sábado, 30 de março de 2013

Lamento da Virgem, em O Poema do Homem-Deus (de Maria Valtorta), reedição

LAMENTO DA VIRGEM[i], de O Poema do Homem-Deus[ii]
Maria Valtorta[iii]

“Jesus! Jesus! Onde estás? Me ouves ainda? Ouves tua pobre Mãe que grita, agora, o teu Nome santo e bendito, após tê-lo guardado no coração por tantas horas? O teu Nome santo, que foi o meu amor, o amor dos meus lábios, que experimentaram sabor de mel ao pronunciar que bebem o amargor que ficou em teus lábios. O amargo da atroz mistura.. o teu Nome, amor do meu coração que se enchia de alegria quando o pronunciava, assim como se dilatara para extravasar seu sangue e receber-te e recobrir-te de si mesmo, quando desceste a mim do Céu, tão pequenino, tão minúsculo, que terias conseguido pousar no cálice da hortelã selvática.
Tu, tão grande, Tu, o potente aniquilado num germe humano para a saúde do mundo. O teu Nome, dor do meu coração agora que te arrancaram aos afagos de tua Mãe, para jogar-te entre os braços dos algozes, que te torturaram até a morte. Tenho o coração despedaçado por causa deste Nome que tive que guardar dentro de mim por tantas horas e que mais aumentava o seu grito na proporção que mais aumentava a tua dor, até arrebentá-lo, como coisa amassada pelo pé de um gigante. Oh! Sim que a minha dor é gigante e me esmaga, me despedaça e não há nada que a possa aliviar. Para quem eu pronuncio o teu Nome? Nada responde ao meu grito. Ainda que eu gritasse, até despedaçar a pedra que fecha o teu sepulcro, Tu não ouvirias, porque estás morto. Não ouves mais a tua Mãe? Quantas vezes não te chamou, ó Filho, nestes trinta e quatro anos![iv] Desde quando soube que deveria ser Mãe e que o meu pequenino se teria chamado ‘Jesus’! Tu não tinhas nascido e eu, acariciando o ventre, onde Tu crescias, sussurrava com carinho: ‘Jesus’, e me parecia que Tu te mexias para dizer-me: ‘Mamãe’. Eu te dava já uma voz, já a sonhava, a Tua voz. Ouvia-a antes que fosse. E quando a ouvi, tênue como a de um cordeirinho recém-nascido tremer na noite fria em que nasceste, eu conheci o abismo da alegria... e acreditei de ter conhecido o abismo da dor porque era o pranto da minha Criatura que tinha frio, que estava desagalhada, que chorava o seu primeiro pranto de Redentor e eu não tinha fogo nem berço e nem podia sofrer em teu lugar, ó Jesus. Não tinha que o seio para fogo e travesseiro e o meu amor para adorar-te, meu Filho Santo.
Pensava de ter experimentado o abismo de dor... Era tão somente o alvorecer daquela dor, era o princípio. Agora é meio dia. Agora é o extremo da dor. Este é o abismo, este que toco agora, após ter descido nestes trinta e quatro anos, empurrada por tantas coisas e hoje prostrada no fundo horrendo da Tua Cruz.
Quando eras pequenino, eu te embalava, cantando: ‘Jesus! Jesus!’ qual harmonia mais santa e linda do que este Nome, que faz sorrir os anjos do Céu? Ele para mim era mais lindo que o canto, tão doce, dos anjos da noite do teu Natal. Enxergava nele o Céu, todo o Céu via através daquele Nome. E agora, ao dizê-lo a Ti que és morto e não me respondes, como se Tu nunca tivesse existido, eu vejo o Inferno. Eis: agora compreendo o que quer dizer ser danado. É não poder mais dizer: ‘Jesus!’ Horror! Horror! Horror!...
Quanto durará este Inferno para a Tua Mãe? Tu o disseste: ‘Depois de três dias reedificarei este Templo’. É o dia todo que estou repetindo estas Tuas palavras, para não cair morta, para estar pronta a te saudar quando da Tua volta, e servir-te ainda... Mas como poderei suportar que Tu permaneças morto por três dias? Três dias na morte, Tu, Tu, minha vida?
