sexta-feira, 8 de julho de 2011

Por um amor à Bragança

Por um amor à Bragança

Prof. M.Sc. Dário Benedito Rodrigues, historiador[i]

Muitas vezes, ao olhar desatento, Bragança pode ser apenas uma cidade à margem de um rio, colonizada por portugueses, com a labuta do trabalho indígena e de negros escravizados. Ao desatento olhar, ainda, é uma cidade como muitas, com as mesmas origens e até mesmo com homônimas que garantiram a Bragança mais antiga do Brasil.

No entanto, a um melhor interlocutor, Bragança salta aos olhos, com exemplos de sua cultura, patrimônio histórico, natural e humano, potencial turístico e esperança de desenvolvimento econômico, além das coisas bem bragantinas, da bragantinidade, como afirmou Jorge Ramos.

Nesse aspecto, ressaltam-se os variados exemplos de Bragança, com sua gente, sua hospitalidade e sua maneira tão peculiar de ser, onde vive um povo ordeiro, com gosto de ser desta terra. Tudo em uma época que pode ajudar a construir um futuro melhor: a proximidade de completar quatrocentos anos da conquista de seu espaço, por franceses, naquele julho de 1613.

Articulam-se situações, locais, épocas e seus sujeitos sociais. Não se compartilham apenas os sonhos, os medos, mas as lutas e as paixões de homens e mulheres que ostentam com orgulho a sua vinculação com a terra, numa história a construir e que sempre se remonta ao que “já teve”, pensando no “terá”.

A cultura caeteuara (termo genuinamente bragantino) vem de uma cidade de “frente pro rio” e que foi “cortada pelos trilhos de um trem”, sem meros acasos. Disso tudo vem a genialidade bragantina, seja na produção cultural (cantos, danças e rezas), seja na divulgação das coisas do Caeté (jornais, almanaques, revistas e órgãos de imprensa). Nessas curtas linhas, se torna imprescindível falar de cultura, falar de homens e mulheres que fizeram aquilo que de mais importante temos: nossas ricas e boas tradições, nosso adjetivo pátrio, nossa juventude de coração e nossa maturidade.

Como não lembrar da nada monótona sociedade bragantina, com suas intrigas e cortesãs, com seus fatos e endereços, com seus traços caboclos, com sua boa culinária e com o jeito especial de ser?

Esses pequenos traços nos remetem ao banho no igarapé, ao peixe assado no “avoado”, a crocante farinha de mandioca do paneiro, às delícias preparadas nas panelas de barro e à garapa de cada dezembro. A matriz africana nos garantiu não somente a sensualidade feminina, mas o ritmo e o eco dos passos tão sagrados das danças de Bragança (como retumbão, chorado, etc.). O povo escravo negro elegeu também nosso mais célebre cidadão, de origem italiana por certo, mas uma marca entre os mais humildes e dos que “atendem a seu chamado” no fim de ano colorido em vermelho e azul da Marujada: São Benedito. E dos brancos, herdamos a musicalidade que em tantas oportunidades cantamos, dançando ao som das cordas da rabeca e entoando por vezes o “desta terra de verde e de sol, de fragrância e de cores a mil”.

A História reflete sobre o tempo, o descreve e o aproxima do presente, relendo-o e relacionando-o com o hoje. Essa cultura deve estar pautada nas mais ricas tradições de nosso povo, passando pela orla do Caeté, pelo banho de mar em Ajuruteua, pela travessia do alagado dos Campos, ou em cada igarapé, pelas comidas temáticas e típicas, pelo receber bem do bragantino, pelo batuque da dança dos negros, pela religiosidade e por todo o pioneirismo conquistado a partir de símbolos como o Coreto Senador Antônio Lemos, o Mercado de Carne, a Estrada de Ferro, o Instituto Santa Teresinha, a “Furiosa” Cantídio Gouveia, o Campus Universitário de Bragança, o Hospital Santo Antônio, obras que testemunham uma cidade e se tornaram alguns de seus marcos balizadores.

Não só isso! E como esquecer o espetáculo natalino das pastorinhas em presépios familiares, das lindas quadrilhas juninas, do cantar dos cordões de pássaros, das cores e vivas da Marujada?

