor humano, que se expressava principalmente em suas danças e músicas ritmadas, que nem a dureza da escravidão fazia esquecer, e na afetividade e dedicação que as mães-pretas esbanjavam na educação dos pequenos senhores; e o tempero de sua arte culinária se deu muito bem com os brasileiros. A cultura indígena somou-se à portuguesa principalmente pela necessidade que sentiam os brancos de adaptar-se às novas condições de vida”.[xviii]

O tempo da romanização certamente englobou momentos difíceis vividos por aqueles que estavam apaixonadamente e materialmente envolvidos no catolicismo popular, aqui mais propriamente na manutenção do culto a São Benedito em Bragança. Desde o século XVIII, a IGSBB havia recebido a permissão senhorial e eclesiástica para cultuar o negro siciliano que à época ainda não havia sido entronizado no rol dos santos católicos[xix].
Estes protagonistas anônimos e atores da história em constante reconstrução levam-nos a pensar para além da história do efêmero, ou daquilo que é apresentado ao historiador em seus momentos áureos, gloriosos. Dar voz aos “vencidos” nos interregnos de suas derrotas, mesmo que estes momentos cheguem até nós por meio de seus algozes[xx].
Durante o século XIX, a sociedade brasileira ainda respirava os ares da predominância religiosa sobre as decisões sociais. Assim, a motivação religiosa servia como fator de integração social. Muito rica em suas manifestações, a religião popular brotava da mestiçagem de três grupos: indígena, africana e portuguesa. Abrangendo todas as camadas sociais, como numa confirmação de costumes comuns que amenizaram ou disfarçaram conflitos existentes no interior dessa relação, o catolicismo popular foi predominantemente expressivo antes das reformas católicas.
A reforma vai redimensionar, sacramentar e até evitar tais manifestações, com a intenção de criar uma mentalidade católico-romana. Assim, entendo como a reforma também atingiu as manifestações já interiorizadas pelo povo. Essa mesma religião popularizada se evidencia nas diversas formas de piedade e nos carismas, ermitães, beatos – até com conotações messiânicas, nos locais de romarias, na arte sacra, nas músicas, teatros e procissões.
Resgatando o fundo histórico dessas manifestações, citamos o importante artigo do padre Comblin:

“O catolicismo que chegou ao Brasil foi essencialmente o catolicismo popular dos últimos séculos da Idade Média. A única coisa que o Brasil recebeu da Idade Média foi a religião popular dos portugueses. Recebeu a religião popular sem a armadura da Igreja medieval. Já que o tridentinismo não havia previsto nada para limitar o uso popular da liturgia (fora das rubricas) ou as liturgias populares (dos santos etc.) a religião popular continuou o seu desenvolvimento espontâneo e pacífico. Misturou-se com contribuições indígenas, africanas, até orientais importadas pelas caravelas que voltavam da Índia ou da China. Longe da crítica protestante, a liturgia católica popular não tomou a forma agressiva que sempre teve na Europa. Pelo contrário, tomou a figura de uma religião muito familiar, patriarcal, de uma simplicidade paradisíaca, idílica. Uma religião que consola e dá saudades.”[xxi]