Mas como? Tu que sabes tudo porque és Sabedoria infinita, não conheces o espasmo de tua Mãe? Não to podes imaginar, recordando quanto te perdi em Jerusalém e Tu me viste romper a multidão que te rodeava, com o rosto de uma náufraga que toca a terra após tanta luta com as ondas e com a morte, com o rosto de uma que sai de uma tortura cansada, dessangrada, envelhecida, alquebrada? Mas naquela ocasião podia pensar que fosses unicamente perdido. Podia me iludir que era só assim. Hoje, não. Hoje, não. Sei com certeza que estás morto. Não é possível a ilusão. Eu te vi ser morto. Eis: também se a dor me desmemorasse, eis aqui o teu Sangue, sobre o meu véu, que me diz: ‘Está morto! Não há mais sangue! Este é o último, jorrado do seu Coração!’ Do seu Coração! Do coração do meu Menino. Do meu Filho! Do meu Jesus! Oh! Deus! Deus piedoso, não me faças recordar que lhe partiram o Coração...
Jesus, não posso ficar aqui sozinha, enquanto Tu estás sozinho lá. Eu que nunca amei as estradas do mundo e as multidões, e Tu bem o sabes, desde quando Tu deixaste Nazaré vim sempre mais ao teu encalço, para não viver longe de ti. Enfrentei curiosidades e escárnios; não enumero os cansaços porque eles se dissipavam ao encontrar-Te, para conseguir viver onde Tu estavas. E agora estou aqui sozinha. E Tu estás lá sozinho. Por que não me deixaram no teu sepulcro? Teria me sentado perto o teu gélido leito, segurando a tua mão nas minhas, para te fazer sentir que estava perto de ti... Não, para eu sentir que Tu estavas perto. Tu que não sentes mais nada. Estás morto!
Quantas vezes passeis às noites perto do teu berço, orando, amando, inebriando-me de Ti. Queres que eu te diga como dormias, as mãozinhas fechadas como dois botões de flor perto do rostozinho santo? Queres que eu te diga como sorrias sono e, lembrando-te certamente do leite da Mamãe, dormindo, fazias o festo de chupar? Queres que eu te diga quando te despertavas e abri os olhinhos e rias, vendo-me curvada sobre o teu rosto, e tendias as mãozinhas com alegria impaciente por ser carregado e com um gritozinho doce como um trilo de um toutinegra, reclamavas a tua comida? Oh! Como me sentia feliz quando te agarravas ao meu seio e sentia a tepidez lisa das tuas faces, as carícias das tuas mãozinhas sobre o meu seio!
Não sabias ficar sem a tua Mamãe. E agora estás sozinho! Perdoa-me, Filho, de ter-te deixado só. De não me ter rebelado pela primeira vez na minha vida e ter resolvido ficar lá; era o meu lugar. Ter-me-ia sentido menos desolada, se tivesse ficado perto do teu fúnebre leito, para te ajeitar as faixas como outrora e mudá-las... Também se Tu não tivesses tido a possibilidade de me sorrir e me falar, eu teria tido a impressão de possuir-te ainda pequenino. Teria te amparado sobre o coração, para não te fazer sentir o frio da pedra, a dureza do mármore. Não te segurei também hoje? O colo materno é sempre capaz de receber o Filho também se já é homem. O filho é sempre uma criança para a sua mãe, também se é descido de uma cruz, coberto de chagas e feridas.
Quantas! Quantas feridas! Quanta dor! Oh! O meu Jesus, o meu Jesus tão ferido! Ferido! Assim! E desta maneira morto! Não. Não. Senhor, não! Não pode ser verdade! Eu estou louca! Jesus, morto? Eu estou delirando, Jesus não pode morrer! Sofrer, sim. Morrer, não. Ele é a Vida! Ele é o Filho de Deus. É Deus. Deu não morre.
Não morre? E então por que se chamou de ‘Jesus’? Que quer dizer ‘Jesus’? Quer dizer... Oh! Quer dizer: ‘Salvador’! Morreu! Morreu, porque é o Salvador. Teve que salvar a todos, perdendo a Si mesmo... Não deliro, não. Não estou louca. Não. Se o fosse! Sofreria menos! Ele morreu. Eis o seu Sangue. Eis a sua coroa. Eis os três pregos: com estes, com estes, mo transfixaram!
Homens, olhar com que transfixastes a Deus, ao Filho meu! E vos devo perdoar. E vos devo amar. Porque Ele vos perdoou. Porque Ele me disse de voz amar! Fez-me vossa Mãe, Mãe dos assassinos da minha Criatura! Uma de suas últimas palavras, lutando contra o estertor da agonia... ‘Mãe, eis o teu filho... os teus filhos’. Também se eu não fosse Aquela que obedece, teria que obedecer hoje, porque é a ordem de um moribundo.
