quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo... 2010 chegando/chegou!

Se existe "alguém" que recebe promessas é o Ano Novo.

Sempre fazemos votos de que tudo será melhor, diferente. Fazemos muitas promessas a nós mesmos, aos outros e a Deus. Parece que tudo vai mudar no ano que vem num passe de mágica.

Mas a realidade nua e crua é: O ano é novo, mas nós continuamos os mesmos. Não é novidade para ninguém que um ano novo, um carro novo, um companheiro novo, ou uma companheira nova, não tornam ninguém novo, nem diferente. Doce ilusão, mas puro sonho! Que bom, que beleza que pode ser assim, desse jeito, sempre! Sonhar e conquistar, certamente...

Mudanças em nosso ser não dependem de calendário, mas de atitude, paciência e fé. Se magoei alguém, não é a noite da virada que trará perdão e a reconciliação, mas o pedir perdão. E isso não se anota na agenda. E eu fiz questão de não anotar isso. Mudemos, todos, agora... hoje... amanhã! Acredito nisso e confio na mudança.

A mudança de mente, operada por Deus em nós, não pode estar presa ao reveillon, ao "ano que vai nascer". Afinal, dizem que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Em Bragança, o Ano Novo começa com um belo presente: Jesus, dos braços de São Benedito, seja na igreja, seja nas ruas dessa velha cidade.

A mudança da vida, operada por nós em sociedade, sim, essa está presa em nós. Então procuremos imitar bons modelos e seguir bons propósitos em 2010. Seja aqui em Bragança, seja pelo mundo afora. E contemos com a nossa família, berço de nossa existência, que estão sempre ao nosso lado, na subida ou no tropeço. E com os nossos amigos, aquelas pessoas com quem dividimos as nossas vidas e cujo laço de amizade foi feito com nó cego, que nunca desamarra.

E não podemos esperar tudo isso para ter mudanças significativas em nossa vida. Temos muito a fazer, muito a transformar em nós e por nós, no mundo a nossa volta. Sem perder de vista quem nos ama de verdade (Deus, família, amigos, amores, etc.).

Então desejo a você um Feliz Ano Novo, e adeus "homem/mulher" velho/a... Mas, lembre-se, mudanças significativas podem acontecer a qualquer momento. Feliz 2010 pra você, de coração pra coração!

Dário Benedito Rodrigues & Família

Bragança vai sentir saudades de...

Josafá Matos da Silva (+09.02.2009) Bethânia Macêdo (+11.02.2009) Dr. José Maria Maia (+22.03.2009) Irmã Helga Maria (+18.05.2009) Clara Silva Martins (+21.05.2009) Osvaldo Gardunho Martins (+28.05.2009) Zelina Gonçalves (+28.05.2009) Joelson Sousa Corrêa (+08.08.2009) Irmã Meire Gomes (+21.08.2009) Paulo César da Conceição (+27.08.2009) Margarida Maria Lima (+29.08.2009) Francisco Canindé Fernandes da Rocha (+29.11.2009) Regina Sousa (+09.12.2009) Wellington Araújo (+15.12.2009) José Fernandes Corrêa da Costa (+19.12.2009) Messias Monteiro Júnior (+22.12.2009) Marcelo Oleto Júnior (+23.12.2009)

E a nossa cultura em 2009?