Com essa citação, me aproximo mais do entendimento da realidade vivida em Bragança por católicos leigos no segundo quartel do século XIX. Desvinculado da Igreja oficial, esse catolicismo penetrou e perpassou a alma do bragantino nas irmandades, na dança da Marujada, nas folias, no processo de esmolação de três imagens de São Benedito pelo interior da vila, nos consistórios das Igrejas, enfim, numa imensidão de espaços.
O apelo maior é feito por intermédio da religião que estava ao alcance de sujeitos mais próximos aos populares. E isso se deve ao catolicismo popular. A partir disso, já que as práticas religiosas tradicionais mostravam-se ineficazes diante dessa experiência de desabamento da ordem social, os negros escravos foram levados a recorrer a práticas mais poderosas, a se identificar com os santos e a invocá-los, a construir sua igreja e a fazer a romaria. Na festa de São Benedito, seu espaço não era feito somente para a missa, mas também para levantar o mastro votivo do santo, erguido fora da igreja, o que exprime simbolicamente a apropriação desse espaço pelos “irmãos de São Benedito”[xxii].
Foi um exemplo de catolicismo que se estabeleceu sem muita interferência do sistema hierarquizado. Tudo isso só confirma a descrição anterior, pois com uma estrutura fraca, controlada pelo Estado, a Igreja, enquanto quadro institucional, não tinha forças para intervir mais ou modificar de forma evidente essa realidade. Daí, uma vinculação muito grande entre a Igreja e os senhores de escravos, proprietários de terra, em conceder seu beneplácito para que os negros escravizados cultuassem São Benedito.
É necessário enfatizar que esse catolicismo popular até gozou de certo apoio do próprio sistema eclesiástico que governava o Grão-Pará, já que a assistência espiritual da IGSBB estava confiada ao Vigário da Vila de Bragança e a permissão para sua existência foi concedida pelo próprio Bispo do Pará, na época, Dom Manuel de Almeida Carvalho, em 27 de janeiro de 1799[xxiii], evidentemente com o aval dos seus senhores.
O período cronológico que se inicia com o século XIX no Brasil é um período de crise, que desemboca, no final do século, na instauração do capitalismo agrário. Partindo do ponto de vista sociológico, que é fundamental para nossa compreensão, podemos entender a manifestação religiosa popular como legitimadora – é o caso aqui exposto – ou contestadora de um status quo. Num momento de passagem e de transformação social, a classe subalterna se vê desprotegida. A ordem vigente não correspondia à ordem estabelecida por Deus[xxiv].
Revirando os arquivos do Cartório de Imóveis, há algum tempo, encontrei um documento completo componente da alçada do Juízo de Capelas da Vila de Bragança e datado de 11 de janeiro de 1884.
Trata-se de um processo de nulidade da eleição de Juiz da IGSBB e dos cargos de Tesoureiro e mordomos, de acordo com o segundo Compromisso da própria irmandade reformado em 1853 pelo próprio Vigário de Bragança, padre Miguel Joaquim Fernandes, que até recebeu côngruas por esse serviço. No processo o autor, Manoel Antônio do Nascimento, acusa o liberto Esequiel Antonio Tavares de ter sido nomeado para Juiz da festividade de 1884, já que em sua primeira argumentação, este último não deveria assumir a função, pois

“alem de não ser pessoa proba e honesta, vive publicamente amasiado, condicção esta que annula e irrita a eleição em razão de não recahir ella em pessôas honestas e casadas, como manda o Compromisso e ordena o Exm. Snr. Bispo Diocesano em sua circular de 21 de Abril de 1868”.

Na irmandade os negros libertos ou cativos não podiam exercer liderança nos cargos dispostos tanto no primeiro quanto no segundo compromissos, de 1798 e 1853, respectivamente, apenas nas deliberações da irmandade, como sujeitos integrantes. Os escravos sempre estavam associados a algum tipo de serviço interno (andadores, rezadores, esmoladores, sacristãos) seja para a irmandade, seja para a parte religiosa da festa, não podiam direcioná-la, servindo os mandos de juízes e juízas, cargos de maior preponderância. As decisões envolvendo os assuntos da festividade, na eleição de cargos importantes, na entrada de novos irmãos e na administração de seu patrimônio eram tomadas por uma mesa eleita a cada ano, algumas vezes no período da festividade, outras, não.
Somado a isso, acrescento que grande parte da arrecadação da irmandade provinha de doações e de ofertas durante o período de maio a dezembro de cada ano, durante o processo de esmolação. Daí, porque estes sujeitos só estavam na festa de São Benedito durante o mês em que se celebravam os rituais mais disputados, mesmo porque se tem um período de descanso da terra após a colheita dos produtos agrícolas do interior da Vila (o feijão, por exemplo)[xxv].
Assim as festas religiosas lideradas por leigos eram formas típicas de reunião social. As devoções até eram sinceras e muito difundidas. Azzi, numa citação de outro autor, revela-nos alguns fatos religiosos do período imperial, mesmo tendo acontecido nas cidades, insistindo sobre o papel que desempenhavam as cerimônias religiosas no quotidiano dos leigos[xxvi].
Como exemplo de uma dessas eleições, o Jornal Correio Paulistano de 1860 acompanhou a polêmica que se travou entre dois candidatos ao posto de Rei do Congo para as festividades de Nossa Senhora do Rosário. A eleição ocorreu somente depois de ter sido adiada por várias vezes e o candidato derrotado declarou que a eleição só cabia nos casos em que não houvesse “príncipes de sangue”, e que o rei que acabava de ser eleito não era Congo. Alguns dias depois o jornal dizia que a instituição do Rei do Congo estava tomando um aspecto perigoso e que muitos crimes eram cometidos em São Paulo por influência das doutrinas dos pretos forros.
De acordo com os seus cânones associativos, desde a elaboração do segundo Compromisso em 1853, os negros libertos teriam acesso mais fácil ao contingente de irmãos de São Benedito e os outros, não libertos, só poderiam ser admitidos ao quadro da irmandade com licença prévia por escrito de seus senhores. Isto pode nos levar a crer que o acesso ao culto a São Benedito se constituía ainda do pedido de infelizes escravos para que pudessem recorrer ao processo sobrenatural, de lazer, de folguedo, sem que houvesse proibição ou restrição igual aos brancos, isto é, entrar na IGSBB era uma prerrogativa especial destes sujeitos, seja pela dominação, seja pelo patrocínio envidado.