Eis. Eis. Jesus, eu perdoo. Eu os amo. Ah! Mas se despedaça o coração neste perdão, neste amor! Me ouves, que os perdoo e que os amo? Oro por eles. Eis: oro por eles... Fecho os olhos, para não ver estes objetos de tua tortura, para os poder perdoar, para os poder amar, para poder rezar por eles. Cada perigo serve para crucificar toda a minha vontade de não perdoar, de não amar, de não orar pelos teus carrascos.
Devo, quero pensar de estar perto do teu berço. Também naquela oportunidade rezava pelos homens. Mas lá era fácil. Tu estavas vivo e eu, porquanto julgasse cruéis os homens, nunca teria chegado a pensar que pudessem sê-lo Contigo, que os havia beneficiado acima do limite. Orava, convicta de que a tua Palavra os teria tornado bons. No meu coração dizia-lhes, fitando-os: ‘Sois maus, doentes, agora, irmãos. Mas daqui a pouco Ele falará, mas daqui a pouco Ele vencerá em vós o Satanás. Dar-vos-á a vida perdida!’ A vida perdida! Tu, Tu, Tu, a perdeste, a vida por eles. Jesus meu! Se quando estavas no berço, eu tivesse conseguido ver o horror deste dia, o meu doce leite teria se mudado em tóxico pela dor! Simeão o dissera: ‘Uma espada te transpassará o coração’. Uma espada? Uma multidão de espadas! Quantas feridas te fizeram, Filho? Quantos gemidos tiveste? Quantos espasmos? Quantas gotas de sangue verteste? Pois bem. Cada uma é uma espada para mim. Sou um emaranhado de espadas. Em Ti não tem um pedaço de pele que não seja chagado. Em mim não há um que não seja transfixado. Transpassaram-me as carnes e penetram-me coração a dentro.
Quando esperava o teu nascimento, preparava para ti as faixas e os linhos, fiando o linho mais mórbido da terra. Não olhei ao preço, para poder possuir os fios mais macios. Como eras lindo nas roupinhas de tua Mamãe! Todos me diziam: ‘É linda a Tua criancinha, Mulher!’ Eras lindo! Do alvor do linho emergia o réu róseo rostinho. Tinhas dois olhinhos mais azuis que o Céu, e a cabecinha parecia envolvida numa neblina de ouro, tanto os teus cabelinhos eram louros e mórbidos. Tinham o sabor da amendoeira ao desabrochar. Pensavam que eu te perfumasse. Não. O meu tesouro não tinha que o perfume das roupinhas lavadas pela Mamãe, esquentadas, beijadas pelo seu coração e pelos seus lábios. Nunca me cansava de trabalhar par Ti.
E agora? Não tenho mais nada para fazer por Ti. Há três anos estavas longe de casa. No entanto eras ainda a razão dos meus dias. Pensar em Ti. Nas tuas vestes. Na tua comida: misturar a farinha para fazer o pão, cuidar das abelhas para preparar-te o mel, tratar as árvores para que dessem os frutos. Como amavas as coisas que a tua Mãe te levava! Nenhuma comida de mesa abastada, nenhuma veste de fazenda preciosa tinha para Ti valor como estas tecidas, cosidas, cuidadas, colhidas pelas mãos de tua Mãe. Quando me chegava a Ti, tu me olhavas logo as mãos, como quando eras pequenino e eu e José dávamos modestos presentes para te fazer sentir que eras o nosso Rei. Nunca foste guloso, meu pequenino, mas eras o amor que tu procuravas, era esta a tua comida e nos nossos cuidados o encontravas. Agora também encontravas, procuravas aquilo, pobre Filho meu, tão pouco amado pelo mundo!
Agora mais nada. Tudo está acabado. Nada mais fará por Ti a tua Mãe. Não precisas mais de nada... Agora estás sozinho... E eu estou sozinha... Oh! Feliz José que não alcançou este dia. Oh! Se eu também não o tivesse alcançado! Mas se assim fosse Tu não terias experimentado nem sequer este conforto de ver a tua pobre Mãe. Terias ficado sozinho na cruz, como estás sozinho no sepulcro. Sozinho com as tuas feridas.