E na natureza, mais riqueza! Que vem das Colônias, antigas e atuais, com gente dos “olho verde”, quem sabe azuis... que vem da farinha do interior, no paneiro ou na latinha, do turu que sai do manguezal e do riquíssimo pescado que desbravou fronteiras.

Isso tudo ganha notoriedade maior quando vem do povo e quando é apropriado por todos. Da singularidade de dançar o xote à unicidade da Marujada, tão única que São Benedito, santo cidadão de Bragança, “veio morar entre nós” e “resolveu ficar”. Nossas palmeiras não só apontam a direção do céu, mas enobrecem a orla da cidade, tranquilizando os passos de transeuntes no vem-e-vai por ruas estreitas do Centro histórico e perto de azulejaria portuguesa, pra ir “lá embaixo”, na feira, trazer à mesa o pão de cada dia.

Uma cidade que respeita o seu passado e entroniza a sua cultura, aprendida nas aulas de singulares professoras e professores, como Maricotinha, como “Dadá” Lima, como Maia, como Guimarães, como Antônia Ferro, como Dom Eliseu Coroli, como Anita Oliveira e nos poemas de Jorge Ramos, de Eimar Tavares, de De Castro e Souza, de Bolívar Bordallo, de Álvaro Araújo, de Aviz de Castro. Cultura que também torna realeza a religiosidade de Mâncio Ribeiro, monsenhor, de Meninho Rey, pastor, dos Brambillas, sacerdotes. Cultura que se espelha e desfila na beleza de Gracinda Peres, de Maria Tereza Vasconcelos, de Vânia e Camila Macêdo, de Maria Alice Rodrigues, de Simone Morgado, em áureos tempos, que também falam do Carnaval de Chateaubriand e Scerni, ou na Patokada, ou no Vai-quem-quer-e-como-pode, do tio Rei, ou no carimbó de Verequete, mestre tão bragantino. Cultura que também reage na política de Ferreira Barreto, de Nazeazeno Ferreira, do pai e do filho Simpliciano, de Augusto Corrêa, de Lobão da Silveira, de João Mota e de tantos outros. Cultura que é ciência, como em Armando Bordallo ou em Horácio Schneider. Ou na candura e gentileza de Emília Castanho, de Fatita Ramos, de Socorro Lima, de Maria José Brito. E nas pernas talentosas no esporte de Canhoto ou de Tuíca... e nos textos de Lindanor Celina, de Ciríaco Oliveira, de Lucinha Medeiros... além da típica sesta ao findar do almoço, e da saudade dos tempos em que eram Nove os Balões e quando era o Time Negra, da ACREB ou do Grêmio Bragantino, saudades do tempo dos Joaquim(s) e dos João(s), das Benedita(s) e das Maria(s).

O mais belo disso é poder dizer “eu sou de Bragança” e cuidar de todo o patrimônio cultural que nos deixa marcado no coração o sentimento de pertença. Tem que se cuidar dos prédios da Escola Mâncio Ribeiro ou da Casa da Cultura, mas também dos prédios do nosso coração. O mais envolvente dessa relação de amor tem que ser o carinho por Bragança, da autoestima melhorada e em especial ao cuidado por sua gente (criança, jovem, adulto e idoso), por todo o sofrimento dos que construíram esse rincão, martelaram os dedos em dormentes e prensas, apanharam em troncos e atravessaram oceanos para que Bragança fosse o que ela é hoje. Disso precisamos elevar o orgulho e olhar à frente, num cuidado que requer a ética, a solidariedade e o respeito aos valores e às boas tradições bragantinas.

Por tantos exemplos, das páginas dos arquivos ou da memória, é preciso lutar para que este quarto centenário que se aproxima nos traga como em alvorada as luzes de um brilho maior à Pérola do Caeté. Nós, bragantinos e bragantinas, sempre demos mais vida, brilho e honra ao nosso chão, que dirá agora, com mais amor e mais trabalho.

E como já disse antes... assim será o amanhã, pois “já que Bragança brilha aos seus olhos, não fuja de sua luz”.



[i] Dário Benedito Rodrigues é bragantino, historiador e professor de História. Mestre em História Social da Amazônia e docente da Faculdade de História, da Universidade Federal do Pará, Campus de Bragança

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto!
    Ao som de "se Bragança é meu caminho..Eu tenho pressa de chegar..."

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