Sobre os motivos do conflito e da acusação

    No processo, o acusador expôs seus motivos contrários a Esequiel, demonstrando descontentamento com o processo que considerou desonesto e impróprio, mesclando inveja e um violento repúdio, provavelmente pelas disputas internas no quotidiano da irmandade beneditina.

“(...) segundo porque devendo ter a meza eleito novos empregados como dispõe o Compromisso anualmente, reelegeu o procurador e o secretário, não obstante ter este pedido sua exoneração que já exerceram estes cargos a mais de quatro ou cinco annos; terceiro porque só ha hypothese de eleger-se para esses cargos os mesmos que já serviram, quando elles mostram ou apresentam honrosos predicados como sejam a probidade, o zelo, dedicação e comportamento moral e religioso”.

O autor conta com o apoio do padre Raymundo Ulisses de Albuquerque, com certeza formado na nova cultura imposta pelas necessidades do Clero em controlar as manifestações de cunho devocional. O padre era dono do jornal O Zuavo, que circulava na vila como “periodico religioso, scientifico e litterario”, publicado a cada dez dias.
Na edição anexa ao processo e que certamente serviu de prova da acusação contra Esequiel se encontram na “parte official” vários documentos que expõem a situação: a circular de D. Antônio de Macêdo Costa, de 21 de abril de 1868, de conteúdo fortemente reformador; a portaria do “Parocho, intimando todas as irmandades da paróquia não aprovando eleições como diz na autuação”; outra portaria onde “S. Exc. Rvdm. o Exm. Sr. Bispo Diocesano proíbe abusos e escandalos inauditos que se dão por ocasião dos tiramentos das esmolas”[xxvii]; outra portaria paroquial pondo em execução as ordens do bispo diocesano nas esmolações e, numa nítida observância das regras da Igreja ou tentando colaborar com a acusação apoiada pelo Vigário e uma curiosa carta de José Caetano Pinheiro, Presidente da Câmara Municipal de Bragança, de 6 de março de 1883, acusando recebimento dos documentos. Tudo para somar argumentos que corroborassem para a anulação da eleição, um esforço talvez desnecessário, já que se tratava de um ex-escravo que ameaçou a paz, o poder do acusador e as ordens do vigário de Bragança.
A partir daí, podemos avaliar o papel do padre nessa religiosidade assentada sobre instituições e lideranças leigas. O catolicismo foi também o espaço de manifestações culturais intrínsecas na vida do povo que o consumia. Eram rituais vivenciados a partir da miscigenação racial. Não deixa o aspecto religioso, porém, de ser a expressão mais acentuada. Falar de catolicismo popular é buscar entender o jeito que o povo encontrou de perseverar na fé ou para vivenciar seus rituais, desconsertando a moral exigida no exercício de funções especiais, como a que significava ser Juiz de São Benedito.
As acusações continuavam à revelia das opiniões de outros irmãos. Detenho-me agora nas acusações contra o Procurador reeleito, notando que elas partem do depoimento solitário de Manoel Antonio do Nascimento.

“Ora o reeleito procurador Raymundo Antonio Lisboa não conta com nenhum d'estes predicados alem do seu procedimento pessimo e escandaloso como pai de familia, é o mais omisso e relachado nas obrigações do cargo que ocupa a tantos annos com detrimento e descredito da propria Irmandade (...)”.

No que cerne à obediência, o processo continua afirmando que a mesa regedora da IGSBB não acatou a decisão de anulação dada de cima do púlpito pelo vigário, nem se submeteu à intimação que o mesmo procedeu chamando os membros da mesa para que pudessem resolver a questão.
Como quinto motivo se sobressai a falta cometida pela dita mesa regedora de não lavrar o documento dentro do consistório da matriz, o local do sagrado, onde suas ordens pudessem ser obedecidas e respeitadas. Ainda, aqueles ligados aos desígnios do Vigário refizeram seus depoimentos, já que o presidente da mesa regedora e juiz da festividade antecedente contestou a ata que ele mesmo assinou,

“e que se havia assignado o chamado termo de posse foi por não saber o que n'elle se continha, e que reprovava tudo o que a meza tinha feito sem beneplacito a aprovação do respectivo Vigario da Parochia”.