Oh! Deus! Deus, quantas feridas tem o Teu Filho, o meu Filho! Como consegui vê-las, sem morrer eu, que desfalecia quando tu, criancinha, te machucavas?! Mas eu, que me sentira morrer vendo gotejar o teu Sangue na circuncisão – e José teve que me sustentar porque tremia como um que está à morte – me parecia que aquela pequenina ferida te fosse fatal, e a curei mais com o pranto que com a água e o azeite, e não me acomodei senão quando o sangue cessou.
Uma outra vez aprendias a trabalhar e te feriste com o serrote. Não tive sossego senão quando, após seis dias, vi sarada a tua mão. E agora? E agora? Agora tens as mãos, os pés, o lado aberto, agora a tua carne cai aos pedaços, e tens o rosto contundido, aquele Rosto que eu não ousava tocar com o meu beijo, e chagada tens a testa e a nuca. E ninguém te deu remédio e conforto.
Olha para o meu coração, ó Deus, que me feriste na minha Criatura! Olha-o! Não está chagado como o Corpo do Filho meu e Teu? Os flagelos se abateram como granizo sobre Mim, enquanto estava sendo golpeado. Que é a distancia para o amor? Eu sofri as torturas de meu Filho! Antes eu as tivesse sofrido sozinha! Antes estivesse eu sobre a pedra sepulcral! Olha para mim, ó Deus! Não goteja sangue o meu coração? Eis a marca dos espinhos. Sinto-a. é um laço que me aperta o coração e o perfura; eis o buraco dos pregos: três estiletes fincados no coração.
Oh! Aqueles golpes! Aqueles golpes! Como não desabou o céu por aqueles golpes sacrílegos nas carnes de Deus? E não poder gritar! Não poder gritar! Não poder me lançar para arrancar a ama aos assassinos e fazer da mesma uma defesa para a minha Criatura moribunda! Mas se obrigada a ouvi-los, ouvi-los e não poder fazer nada! Uma pancada sobre o prego, e o prego entrava nas carnes vivas. Uma outra pancada, e entra mais ainda. Uma outra e uma outra e se despedaçam os ossos e os nervos e é transpassada a carne do meu Menino e o coração de sua Mãe.
E quando te levantaram sobre a Cruz? Quanto deves ter sofrido, Filho Santo! Vejo ainda lacerar-se a tua mão nos solavancos do infixamento. Tenho o coração lacerado igual a ela. Estou contundida, lacerada, flagelada, pungida, ferida, transpassada como Tu. Não estava contigo sobre a cruz. Mas olha-a, a tua Mãe! Está diferente de Ti? Não. Não há diferença de martírio. Aliás o Teu acabou. O meu dura ainda. Tu não ouves mais as acusações falsas: eu as ouço. Tu não ouves mais as blasfêmias horrendas. Eu as ouço ainda. Tu não sentes mais a mordedura dos espinhos e dos pregos, e a sede e a febre. Eu estou repleta de pontas de fogo e sou como quem morre de ardências e de delírio.
Ao menos me tivessem deixado te oferecer uma só gota de água! O meu pranto, quando a ferócia dos homens se negava a dar ao Criador a água por Ele criada. Dei-te tanto leite, porque éramos pobres, Filho meu, e na fuga para o Egito tínhamos perdido quase tudo, e tivemos que refazer um teto, uns móveis e vestes e comida, e nem sabíamos quando o desterro teria durado, e nem quando teríamos achado voltando ao Lar. Amamentei-te além do tempo costumeiro para que Tu não sentisses falta de alimento. Até que não conseguimos uma cabrita, a tua cabrita fui eu, menino da tua Mãezinha. Tu já possuías tantos dentinhos e mordidas... Oh! Alegria em te ver contente nas brincadeiras infantis! Tu querias caminhar. Eras tão sadio e forte. Eu te sustentava por hora e horas e não sentia qualquer cansaço em ficar curvada sobre Ti que fazias os teus passinhos, e dizias a cada passo: ‘Mamãe! Mamãe!’ Oh! Felicidade ao ouvir cantar aquele nome!
Hoje também o dizias: ‘Mamãe, Mamãe!’ Mas a tua Mãe não podia senão verte morrer. Nem sequer podia te acariciar os pés! Os pés? Oh! Não teria tido ânimo de tocá-los, também se estivessem ao alcance da minha mão, para não aumentar o tormento. Como deviam sofrer os teus pobres pés, ó meu Jesus! Tivesse conseguido subir na cruz e colocar-me entre o madeiro e o Teu Corpo, e impedir que nas convulsões e agonia Tu batesse contra o lenho! Sinto-a ainda, a tua Cabeça batendo na cruz nos últimos estremecimentos. E aquele barulho, aquele barulho me enlouquece. Guardo-o na cabeça como um martelo.