Encerrou-se 2009. E com ele um fim de ano cheio de muitos solavancos.
Cabe-nos refletir de forma retrospectiva sobre o que se fez por nossa cultura histórica, patrimonial e arquitetônica em desmonte durante todo esse ano que ora termina. Esperava-se mais muito mais dos gestores estaduais e municipais, assim como dos orçamentos para com a cultura e patrimônio histórico de Bragança, pelo meio aonde circulei e por todos se dizerem incontestavelmente pessoas de sensibilidade cultural e muito mais ainda responsáveis pela cultura oficial bragantina. As nossas festas populares tiveram um melhor aspecto, na medida que trouxeram de volta a recuperação da memória popular bragantina, como o Carnaval (da Nega do Time Negra e Dona Aspázia), mas pecam ainda por não ter uma identidade temática, que vá além da programação, ornamentação e publicidade ao cerne da questão cultural, que é educativa, sobremaneira. No mais, um projeto feliz foi o lançamento do cd de Júnior Soares com as cantigas e folias das comitivas de esmolação de São Benedito (praias, campos e colônias), finalizado com o magnífico "Hino a São Benedito", que ficou lindíssimo. Outro, os pontos de cultura estão aí. O Grêmio Musical Nazeazeno Ferreira e a Irmandade da Marujada de São Benedito foram conquistas importantes. E isso devemos comemorar. O que dizer então da restauração completa da imagem de São Benedito? Ficou primoroso! Lamento por algumas obras que se divulgaram sérias e tão inéditas serem publicadas e não corrigirem, mesmo em errata post scriptum, problemas sérios quanto à técnica da escrita da história, dados e fontes históricas.
A reforma da Casa da Cultura, prédio do município, nada ainda, só projeto, pelo menos. É difícil, eu sei, eu entendo, eu aceito as dificuldades, mas a situação é lamentável. E ficou só nisso, infelizmente. O prédio da prefeitura foi fechado em 31 de março de 2009, e o acervo do arquivo documental se acabando nos depósitos, sendo devorado pela traça, pelo traslado de lá pra cá e até mesmo pelo descaso.
Desde 08 de fevereiro, a primeira parte da Praça de Eventos Armando Bordallo da Silva foi concluída. E todos podem achar agora que a obra está completa, mesmo ainda não retomada. O povo bragantino parece se acostumar com isso.
Em algumas oportunidades, a memória da cidade foi jogada ao relento, como a Escola Monsenhor Mâncio Ribeiro, que pode não restar peça em madeira alguma para refazer aquilo que se perdeu, apesar dos justos e silenciosos protestos dos alunos da querida escola, que jaz num prédio igualmente aos pedaços no bairro do Riozinho.
Apesar de todos os esforços desse governo municipal, os prédios incluídos nos decretos de tombamento de patrimônio histórico de Bragança, que poderiam ser mais respeitados, não o foram por completo. Nenhuma providência séria foi tomada contra a continuação da dilapidação gradativa da casa da família de Raymundo Nazeazeno Ferreira, não por falta de orientação, de trabalho educativo, de legislação específica e fiscalização por parte da prefeitura, mas por punição mesmo.
Em Bragança, não se criou ainda uma política cultural participativa, mas sim uma “cultura política”. Todos devem participar! Eu percebo que não foi ainda sequer cumpridos pontos fundamentais para o registro da cultura, como o Plano Diretor nessa área. Os artistas e as entidades culturais foram chamados, alguns foram ouvidos, outros nem fizeram questão de participar, lamentavelmente. Mas nada de gestão democrática... ainda. Aguardamos para ver em 2010, ano de eleições...
O fundo municipal de cultura não existe de fato, só de retórica e suposição, para que os artistas e grupos pudessem ter seus projetos financiados, sem precisar mendigar de pires na mão e sem apadrinhamentos políticos. As promessas de construir, de reformar, de criar um arquivo público municipal, entre tantas outras foram apenas promessas que não saíram do papel, mesmo com a insistência de tantos setores do próprio governo, como o que eu fiz parte. E ainda, não se pode falar muita coisa, para não causar melindres em alguns. O prédio identitário que foi a residência de José Paulino dos Santos Mártyres e depois sede da ACREB e da Fundação Cultural Bragantina tem uma memória, mas pode virar Casa da Juventude. Nada contra a juventude, de forma alguma, mas tudo em favor da história que aquelas paredes abrigaram. Nenhum programa inovador, no sentido de sua consistência, se teve para servir a uma cidade de tradição cultural. Alguns destaques vieram à tona. Infelizmente a cada tempo que passa parece que as coisas tem piorado... e quem vem salvando a cultura de Bragança são justamente os grupos e artistas que divulgam o nome de nossa terra e realizam coisas brilhantes em favor da nossa arte e da nossa gente. Exemplo disso são as gincanas culturais (algumas delas religiosas e escolares), que demonstram certo nível de discussão cultural sobre Bragança. Nenhuma obra literária de peso foi publicada como acervo documental ou cartilha para auxiliar os/as nossos/as professores/as.
Graças a uma iniciativa do governo federal, a 1ª Conferência Municipal de Cultura de Bragança foi realizada, sem uma participação tão grande, já que muitos grupos e entidades não acreditam nessa estratégia de controle social e de definição de políticas. Veremos se as metas e proposições aprovadas serão ao menos indicadas no Orçamento.
A Semana da Pátria foi bacana. O aniversário da cidade, nem tanto. Virou festa política. O Mirante de São Benedito quase não ficou pronto, pelas chuvas. Mas bem que a imagem poderia ficar um tantinho mais bem feita. O Festival de Música da Associação Cultura Musical Bragantina foi de excelente nível, mas parte da população ainda não gosta e nem está habituada à boa música. Infelizmente!
Os sites de Bragança deram um show à parte. Cobriram indistintamente vários eventos sociais e culturais e por isso merecem uma menção respeitosa e que se congratule com as pessoas que os coordenam, sem disputas nem predileções, mas felicitações. Mas uma coisa é de suma importância. Bragança terá, se Deus quiser e São Benedito der aquela força, o melhor PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas, elaborado por outra secretaria, em boa hora, para dar uma organização, uma oxigenada e apontar um rumo. Talvez este seja um projeto que sabe dialogar com a memória da cidade, com as pessoas, com os que pensam a cultura e a história, além de estar aberto para recuperar Bragança, ouvindo sugestões e críticas diagnósticas. Desejo que o PAC Cidades Históricas possa ser realizado totalmente para enfrentar os desafios de gerir uma cidade tão grande, complexa e culturalmente privilegiada como Bragança. Se ele conseguir desmanchar o clima de politicagem e de partidarismo, que tomou conta de vários órgãos e fizer um terço do que se propõe, terá cumprido uma missão importante e será aplaudido. O Curso de História (regular) da UFPA é uma conquista real, que vai ajudar a pensar a cultura e melhorar as pesquisas sobre História local. Isso é fato!
De forma alguma estou afirmando verdades incontestáveis, apenas expondo meus pontos de vista. Quiçá possam servir a muitos para a reflexão e tomada de atitude, pois o que a cultura de Bragança precisa em 2010 é de atitude. Como a de ser, plenamente, uma política pública, com status de secretaria própria e com recursos para gerenciar e realizar.
Atitude, por exemplo, para coibir a cultura da exorbitância dos volumes em carros-som que passam das sete às sete, sem respeitar o povo, escolas, igrejas, templos, ou de ter a liberdade de denunciar isso e saber que os veremos sentir o peso da lei. Quem dera!
E ainda, tem cara na mídia (?) que deveria apurar melhor os fatos e não apenas repetir mentiras, fofocas ou boatos, ainda mais quando usa de coisas de ordem pessoal para tentar atacar pessoas por aí, sem ouvi-las e ainda dar de ombros e/ou fingir depois que nada aconteceu. Ou ainda dos que se dizem amar Bragança, defendê-la, divulgá-la, mas usam a cultura bragantina agora como seu palco pessoal. Não queremos mais esse tipo de cultura fechada em micro círculos, mas ampla, irrestrita, do povo, sem deixar de ter bom senso, gosto, cheiro e cor do povo bragantino.
Esse pensamento não faz parte da natureza cultural do povo bragantino e por respeito não o comentarei nem o utilizarei em nenhum outro argumento. Por isso posso dizer com tranquilidade que sou apenas uma voz, não a voz. Quero ser apenas mais um responsável e mais um a se comprometer, mesmo agora no âmbito federal, com a história da minha cidade. Não precisei de "jeitinho" nem de "empurrãozinho". E estou dando, assim como muitos, atenção redobrada e contribuição honesta à história da minha querida Bragança, já que meu cordão umbilical está aqui. Não esqueço disso.
E como diria um amigo meu, de longe e de longas datas, "vermes não fazem história, apenas são pisoteados por ela". Depois, quem sabe, eu conte o resto.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Nossa grande missão: viver!

Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio. Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: As perdas do ser humano.

Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero. Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos.

Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: nos encanta e nos assusta, nos eleva e nos destrói. E continuamos a perder e seguimos a ganhar.

Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas porque alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair... E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. Por quê? Perguntamos a todos e de tudo. Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás.

Estamos crescendo. Nascer, crescer, adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer.

Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros. Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo nos é tomado contra a vontade. Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres.

Receamos dar risadas escandalosamente com a maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto. Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros. E aprendemos. E vamos adolescendo, ganhamos peso, ganhamos seios, ganhamos pelos, ganhamos altura, ganhamos o mundo.

Neste ponto, vivemos em grande conflito. O mundo todo nos parece inadequado aos nossos sonhos ah! Os sonhos! Ganhamos muitos sonhos. Sonhamos dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo.

Aí, de repente, caímos na real! Estamos amadurecendo, todos nos admiram. Tornamo-nos equilibrados, contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade. Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima dos outros animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado?

E continuamos amadurecendo, ganhamos um carro novo, um companheiro, ganhamos um diploma. E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem querer.

Mas perdemos peso! Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos-lhe aquele beijo estalado, mas apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias, títulos honorários e a chave da cidade. E assim, vamos ganhando tempo, enquanto envelhecemos.

De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas (ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso. e perdemos cabelos. Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir. perdemos a esperança. Estamos envelhecendo.

Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo. Afinal, quem nos garante que haverá mesmo um renascer, exceto aquele que se faz em vida, pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando, que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede.

Que a gente cresça e não envelheça simplesmente. Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie. Que tenhamos rugas e boas lembranças. Que tenhamos juízo mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia. Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos. E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, mas ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam-se amados.

Afinal, o que é o tempo? Não é nada em relação a nossa grande missão.

E que missão! Fiquemos em Paz! Para sempre.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sobre as dúvidas quanto à veneração da imagem de São Benedito em 26.12.2009

Olá amigos, Quanto à veneração da imagem do Glorioso São Benedito, tenho algumas questões para expor.

Dependendo do fim a que se destinam, as obras de arte podem ser consideradas sacras (de culto) ou religiosas (de devoção). Segundo Cláudio Pastro "a arte sacra é algo feito do ser da Igreja, da profundeza do ser cristão, é uma continuidade da liturgia e da celebração cristã e se põe a serviço da Igreja. A função da arte sacra é testemunhar Jesus Cristo. Ela é a visualização plástica do evangelho, a petrificação dos dogmas, e por isso, nos aproxima mais do verdadeiro ecumenismo cristão do que qualquer outra coisa. Ela também é educativa.".( PASTRO, 1993)

A obra de arte sacra é um fenômeno comunicativo, tem como objetivo expressar uma verdade que vai além do racional, do conhecimento humano. Seu objetivo é celebrar com a comunidade. Não é apenas a expressão do artista, mas de toda a comunidade na qual ele está inserido e a qual sua arte serve. É uma arte simbólica e teocêntrica. É a expressão de algo maior, não cabe em si mesma. A arte sacra é meio e não fim. Não tem a presunção de ser o centro, o fim em si mesma, ao contrário, sabe que serve a algo maior. Não é antropológica, nem lírica, nem acadêmica. É uma arte imaginativa, geométrica, abstrata e idealista, por isso divina.