Isso colocava em questão a própria existência da irmandade, estando ela a mercê da aprovação eclesiástica responsável. A acusação acima não está esclarecida no que se refere o artigo 9o do segundo Compromisso da IGSBB, já que se encontra nas atas da dita reunião de 23 de dezembro que esta se realizou no consistório, fato comprovado no processo. O principal motivo é que, em se tratando da dança da Marujada dentro do ambiente dito sagrado, ou seja, no templo, as proibições eram maiores, já que em tempo bem recente ao do processo em tese, o padre Raymundo Ulisses de Albuquerque fez circular em seu periódico as ordenações acerca da festividade em sua parte dita profana. Essas ordens incluíam desde a postura das mulheres dentro do recinto sagrado até a proibição de canto de sonoridade desconexa e “ininteligiveis”, não condizentes com a liturgia católica.
Quanto às esmolações, estas só eram toleradas para fins que fossem os da realização da festa em honra aos santos, pois a ninguém mais seria dada permissão para o referido serviço. Parece-me que mesmo sob o manto da romanização, alguns padres paraenses tiveram que entrar em acordo com os membros de irmandades.
Só para notarmos outra escala, citamos um caso do já abordado padre Mâncio Caetano Ribeiro[xxviii], como vigário de Vigia, como narra Raymundo Heraldo Maués.

“Em Vigia, eram feitas esmolações (com imagens de santos) para as festas da Ascensão, do Divino Espírito Santo, da Santíssima Trindade, da Santíssima Trindade dos cativos ou homens pardos e de N. S. de Nazaré, entre outras sem a oposição do Vigário (embora estas esmolações fossem proibidas por D. Macedo Costa). Não eram de todo abolidas as devoções e práticas do catolicismo tradicional, embora o pároco, seletivamente, prestigiasse algumas festividades”.[xxix]

Já no último motivo, o sexto das acusações, após a posse do novo juiz de 1884, a nomeação do primeiro mordomo e de algumas mordomas não recaiu “em pessôas casadas nem honestas, sendo esta uma das condições essenciaes exigidas pelo Sr. Bispo para a legalidade e approvação das ditas eleições”.
Há um desejo de totalidade imposto pela Igreja, não só pelas normas do padre Raymundo Ulisses Albuquerque, mas em um contexto amplo, que encontram a guarida de outros historiadores como Jean Delumeau e Raymundo Heraldo Maués[xxx], quem sabe por medo de que não se cumprissem as ordens e pela tentativa de homogeneização do culto e das devoções que tentavam controlar.

Limites e brechas da romanização no duelo entre os irmãos de São Benedito

Essa religiosidade popular, tradicional buscava intermediários bem próximos e sensíveis para o relacionamento com o divino, servindo-se de imagens, fitas, medalhas, rosários, santinhos, bendições, cantorias, folias e manjares[xxxi].
Nessas expressões de fé, a Igreja resistiu durante os três séculos precedentes às mudanças do Concílio Vaticano II.

“As festas religiosas, as procissões, as solenidades dos santos padroeiros, as associações e irmandades religiosas, mesmo o tipo de sermões, tudo isto constitui uma teia complicada, misto de religião e de cultural local, através da qual a sociedade local impõe suas normas aos comportamentos religiosos”.[xxxii]