Volta, volta, Filho querido, Filho Santo! Eu morro. Eu não suporto esta minha desolação. Mostra-me novamente o teu rosto. Chama-me ainda. Eu não posso te imaginar sem voz, sem olhar, reduzido a despojos frios e sem vida! Oh! Pai, socorre-me Tu. Jesus não me ouve! Não acabou a Paixão? Não está tudo completado? Não bastam estes pregos, estes espinhos, este sangue, este pranto? Algo mais ainda é preciso para salvar o homem?
Pai, estou te elencando os instrumentos da sua dor e o meu pranto. Mas isto é o menos. Aquilo que o fez morrer angustiado sobrehumanamente foi o Teu abandono. Aquilo que me arranca um grito do meu coração é o Teu abandono. Não te sinto mais. Onde estás, Pai Santo? Eu era a ‘Cheia de Graça’. O Anjo o disse: ‘Ave Maria, Cheia de Graça, o Senhor é contigo e Tu és bendita entre todas as mulheres’. Não. Não é verdade! Eu sou como uma maldita por Ti pelo seu pecado. Tu não estás mais comigo. A Graça se retirou, como se eu fosse uma segunda Eva pecadora. Mas eu sempre te fui fiel. Em que te desagradei? Fizeste os anjos mentir? E Ana, que me assegurou que Tu me darias o teu anjo na hora da dor? Estou sozinha. Não encontro mais Graça aos teus olhos; não te possuo mais, Graça, em mim. Não possuo mais o Anjo. Mentem, pois os Santos? Em que te contristei, se eles mentem e eu mereci esta hora?
E Jesus? Em que falhou o teu Cordeiro puro e manso? Em que te ofendemos para que, além do martírio dado pelos homens, tenhamos que experimentar a tortura incalculável do teu abandono! Mas Ele, Ele que te era Filho e que te chamava com aquela voz que fez estremecer a Terra e se sacudir num soluço de compaixão! Como tem foi possível deixá-lo sozinho em tanto tormento?
Pobre Coração de Jesus, que te amava tanto! Onde está o sinal da ferida do coração? Ei-lo. Olha, Pai, para este sinal. Aqui está a marca da minha mão, penetrada no sulco aberto pela lança. Aqui... Aqui... Não o cancelam o pranto e nem o beijo da Mãe, que tem os olhos ardendo e os lábios consumidos pelo chorar e pelo beijar. Este sinal grita e admoesta. Este sinal grita a Ti da Terra mais do que o sangue de Abel, e Tu, que maldisseste a Caim e o vingaste, não interviste em favor do meu Abel, já dessangrado pelos seus Cains, e permitiste o último ultraje! Tu lhe esmagaste o coração com o Teu abandono e deixaste que um homem o desnudasse para que eu visse e fosse esmagada. Mas para mim nada exijo. É para Ele, para Ele que te peço e te intimo a responder. Não devias...
Não devias... Oh! Perdão, Pai! Perdão, Pai Santo! Perdoa a u’a Mãe que chora a sua Criatura... Está morto! Está morto o Filho meu! Morto com o coração dilacerado. Oh! Pai, pai, piedade! Eu te amo! Nós sempre te amamos e Tu tantos nos amastes. Como permitiste que fosse ferido o Coração do nosso Filho? Oh! Pai!... Piedade de uma pobre mulher. Eu estou delirando. Pai. Eu sou Tua, teu nada, e tenho a ousadia de te repreender! Piedade! Foste bom. A ferida, a única ferida que não fez mal, é esta.
O teu abandono serviu para fazê-lo morrer antes do fim do dia, para evitar-lhe outras torturas. Foste bondoso. Tudo tu fazes visando beneficiar. Somos nós criaturas, que não compreendemos. Foste bondoso. Bondoso Tu foste! Pronuncia, sempre te amou, ó minha alma. Do berço até agora, sempre te amou. Deu-te todo o gozo do tempo. Todo. Deu-te a Si próprio. Foi bom, bom, bom. Obrigada, Senhor, que Tu sejas bendito pela Tua infinita bondade.
  Obrigada, Jesus: agradeço também a Ti! Eu somente a senti no meu, quando vi o teu Coração aberto. Agora está no meu coração a Tua lança, e remexe e estraçalha. Mas é melhor assim. Tu não a sentes mais.
Mas Jesus, piedade! Um sinal de Ti! Uma carícia, uma palavra para a Tua pobre Mamãe, que tem o coração despedaçado! Um sinal, um sinal, Jesus, se queres achar viva quando voltares.