O roubo cinematográfico e a recuperação de várias obras de arte sacra em todo o Brasil expuseram, mais uma vez, a fragilidade dos acervos do país. Faltam equipamentos, segurança e equipes especializadas para lidar com interesses inescrupulosos. Os números são implacáveis: nos últimos anos, desapareceram, no país, mais de 800 (oitocentas) obras tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em Minas Gerais, o roubo de imagens sacras do período colonial é comum. Desde 1971, foram registradas 450 (quatrocentas e cinquenta) peças desaparecidas no Estado e só parte delas foi recuperada. Pior: aumentou a preocupação de responsáveis por museus e instituições desde que os crimes ganharam outros contornos.

Não é o caso específico de Bragança, mas só um alerta. E tenho algumas respostas a esses questionamentos. A própria Igreja de São Benedito já foi vítima de assalto na quarta-feira, dia 25 de abril de 2007, durante a madrugada, quando notaram o arrombamento da janela lateral direita do templo (única), profanando a Eucaristia e roubando valores do cofre lateral do altar-mór de São Benedito. Todo cuidado é pouco! E a Paróquia providenciou um gradio para aquela janela.

Mas voltando à questão da veneração após a procissão, hoje (28.12.2009), ao ouvir a Rádio Educadora AM, às 11h57, o comunicador e professor Cledson Jair me encaminhou a questão da veneração da imagem do Glorioso São Benedito, como se eu estivesse determinando o tempo em que a imagem deveria ficar sob a veneração do público em geral na Igreja.

Vejamos. Primeiro, não havia em anos atrás a preocupação com a perda de várias peças do Patrimônio Histórico e Artístico de Bragança, material ou imaterial. É uma boa surpresa essa, e uma pergunta interessante, mais parte de nosso acervo se perdeu com o tempo. Há vários anos, desde 1997, recebi da Igreja essa missão, de retirar e colocar novamente a imagem de São Benedito em seu altar-mór, dentro dos padrões de segurança e de cuidado, que apendi com meu tio Benedito Lázaro Rodrigues. Fui consagrado a esse serviço pelo ex-vigário Pe. Aldo Fernandes da Rocha em 26.12.1997 e minhas mãos foram abençoadas para isso. Agradeço desde então essa tarefa quase divina, de poder trazer São Benedito para o povo e para a veneração de Bragança. Sou parte de todo o conjunto de pessoas preocupadas e interessadas na conservação das boas e verdadeiras tradições do povo bragantino, como historiador, marujo e católico, não o único a determinar sobre esse assunto em particular. Uma tarefa simples mas cheia de graça, espiritual e temporal. Um contato particular com São Benedito, sem nenhum propósito a mais a não ser cumprir com responsabilidade cristã e pessoal.

Na década de 80, quando comecei a me dar conta da importância de tudo o que envolve o ciclo de São Benedito e a participar efetivamente como pessoa e cristão, acompanhado de meus pais (Jocelino Nonato e Socorro Rodrigues), a imagem não ficava nem cerca de 10 (dez) minutos à veneração do povo, ia logo pra sacristia para ser retirada do andor e colocada no altar-mór, para que a missa que antigamente existia às 20h após a procissão fosse celebrada com São Benedito já no seu altar. Com o passar do tempo, precisamente em 1988, com a administração paroquial sobre a Festividade, isso começou a ser modificado, para atender ao mesmo povo e aos pedidos de vários e inúmeros devotos.

Por volta das 18h30 quando a imagem retorna nos braços cansados dos marujos do andor à Igreja, milhares de pessoas circulam no templo. Aproveitamos aquela movimentação para que essas pessoas possam realizar as suas orações, terem o seu contato com São Benedito, renderem seus agradecimentos e receberem as bênçãos de Jesus atrabés dele. Nesse ínterim, já se vão cerca de 30 (trinta) minutos, entre orações, demonstrações da fé do povo bragantino e dos visitantes que acorrem a São Benedito. As ofertas também são colocadas nos locais próprios com a coordenação de um diretor da festividade ou até mesmo dos/as sacristãos/as da Igreja de São Benedito. É impressionante esse momento. Marcante e emocionante.

A Diretoria da Festividade de São Benedito, presidida pelo Pe. João Nelson Magalhães, recomendada pelo Sistema Integrado de Museus (SIM), órgão da Secretaria de Estado de Cultura (SECULT), assim como pelo Pe. Gerenaldo Messias, Vigário Geral e Pároco da Catedral de Nossa Senhora, nos encaminharam todos os cuidados necessários para a preservação da imagem de São Benedito restaurada como era há cerca de 200 (duzentos) anos.

E todos os cuidados foram tomados. Sem exageros, nem ortodoxismos, mas cuidado e paciência. O andor recebe a imagem que é presa na peça de madeira, com um parafuso em rosca de cerca de 40 (quarenta) centímetros. A imagem fica suspensa sem cordas, fios, barbantes, nada. Só o parafuso. Com o serviço prestimoso de carregar o andor, de vários marujos, a quem devotamos particular agradecimento, a imagem fica exposta à movimentação brusca, saculejos, inclinações, além da dificuldade em relação ao peso que se redobra e multiplica com os inúmeros braços desses marujos no andor, preocupados e conscientes da importância desse serviço tão incomum e importante.

E então, a imagem retorna após a Missa campal para o interior da Igreja, chegando até o altar, onde foi colocada cuidadosamente, recebendo assim várias homenagens.