Não quero justificar que se não tivesse ocorrido uma reforma nos quadros institucionais na Igreja do Brasil ela teria sido mais viva e dinâmica. Queremos mostrar a situação vivida pela maioria dos católicos, isto é, o sentido popular e seus rituais, às vezes, à margem de sua própria religião e sem espaço de cultuar seus santos.
Daí surgem ermidas e capelinhas pela permissão do Clero e das autoridades civis. A própria matriz (hoje Igreja de São Benedito) provém da necessidade de delimitar o espaço sagrado e cumprir com os desígnios da colonização pretendida para a vila Bragança, sob o onomástico de Nossa Senhora do Rosário.
Em seguida, com a iniciativa da IGSBB é dada a autorização para a construção do templo beneditino. Uma obra que deve ter durado mais de vinte anos até sua finalização, pois o espaço de tempo que se pode retirar dos documentos encontrados perfaz o período de 1854 a 1876. No ano de 1854[xxxiii], a Câmara Municipal de Bragança foi notificada pela irmandade que requisitava um espaço para a construção da igreja, para abrilhantar ainda mais a festa. Como a autorização dependia do Clero, a IGSBB pediu o parecer do Vigário de Bragança à época. Somente vários meses depois, frei João da Santa Cruz, Vigário Interino, a 5 de dezembro de 1854, deu parecer positivo. O templo mais tarde foi tomado pelos brancos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que congregava comerciantes e proprietários de terra e escravos.
A construção de prédios bem equipados e ornamentados revela a importância das igrejas para os negros e para as irmandades, enquanto símbolo de prestígio e espaço de vivência religiosa e social disputado em Bragança pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e pela IGSBB. Quanto ao templo, sua troca foi efetivada em 1872[xxxiv], doze anos antes do início do processo em que nos debruçamos.
As festas religiosas, os pomposos funerais, o socorro aos irmãos mais necessitados também eram indicativos da habilidade da IGSBB para gerenciar os seus bens. Para isso cercavam-se de vários cuidados e estabeleciam várias normas para regular a atividade do tesoureiro e do procurador, como encontramos em seu segundo Compromisso. Aos demais serviços eram eleitos os irmãos menos abastados.
Ao que parece estas eleições da mesa regedora da irmandade beneditina foram bastante concorridas. No caso da eleição de 1884, o eleito foi acusado veementemente por opositores que, aliados ao padre da cidade, conseguiram anular a posse do Juiz eleito no ocaso do processo, embora nem todas as suas petições encontrassem guarida necessária na autoridade de capelas de Bragança, o promotor Julio de Christo Farias, que inclusive contestou algumas afirmativas do autor das acusações por testemunho desfavorável, o que desqualificou em parte o autor, acusando-o de interferir e tornar públicos fatos da vida particular de outrem, como que criticando costumes comuns e intrigas pessoais, encerrando o processo dezessete dias depois de aberto.

“Sou, por tanto, de parecer que seja nullo essa eleição, mandando-se proceder outra, que deve recahir em pêssoas religiosas e moralisadas. (...) Não é o dado tratar-se em caso algum da vida privada de quem quer que seja; entretanto, aqui em Bragança, permitta que o diga, Ilmo. Sr. parece que já se tem por habito (com excepção de muitas pessoas) tratar se das particularidades alheias, e ainda o peticionario em sua reclamação mostrando o odio que parece ter no actual procurador da Irmandade de S. Benedicto, diz que este (procurador) 'não é bom pae de familia' e vive immoralmente, quando sei perfeitamente que esse procurador é homem casado, artista”.[xxxv]

Com a implantação do catolicismo ultramontano, mesmo tardiamente como no caso bragantino, a Igreja destituiu o laicato da administração de seu catolicismo. Em geral, as irmandades sofreram um profundo esvaziamento das suas atribuições. Muitas foram extintas e substituídas por novas associações leigas, voltadas para a devoção aos “novos santos”[xxxvi]. Suas festas foram consideradas contra a ordem vigente, inclusive contra o calendário litúrgico.
Através do Apostolado da Oração, em 1904, foi introduzida a devoção ao Sagrado Coração de Jesus[xxxvii]. Outras associações leigas foram criadas como a Pia Associação das Filhas de Maria, a Liga Católica, a Cruzada Eucarística. Todas elas distinguem-se radicalmente das antigas irmandades pela posição nelas ocupadas pelos leigos, ou seja, sua direção era exercida sempre pelo vigário, que estatutariamente fazia parte das suas diretorias e, de fato, tinha sob seu controle as decisões concernentes às entidades.
A Marujada, muitas vezes realizada no interior da Igreja foi vista como um folguedo agressivo e disforme, até ser proibida e não incentivada em meados da década de 1880, como decisão da Igreja. No entanto, seu conjunto ritual assimilou e incorporou elementos católicos, nas orações em latim arcaico, nas rezas, petições, louvores e folias, mesmo em honra a Nossa Senhora.
Assim, compartilho a abordagem de Antonacci[xxxviii], no que se refere aquilo que Michel de Certeau denominou de reemprego ou re-significação de aspectos culturais que são impostos (no caso da religiosidade), e re-apropriados por grupos populares como forma de resistir às contingências históricas.
As irmandades, marginalizadas, relegadas a uma abordagem “folclorizante”[xxxix], tiveram no século XIX momentos que se alternaram entre o prestígio junto ao Estado Imperial, substituindo-o em funções teoricamente da alçada do poder público, e momentos de repressão, controle, subordinação e apropriação por parte do Clero. Contudo, não se entregaram sem resistir, utilizando-se de variadas táticas, re-significando o discurso de sua repressão.
Neste sentido, no século XIX as irmandades se faziam presentes, refletindo o espírito da época. Segundo Boschi:

“A riqueza maior do estudo das irmandades talvez esteja no profundo significado histórico que elas apresentam. Foram e são instituições que espelham e retratam os diversos momentos e contextos históricos nos quais se inserem. Nada de anacronismos históricos. As irmandades caracterizam sempre o seu momento e o seu ambiente, dando origem à diversidade de formas, por um lado, e à fluidez e imprecisão de suas denominações por outro”.[xl]

O Clero desempenhou papel importante nesse processo de apropriação, mesmo de forma limitada, já que o catolicismo bragantino esteve, como em muitos outros ambientes da Amazônia e do Brasil, ligado à esfera do laicato. A Igreja reteve a possibilidade desses devotos de interagir sua religiosidade às manifestações da festa e do sincretismo, por várias formas, um tanto contraditórias.
Espelhados em Raymundo Heraldo Maués (1999), podemos afirmar que os padres abominaram “a ignorância religiosa” dos caboclos e armaram a maior armadilha para a cultura local: o desmonte de vários de seus ritos, festas e comemorações, fato amplamente comprovado ao mero olhar de Bragança na atualidade, conseguindo o reforço de sua autoridade na dominação ideológica e mantendo a força de sua intervenção, sobretudo no benefício à elite e à classe média bragantinas quando apresentaram sua proposta de salvação cristã, o que por inúmeros exemplos, às vezes, atestou o seu próprio contra-testemunho.
Compreendendo a irmandade de então não apenas como ambiente de solidariedade, mas também de conflitos, como afirmou Martha Abreu, se a história está cheia de exemplos de discursos sobre a decadência das festas, irmandades e procissões, cabe ao historiador explicar por que certos sujeitos, em determinadas épocas, produziram fatos tão contundentes e conflituosos.
Será que em algum momento do passado as festas religiosas e seus protagonistas haviam sido exemplares e perfeitos, mesmos nos discursos, logo nesta terra de tantos deuses e sincretismos[xli]?
Mas isto podem ser capítulos e provações de um outro tempo.