Notas:

[i] 11º Capítulo do livro, às páginas 119-124. Imagens do filme “A Paixão de Cristo”, (The Passion of the Christ). Drama bíblico. EUA/ITA: 2004. Direção: Mel Gibson. Organização do Prof. Dário Benedito Rodrigues (Bragança/PA).
[ii] Tradução de uma parte da obra italiana intitulada “O Poema do Homem-Deus” (Casa Editora Emilio Pisani, de Isola del Liri, Itália), que corresponde aos últimos 19 capítulos do nono aos primeiros 6 capítulos do décimo volume. A obra completa encontra-se em 10 volumes conhecidos como “O Evangelho como me foi revelado”. O Papa Pio XII a leu e em audiência privada em 26 de fevereiro de 1948 autorizou a sua publicação. Os escritos de Valtorta passaram por diversas controvérsias, incluindo uma possível colocação no Índex da Igreja Católica. Esta tradução foi feita pelo ainda Monsenhor Miguel Maria Giambelli CRSP (1920-2010), já Administrador Apostólico da Prelazia do Guamá, e apresentada em 23 de março de 1978, numa Quinta-feira Santa. Teve o Imprimatur redigido por Dom Alberto Gaudêncio Ramos, Arcebispo Metropolitano de Belém, em março de 1978. Um texto de apresentação nas folhas de capa do livro, escrito por Dom Eliseu Maria Coroli CRSP (1900-1982) incentiva a leitura do poema. O texto foi atribuído a revelações privadas, visões e ditados do próprio Deus que a autora teve durante sua vida. A obra foi composta a partir de 1943 até 1951, em 15 mil páginas manuscritas em 122 cadernos, que depois foram datilografadas e que circularam na Itália até sua primeira edição.
[iii] Maria Valtorta nasceu em Caserta, na região da Campânia, Itália, em 14 de março de 1897. Tendo completado seus estudos, tornou-se enfermeira samaritana e serviu durante a Primeira Guerra Mundial num hospital de feridos de guerra, em Florença, na Itália. Neste lugar, em 17 de março de 1920, aos 23 anos, enquanto andava pela rua, foi violentamente golpeada nas costas, à altura dos rins, com uma barra de ferro, por um delinquente, o que lhe provocou a paralisia nos membros inferiores e constantes dores que a acompanharam até o fim da vida, permanecendo acamada desde 1934. Faleceu em 12 de outubro de 1961. Foi considerada, por um filósofo, teólogo e renomado mariologista, Padre Gabriel M. Roschini, professor da Universidade Pontifical Laterana de Roma, como umas mais dezoito maiores místicas de todos os tempos.
[iv] Nota do Tradutor: Trinta e quatro anos, não porque Jesus tenha vivido 34 anos, mas porque Maria vos acrescenta os nove meses da gestação.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Artigo "Aos 'Caboclos inocentes e de boa fé': entre educação e outras obras de Dom Eliseu Coroli, em Bragança (PA), século XX", publicado na Revista HISTEDBR on-line