Dessa parte em diante assumi a função, pela Igreja, de orar, rezar, refletir e meditar o que tínhamos acabado de vivenciar, em mais de 30 (trinta) minutos. E é um trabalho acompanhado de perto pelo Vigário que asperge a população com água benta, abençoando objetos, chaves, indumentárias, crianças, pais, casais, estudantes e promesseiros, com carinho e sempre em atuitude orante e com a vigilância da Guarda Municipal de Bragança, por se tratar de uma preciosa, valiosa e bela imagem.

E assim, a imagem saiu do altar. O andor foi trazido ao interior da Sacristia e eu retirei, com o apoio de todos os presentes, a imagem do andor, com luvas específicas. O Vigário presidiu a entronização e o retorno da imagem ao altar-mor, de degrau em degrau, rezando e abençoando os fiéis presentes e contritos. Me assombra a súbita impressão de que pode parecer uma propriedade minha essa tarefa e que a desenvolvo com firmeza desmedida ou com propósito de me promover diante disse. Não o é e nem o seria, em absoluto. Não acredito assim. É apenas uma tarefa importante e consagrada. E que, por minha decisão particular, nunca seria revelada nem mesmo pela autoridade eclesiástica.

Vamos a alguns exemplos que podem nos trazer à tona esse esclarecimento. A imagem original de Nossa Senhora de Nazaré é retirada do "Glória" da Basílica de Nazaré por pessoa autorizada e reconhecida pela Igreja e pela Diretoria da Festividade nazarena. Depois é colocada em uma redoma de vidro à prova de bala no interior da basílica, próximo ao altar central do templo, com o apoio vigilante de dezenas de homens da Guarda de Nossa Senhora de Nazaré além de segurança, por se tratar de Patrimônio Histórico tombado e reconhecido.

No Círio de Belém, a imagem de Nazaré peregrina, confeccionada para a procissão, sai da berlinda, é retirada por pessoa autorizada pela Igreja e Diretoria e entregue ao arcebispo metropolitano para ser colocada no nicho onde ela será venerada após o cortejo. Daí, ninguém tem acesso ou autorização para o toque e para o manuseio dessa imagem, que fica no CAN (Centro Arquitetônico de Nazaré) e depois, no Recírio retorna ao Gabinete do Vigário da Basílica e só depois ao Colégio Gentil Bittencourt, onde é guardada pelas irmãs daquela congregação.

Em se tratando de Bragança e de tudo o que remonta à questão inicial desse esclarecimento, é tudo igual, com o mesmo significado do cuidado e do uso da imagem, no aspecto religioso, é claro. As circularidades culturais, as imagens mentais, a questão de fé que estão nesse culto e as demonstrações de amor e fraternidade que une os bragantinos daqui e os de todos os adjetivos pátrios que se achegam a nós. E as boas e verdadeiras tradições de Bragança continuarão. Eu passarei e me encontrarei um dia, quem sabe, se Deus quiser, com São Benedito, pessoalmente. Um dia... e darei nele o abraço que senti durante todos esses anos quando carrego em meus braços sua bela imagem.

São Benedito, rogai por nós!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Homilia de Padre Nelson Magalhães na chegada da Procissão de São Benedito em 26.12.2009

Assista o vídeo. video

Antiga festa popular paraense em louvor a São Benedito vira patrimônio cultural

Texto reproduzido na íntegra de http://www.pa.gov.br/, da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado, de 24.12.2009, 12h13.
Bragança tem mais um motivo para comemorar a Marujada, este ano. A governadora Ana Júlia Carepa assinou, no dia 5 de dezembro, o decreto que estabelece a tradicional festividade de São Benedito como patrimônio cultural do povo paraense. Festa com 210 anos de tradição, a Marujada guarda consigo espetáculos emocionantes. As comemorações ocorrem nos dias 25 e 26 de dezembro, no município de Bragança, região do Rio Caeté.
A festividade envolve todos os quase 110 mil habitantes da cidade, além dos que chegam dos municípios vizinhos e outros visitantes. Dezembro é considerado pelos empresários e comerciantes da região como o mês da grande temporada. Entretanto, os preparativos começam oito meses antes, quando os fiéis (esmoleiros) se preparam para a festividade. Eles recolhem donativos dos devotos do santo em localidades próximas do território do município, que mede 2.033 quilômetros de extensão.

Cada grupo é formado por 14 homens, muitos deles com promessa a pagar. Os esmoleiros viajam a pé o tempo inteiro, consolados pela força e pela fé do grupo, reforçada pela companhia de uma imagem do Santo Preto (como também é chamado), que cada grupo carrega. Cada casa que recebe a imagem tem direito a uma ladainha em homenagem ao santo, cantada e tocada pelo grupo. A família oferece almoço, jantar ou lanche aos esmoleiros, que ficam hospedados na casa.

Os festejos da Marujada continuam nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro, quando juiz e juíza passam o bastão para os novos promesseiros, que ficam inscritos numa lista de espera como pretendentes ao cargo até 2017. Um dos eventos mais concorridos da festividade é a Cavalhada, que ocorre na tarde do dia 25.

Restauração - Este ano, a imagem de São Benedito passou por um processo de restauro que durou sete meses e envolveu oito profissionais da equipe do Sistema Integrado de Museus e Memoriais (SIM) da Secretaria de Estado de Cultura (Secult). A equipe é a mesma que participou da restauração das peças da Catedral Metropolitana de Belém, inaugurada no dia 1º de setembro deste ano.