[i] A publicação deste ensaio obedece aos direitos autorais e citações específicas de fontes históricas e obras da historiografia e da literatura sobre o tema. Qualquer divulgação em parte ou total deste material sem a prévia consulta ao autor não está autorizada e se constitui em crime sujeito às penalidades estabelecidas pela legislação brasileira vigente e pela lei de proteção de direitos autorais.
[ii] Dário Benedito Rodrigues é bragantino, historiador, pesquisador e professor da Faculdade de História, da Universidade Federal do Pará, no Campus de Bragança.
[iii] Na historiografia brasileira existem divergências nas definições entre irmandades e confrarias. Para REIS, João José. A Morte é uma Festa. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, as confrarias são divididas entre irmandades e ordens terceiras, existindo em Portugal desde o século XIII e dedicando-se às obras de caridade para seus membros e pessoas carentes, formadas por leigos e até por religiosos. As ordens terceiras eram ligadas a uma ordem religiosa. Todavia outras definições divergem em alguns aspectos da apresentada por Reis. Caio César Boschi apresenta uma quarta categoria que seria a “junção” ou filiação de uma confraria com uma ordem terceira, formando uma arquiconfraria. Já Antônia Aparecida Quintão não vê grandes diferenciações entre irmandades e confrarias a não ser nos seus usos cotidianos e no que elas representam para a sociedade.
[iv] Movimento de reforma católica no século XIX, que tinha como pressupostos básicos a adequação do catolicismo brasileiro ao Concílio de Trento e sob as orientações de Roma.
[v] A religiosidade católica do séc. XVIII, denominada barroca, caracterizava-se pela grande participação dos leigos, que realizavam cerimônias religiosas em suas residências, nas capelas e igrejas por eles construídas. Ver SOARES, Mariza de Carvalho. Devotos da Cor. Identidade Étnica, Escravidão e Religiosidade no Rio de Janeiro, séc. XVIII. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.
[vi] Cf. LUSTOSA, O. F. “A presença da igreja no Brasil: colônia e império: perspectivas e problemas”. In: Vários Autores. A religião do povo. São Paulo: Paulinas, 1978. p. 36.
[vii] Sobre irmandades em Belém no período ver em FIGUEIREDO, Aldrin M. de. Inimigos de Classe e Irmãos de Fé: escravos e senhores nas irmandades religiosas na Amazônia do século XIX. Belém: UFPA, 2001.
[viii] Cf. PIRES, H. Uma teologia jansenista no Brasil. Revista Eclesiástica Brasileira, n. 8, 1948. p. 327-340.
[ix] Cf. HOORNAERT, Eduardo. História da Igreja no Brasil. Petrópolis, Ed. Vozes, 1977.
[x] Cf. AZZI, Riolando. A influência do pensamento liberal no clero brasileiro: 1789-1824. Síntese, n. 31, 1984. p. 27-45.
[xi] Cf. COMBLIN, J. Situação histórica do catolicismo no Brasil. Revista Eclesiástica Brasileira, n. 26, 1976. p. 581.
[xii] Idem p. 574-601.
[xiii] Essa descrição pode ser vista em CEZAR PEREIRA, Benedito. Sinopse da História de Bragança. Belém: Imprensa Oficial, 1963.
[xiv] As portarias foram publicadas no jornal da Diocese do Pará intitulado A Estrela do Norte, de 12 de agosto de 1866, suspendendo os padres Eutíquio Pereira da Rocha, Ismael de Senna Ribeiro Nery e Manoel Ignacio da Silva. Ver em ALMEIDA, 1942, p. 427-428.
[xv] Trabalho de RICCI, Magda Maria de Oliveira. Assombrações de um padre Regente: Diogo Antônio Feijó (1784-1843) deve ser acessado para identificar os fatos levantados.
[xvi] Ver em MAUÉS, Raymundo Heraldo. Uma outra invenção da Amazônia. Belém: CEJUP, 1999, p. 120.
[xvii] Termo usado para me referir ao local onde se davam as festas de São Benedito em Bragança. Na contemporaneidade já extintos, eram de responsabilidade dos juízes e juízas da festa.
[xviii] Cf. HAUCK, 1985, p. 635.
[xix] Ver em NONATO DA SILVA, Dário Benedito Rodrigues. A Essência Beneditina: Escravidão e Fé na Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança, do século XVIII ao XIX. Monografia. Curso de Licenciatura e Bacharelado em História. Bragança: UFPA, 2002.
[xx] VOLVELLE, M. Ideologias e Mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1987. Para este autor há uma difícil tarefa que se impõe ao historiador das religiões “populares” no que diz respeito às abordagens metodológicas de fontes que chegam à posteridade compostas de argumentos preconceituosos e policiadas nas suas ações. A melhor maneira de inverter a situação é, segundo Volvelle, tentar enxergar para além das fontes. Tentar realizar um discurso contrário, “horizontalizando” as relações entre “dominantes” e “dominados”.
[xxi] Cf. COMBLIN, 1966, op. cit. p. 583, nota 6.
[xxii] Cf. SILVA, Dedival Brandão da. Os Tambores da Esperança: um Estudo Antropológico sobre a Construção da Identidade na Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança. Belém: Falângola, 1997.
[xxiii] Cf. NONATO DA SILVA, op. cit. p. 55.
[xxiv] Cf. OLIVEIRA, P. R. Catolicismo popular e romanização do catolicismo brasileiro. Revista Eclesiástica Brasileira, 1976 Esse livro descreve a tese de doutoramento defendida pelo autor na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, em 1979. É um trabalho publicado em 1985 e dentro do contexto das Humanidades à época, é um tanto difícil na atual compreensão historiográfica, pois se utiliza de pressupostos sociológicos para se fazer explicar um tema histórico-religioso.