Editorial

 

 Isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo. Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum tôrvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar. (VERÍSSIMO, 1968).

Este número da Revista HISTEDBR On-line organizado pelos Grupos de Pesquisa História, Sociedade e Educação no Brasil/Secção - PA (HISTED-PA) e Estudos e Pesquisas em História e Educação (GEPHE), reúne um conjunto de artigos de pesquisadores de norte a sul do país, preocupados com a difusão do conhecimento no campo da História da Educação. Os artigos são resultantes de pesquisas com fontes bibliográficas e documentais realizadas em nível local –Amazônia - e nacional articulados e, em diálogo, cuja base é a investigação e disponibilização da produção em história na educação brasileira.
A publicação é mais um passo no caminho da articulação, local–nacional em que se observam elementos significativos referentes à História da Educação Brasileira com o debate regional e local, em diferentes tempos e espaços, buscando sua compreensão e contribuição nos campos histórico e metodológico por meio da análise e da crítica entre os pesquisadores da região Norte e do Brasil.
Os vinte e três artigos que compõem esta edição, apresentam aos leitores várias possibilidades de produção do conhecimento no campo da história da educação em outras palavras é uma possibilidade de mostrar, no dizer de Veríssimo, “a parte invisível do fato...”.
(...) Em “Aos “Caboclos inocentes e de boa fé”: entre educação e outras obras de Dom Eliseu Coroli, em Bragança (PA), Século XX”, Dário Benedito Rodrigues Nonato da Silva, Leila do Socorro Rotterdan Oleto e Romyel Dillan Cecim de Oliveira, lidam com parte do desempenho de D. Eliseu Coroli, bispo católico, na cidade de Bragança (Pará, Brasil), a partir de fatos relacionados a ele como um ícone da História recente da região Bragantina, no século XX. Para ler e baixar o artigo completo, clicar no link acima.

Foto: Dom Eliseu Maria Coroli, em Bragança (PA). Fonte: Acervo IST (2008)


(...) Esse conjunto de artigos, resenhas e resumos oferecem aos leitores a dimensão da produção do conhecimento, no campo da história da educação, na Região Amazônica e do Brasil ao mesmo tempo é um convite à reflexão e ao debate sobre nossa identidade local, regional e ao mesmo tempo à nacionalidade. Deste modo, com esta edição, o HISTED-PA e GEPHE esperam contribuir e socializar as produções no campo da História da Educação.

Organizadoras/es
Prof.ª Maria José Aviz do Rosário (ICED-UFPA)
Prof.ª Clarice Nascimento de Melo (ICED-UFPA)
Prof. José Claudinei Lombardi (FE-UNICAMP)
Prof. Genylton Odilon Rego da Rocha (ICED-UFPA)
Prof.ª Celita Maria Paes de Sousa (ICED–UFPA)
Prof.ª Maria de Fátima Matos de Souza (CFI-UFOPA)

P.S.: A Revista HISTEDBR on-line é uma publicação do Grupo de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil – HISTEDBR da Faculdade de Educação/UNICAMP, que tem por objetivo publicar artigos resultantes de pesquisa ou de reflexão acadêmica, estudos analíticos e resenhas na área de História da Educação. A Edição n.º 48 da Revista HISTEDBR On-line, está disponível no link. Clicar para ler toda a revista, registrada sob o ISSN: 1676-2584.