Durante os festejos do dia 29 de novembro de 2009, em homenagem a São Benedito, a imagem seguiu pelas principais ruas de Bragança. Em cima do carro de Bombeiros, por onde passou, o santo foi saudado e emocionou a multidão que aguardava por suas bênçãos em cada esquina. Todos queriam observar o resultado do restauro da imagem.

História - A data de 3 de setembro de 1798 marca a fundação da Irmandade de São Benedito. Para o historiador Dário Benedito Rodrigues, entretanto, a Marujada pode ter iniciado antes dessa data. A irmandade começou com 14 irmãos escravos, que no dia de Natal eram dispensados de suas obrigações pelos seus senhores e podiam fazer a festa. Nesse dia, eles recebiam dos senhores as sobras dos banquetes de Natal e ficavam livres para cantar, rezar e orar pelo santo de sua devoção.

São Benedito é considerado o santo mais popular entre todos e é conhecido como "Santo dos Pobres". Além do culto ao santo preto, os 14 irmãos decidiram que fundariam uma igreja para São Benedito. Foi assim começou o movimento de esmolação. Segundo Dário Rodrigues, eles chamavam esse processo de "arrecadação de joias", uma expressão simbólica para os donativos.

Na história também há informação de que a igreja construída pela irmandade para ser de São Benedito era a que é hoje a de Nossa Senhora do Rosário. E que a matriz, de Nossa Senhora do Rosário, ficou de 1753 a 1872, na igreja de São Benedito. Os historiadores falam de uma troca, que teria sido feita sem conflitos, ou seja, de comum acordo entre a igreja católica e os membros da irmandade de São Benedito.

Os elementos da tradição se mantém originais na Marujada, entre eles as danças, os pés descalços, os almoços ofertados por quem está em posição de destaque na hierarquia, como no início, em que o almoço da festa era doado pelos senhores aos escravos. A esmolação, hoje, continua, mas não com a mesma finalidade de construir igreja e, sim, de garantir a festividade, a homenagem e o agradecimento a São Benedito.

Secom

Uma tradição cultural que muda a cara de uma cidade

Texto reproduzido na íntegra de www.pa.gov.br, da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado do Pará, de 26.12.2008, 19h59

Ao amanhecer no dia 26 de dezembro na Pérola do Caeté, das casas e ruas de todas as comunidades dessa bela cidade, no nordeste paraense, na região Caeté, saem pelo menos uma maruja ou um marujo de cada família para agradecer e homenagear São Benedito de Bragança. É assim mesmo que o Santo é conhecido, como também é reconhecido o co-padroeiro dos bragantinos, ao lado de Nossa Senhora do Rosário.

Este é o grande dia de São Benedito, para quem nasceu em Bragança ou se tornou bragantino no tempo. São 210 romarias ao longo da história como canta uma música em louvor ao “Santo Preto”, que teria chagado na cidade pelas águas do rio Caeté, também como reza a cultura musical e religiosa local.

O vermelho e o branco das indumentárias de marujas e marujos colorem as ruas nas caminhadas e romaria, e no barracão, na hora dos bailes ao som de rabecas, banjos e tambores. Instrumentos que embalam as gingas das danças ao ritmo do retumbão, chorado, mazurca, xote, lundu e roda. “Todos os caminhos levam a São Benedito”, como disse um bragantino modesto, que prefere o anonimato.

O dia começa com um café da manhã na casa do presidente da marujada. Em seguida marujas e marujos vão buscar juíza e juiz, nas casas deles, e seguem para a missa, na igreja de são Benedito.

Da igreja para o barracão, da louvação ao retumbão, sempre com São Benedito no coração e pés descalços. Rima fácil, pobre, simples, mas capaz de narrar a profundidade expressiva dessa cultura original bicentenária, iniciada pelos escravos e mantida por descendentes e aderentes brancos, pardos e mestiços promesseiros e encantados.

O orgulho se reflete no brilho dos olhos, rostos e vozes, sorrisos e gestos. Falar sobre essa cultura para um bragantino é um prazer. Muita história existe pra contar e ouvir, a respeito da marujada, o lado profano da festividade.

A irmandade de São Benedito de Bragança foi fundada em 03 de setembro de 1798, como conta o professor e historiador Dário Benedito Rodrigues, consertando com palavras um erro histórico impresso em uma plaqueta na fachada da igreja, onde se lê a data “18 de dezembro de 1798”.

Dário é ainda o juiz da marujada (2008), cargo anual conquistado por promessa após a espera em longa lista e que tem como devoção participar de toda a programação e ofertar almoço para marujas e marujos. A mesma obrigação da juíza, a jovem mestranda em Turismo Luana de Sousa Oliveira, que ofereceu almoço no dia 26 (2008).

Antes da comida, Luana agradeceu aos familiares o apoio a sua missão e à imprensa, governo do Estado e ao município pelo apoio ao evento e ainda pediu aos devotos de São Benedito que lutem “sempre” pela manutenção da tradição. “Independente de conflitos políticos e religiosos, devemos todos lutar por esta cultura maravilhosa”, resumiu.