[xxv] Comungo da definição de tempo ritual que é explicada em SILVA, Dedival Brandão. Os Tambores da Esperança: um estudo antropológico sobre a construção da identidade na Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança. Belém: Falângola, 1997. Nesta obra, o autor trabalha com o tempo do ritual onde a festividade é vivenciada por todos os seus agentes sociais e em outro tempo, o da Esmolação, do início de maio ao início de dezembro, quando as três imagens de São Benedito, levadas por três Comissões de “irmãos” esmoleiros se dirigem para as regiões dos Campos, Colônias e Praias, circunvizinhas a Bragança.
[xxvi] Cf. AZZI, Riolando. O movimento brasileiro de reforma católica durante o século XIX. Revista Eclesiástica Brasileira, n. 34, 1974, p. 100, nota 4. Esse livro é exclusivamente dedicado ao assunto. Apesar de não ter outra edição, surgiu num momento eclesial importante para a Igreja no Brasil: após a Conferência do CELAM em Medellín (1968) e antes da Conferência de Puebla (1979), quanto a participação leiga na Igreja.
[xxvii] Portaria de Dom Antônio de Macêdo Costa, de 02 de fevereiro de 1883, coincidentemente ou não na data em que a Igreja Católica celebra a Apresentação do Menino Jesus no Templo e da Purificação da Virgem Maria, também conhecido atualmente como o Dia de Nossa Senhora das Candeias, ou Nossa Senhora da Luz. Talvez por isso e por apreensão desses costumes, em várias casas de Bragança ainda hoje se incentiva o acendimento de lâmpadas e velas brancas de cera para garantir a iluminação da casa, a benção dos familiares moradores e em sinal de devoção a Nossa Senhora.
[xxviii] O padre bragantino Mâncio Caetano Ribeiro, nascido em 1844, filho de uma família proeminente, foi convidado a ser sacerdote por D. Antônio Costa, estudando na Europa (Colégio Pio Latino Americano, em Roma, e Colégio São Suplício, na França), tornando-se sacerdote e doutor em Direito Canônico. Foi vigário de Vigia e em Belém exerceu, como cônego, a direção da Cúria Diocesana e Promotor da Câmara Eclesiástica de Ensino. No campo político, foi do Partido Conservador no Império, como deputado da Assembleia Provincial. Na República, foi eleito Deputado Estadual. Ocupou vários cargos políticos, entre eles o de Diretor da Instrução Pública, em 1889. Foi eleito senador pelo Partido Republicano. Na imprensa, Mâncio Ribeiro, fundou em Vigia o jornal Órgão do Partido Católico. Ainda foi proprietário do Gram-Pará e do Correio Paraense. Alguns estudos sobre o padre Mâncio foram levantados pelo escritor bragantino José Ribamar Gomes de Oliveira.
[xxix] Cf. MAUÉS, 1999, op. cit. p. 134.
[xxx] Ver em DELUMEAU, Jean. Le Christianisme va-t-il mourir? Paris: Hachette, 1977 e em Maués, op. cit. p. 136.
[xxxi] Cf. vastíssima descrição em SILVA, Dedival Brandão da, 1997.
[xxxii] Cf. ROLIM, A. Em torno da religiosidade no Brasil. Revista Eclesiástica Brasileira, n. 25, 1965. p. 15.
[xxxiii] Constam das atas da Câmara que, em 1854, os vereadores defeririam o pedido dos negros “logo que a Câmara mande alinhar o quadro da praça serão os supplicantes deferidos” e “antes de tudo foi a Irmandade de São Benedito que, em 4 de abril de 1868, solicitou a Dom Antonio Macêdo Costa, Bispo do Pará, a construir em Bragança um templo dedicado a São Benedito”.
[xxxiv] O templo construído pela IGSBB foi trocado com o da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, em 1872. Sobre a troca das igrejas existem muitas versões. Entretanto, uma em especial é que compõe um artigo inédito de 1993, acima citado, de Dom Miguel Maria Giambelli, Bispo de Bragança, baseado em livro de Dom Alberto Ramos.
[xxxv] Com o fim do processo, o promotor Julio de Christo Farias, conclui opondo-se em parte às acusações do autor do mesmo, mas sendo também testemunha a favor do Juiz da Irmandade de São Benedito. Encontramos dados esparsos sobre o Juiz Esequiel Antonio Tavares, nas prestações de contas de várias irmandades junto ao Juízo de Capelas em Bragança, dispostas de forma desorganizada, onde se percebe que o mesmo era membro da Banda de Música Euterpe Bragantina, que se apresentava em várias festividades religiosas, com certeza em procissões de santos, como são Benedito, na cidade. Essa documentação está no Cartório do 1o Ofício da Comarca de Bragança.
[xxxvi] São contadas muitas irmandades convivendo e celebrando seus cultos em Bragança. Segundo documentos do Juízo de Capelas, agora no Cartório do 1o Ofício da Comarca de Bragança, existiam as irmandades do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora do Rosário, de São João Batista, de São João Batista dos Índios do Vimioso, de Santo Antônio e a de maior visualização que é a Irmandade do Glorioso São Benedito, pelo menos no âmbito urbano.
[xxxvii] Segundo fontes documentais do arquivo da Cúria da Diocese de Bragança e tendo em mãos uma cópia escrita da benção apostólica dada pela Congregação dos Ritos subordinada ao Papa, podemos encontrar em 1904 como o ano da instalação do Apostolado da Oração em Bragança.
[xxxviii] Cf. ANTONACCI, Maria Antonieta. 2000, p. 196.
[xxxix] O termo “folclorizante” está sendo usado nesta análise para designar algo que é objeto dos folcloristas, estando reservado a um passado distante e imóvel que estaria ainda impregnado na cultura popular praticada por pessoas geralmente residentes nas áreas rurais distante dos grandes centros urbanos.
[xl] Cf. BOSCHI, Caio César. Os Leigos e o Poder: Irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. Ed. Ática, São Paulo, 1986. p. 12.
[xli] Cf. ABREU, Martha. O Império do Divino. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000. p. 144.