A juíza e o juiz passam o bastão no primeiro dia do ano. “A Luana é filha de uma promessa”, comentou o pai, o chefe de cozinha e artista plástico Ofir Oliveira que está com 19 telas sobre óleo em exposição em Bragança. Segundo Ofir, um compadre fez a promessa ao Santo para que a esposa dele engravidasse. E após o tempo certo, nasceu Luana, orgulhosa defensora da marujada e da festividade de São Benedito.

Além das autoridades de juiz e juíza, na marujada também existem os cargos de capitão para os marujos e capitoa para as marujas. Esses cargos são vitalícios, mas são constituídos após eleição em assembléia da irmandade. Uma vez constituídos somente a morte para abrir eleição.

Teodoro Fernandes Ribeiro, como diz, não pode mais fazer o que fazia, passou seu cargo para o vice, José Maria Santiago da Silva, de 52 anos. Teodoro foi quem solicitou sua substituição, já está com 95 anos. “Sempre trabalhei com a diplomacia, quando alguém chegava queimado (bebido) pedia para se acalmar ou se afastar, para não apalhaçar (expressão dele) a brincadeira”, afirmou.

José Silva fala das dificuldades em comandar os marujos. “Para uns somos boas pessoas, para outros somos antipáticos”, declara, explicando que por ser a marujada a parte profana da festa, muitos querem dançar e outros se esbaldar e extrapolam, fazendo “besteira”. Segundo ele, o capitão tem que controlar e harmonizar o grupo, para não prejudicar a marujada. “Essa festa bonita deve ser mantida com irmandade, pois como diz o ditado, boi solto se lambe todo”, ensina.

Aracilda Corrêa, 62, é a capitoa. Ela está radiante porque recebeu a notícia que em 2009 vai ganhar perna nova, uma prótese a ser adquirida com dinheiro da venda das telas de Ofir Oliveira, em torno de R$ 3 mil, como disse o artista. Diabética, Aracilda perdeu a perna esquerda após picada de inseto. Sua perna foi amputada dia 8 de setembro de 2007. Há quatro anos foi eleita capitoa.

Conta ela que achou bonita a marujada após uma “olhada na dança no barracão”, quando tinha 28 anos. Assumiu a posto de vice-capitoa aos 35 anos, graças a sua performance no salão e devoção à irmandade. Assumiu o posto de capitoa após a morte da capitoa anterior.

Romaria – A festividade de São Benedito de Bragança é gigante. A procissão é uma das mais belas demonstrações de fé do povo paraense. A Polícia Militar estimou que este ano cerca de 40 mil pessoas, a maioria absoluta vestida de maruja e marujo, acompanharam o cortejo do festejado Santo Preto, por várias ruas da cidade. A roupa vermelha e branca dominou a cena. “Quem nunca viu tem que vê, é impressionante”, comentou um turista apressado.

Entre as pessoas ilustres, estiveram no cortejo, o secretário de Estado de Cultura, Edílson Moura, a secretária de Estado de Desenvolvimento Urbano e Regional, Suely Oliveira e a diretora-geral da Escola de Governo do Estado do Pará, Edilza Fontes. Quem também visitou Bragança paraense pela primeira vez foi o prefeito de Bragança de Portugal, Antônio Jorge Nunes.

O prefeito se mostrou feliz e não resistiu, caiu na dança com as marujas no Teatro Museu da Marujada. Foi o primeiro natal longe da família. Aceitou o convite do prefeito paraense, Edson Oliveira, após já ter conhecimento de Bragança por informações da jornalista paraense Anete Ferreira e da professora da Universidade Federal do Pará, Nazaré Paz de Carvalho. “Vim conhecer um povo irmão e encontrei uma grande família”, comentou sorridente.

Nunes comentou que em Bragança, no seu país, existem festas tradicionais seculares, com características similares, com trajes ricos em cores, cantos e instrumentos tradicionais, como a gaita de fole. “O importante é conhecer o diferente”, ressaltou, dizendo que convidou Edson Oliveira para visitar sua Bragança, na terceira semana de fevereiro. Antônio Nunes está em seu terceiro mandato na prefeitura de Bragança portuguesa.

A agente administrativa, Marli Matos, aceitou o convite de uma prima bragantina após manifestar curiosidade e não pensou duas vezes, comprou a indumentária e se vestiu à caráter de maruja. “Fiquei encantada com a fé, devoção e com a multidão, é maravilhoso, fui cativada para sempre”, ratificou.

Por Lázaro Araújo / Secom

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Nosso São Benedito glorioso

Feições fechadas de olhares cerrados, lacrimosos, em rostos de pele negra e morena, com roupas multicoloridas e chapéus turbantes de penas e adornados com fitas esvoaçantes de vários tamanhos e matizes, ao som de tambores “negróides” do lundu. Marujos e marujas caracterizados para reavivar suas memórias marcadas pela fundação da sua irmandade, a do Glorioso São Benedito de Bragança, em 03 de setembro de 1798. Filhas de uma tradição medieval européia, essa irmandades objetivavam o culto e a devoção coletiva a algum santo católico, organizando grupos de “irmãos” em celebrações e festas, além de construírem vários templos religiosos, reunindo em seus quadros elementos étnicos, pobres, caboclos das praias, campos e vilas, que viam nelas uma oportunidade de lazer e liberdade. O dia de trabalho era trocado pela noite num ambiente de congraçamento, com festança que ia até o raiar das primeiras luzes do dia, provavelmente o 26 de dezembro, na Vila de Bragança, nordeste da Província do Grão-Pará, que despontava no cenário provincial paraense como um pólo abastecedor de matérias-primas até para a capital do Estado. Na sombra de quase dezesseis horas da tarde, a efígie de São Benedito, amarrada com fitas vermelhas e num andor todo ornado com flores naturais e com muito verde, saía em solene procissão à brisa do vento vindo do rio Caeté, entre cantos e palmas, fogos e rufar de sons típicos da época para mais um espetáculo de fé. Muitos se acotovelavam para carregar a dita imagem nos ombros: a de um negro, frei franciscano, de aproximadamente setenta centímetros, carregando um menino branco, em resplendores, alfaias e coroas de prata, vestido como pequeno rei. Em suas mãos, de um lado, a imagem ostenta um pão, do outro o próprio menino. A ordenação do passeio vespertino, na festividade e naquela tarde, eram definidas pela ordem da própria procissão, presença do Clero, indumentária característica e ritos mais ligados a uma tradição popular leiga, como nos cantos, nas danças e nos gestos, um ambiente onde exala o sagrado como cheiro característico de seu povo. Essa religiosidade popular amazônica é um fenômeno que acontece em quase todas as cidades interioranas do Pará. É um tempo em que essa cidades se agitam, se enfeitam, o povo regozija, os devotos chegam, enfim, a rotina diária é alterada com muita satisfação por aqueles que vêem na festa religiosa um momento de religiosidade e de descontração. Essa delimitação no mundo da Festividade de São Benedito, em Bragança, parecia comportar dois espaços diferentes e integrados na mesma identidade cristã, aí compreendidos entre os conceitos de popular e eclesiástico, como um caráter particular na história desta manifestação. Em nossa cultura há uma ambigüidade fundamental: a de sermos um povo latino, de herança cultural européia, mas etnicamente mestiço, situado no trópico, influenciado por culturas primitivas, ameríndias e africanas . Esta ambigüidade se insurge em outra articulação, que sob o ponto de vista da História, considere o folclore acerca do culto a São Benedito algo tão popular ou realmente espontâneo, quase natural. Nessas ocasiões festivas vemos os vários trabalhadores, sujeitos transeuntes, que folgam ou mudam seus horários quotidianos para homenagear o padroeiro, batucar, conversar, rezar, dançar e também louvar o seu Deus em motivações da reza cantada em latim arcaico, um mundo mais em sintonia do que em contraste, que revela a influência entre as religiões dos povos indígenas (na figura do caboclo) e do cristianismo (introduzido pelos portugueses e brancos), um exemplo de cultura popular. O argumento que mais chama a atenção é observarmos de forma itinerante e participante o culto popular que se insere nos casos, não tão raros, de santos “canonizados” pelo povo, em geral, mais humilde e empobrecido. Essas variáveis vemos em Bragança: a formalização das promessas, o banquete, os fogos, as ofertas de ex-votos, as disputas, os lugares, as pessoas e sua satisfação em entender-se dentro de um contexto onde o milagre dita o rumo da vida. Nisso, buscamos as origens de São Benedito, muito ligada à história de sua devoção na Igreja Católica, como trabalhador, filho de escravos, experimentando a pobreza, milagroso em favor dos humildes e empobrecidos. É latente a identificação da história de vida do frei franciscano com a do povo, como entrar no centro da devoção para com São Benedito, e traduzir, de um modo útil e duradouro nossa própria devoção. Neste caso em particular é bom recordar que os santos negros, chamados santos da escravidão, contribuíram para amenizar a consciência da espoliação sem embotar a consciência da liberdade dos escravizados, como Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, cultos espalhados pelos recônditos rurais e urbanos do Sudeste do Brasil . Esse fato explica a intensidade de seu culto em São Paulo e Minas Gerais no século XIX, mesmo com a sua posterior carnavalização, costume que só agora declina e não acompanha o apogeu da mestiçagem em que se vive. O certo é que em muitas cidades São Benedito tomou o seu lugar diante do povo e da vida do povo. Um lugar de cidadão, um lugar de “gente da gente”, como ocorreu em Bragança , com o feriado e legislação pertinente que apóia e justifica o culto. Outra informação parece factível de análise. A questão dos milagres citados por muitos dos seus devotos. A figura de São Benedito é como que um monumento erguido por seus milagres , que mais parecem lendas ou mitos, sem uma regra ou modelo de entendimento, como fatos dogmáticos, mas sempre abundante entre pobres e desvalidos socialmente. É no milagre que o devoto revive o sublime e a ligação afetiva com o santo, uma união quase familiar. E o povo alcança dele suas graças e milagres. Como informação, três anos após a morte de frei Benedito, o Tribunal Eclesiástico responsável por seu processo de beatificação já contabilizava 27 milagres atribuídos ao frei negro. A devoção à intercessão a São Benedito espalhou-se e formou-se de tal modo que em 1743 o Papa Bento XIV autorizou seu culto público, fato extraordinário já que a Igreja não permite essa prática sem provas santificadoras. Em 1807, duzentos e dezoito anos depois de sua morte, Pio VII o canonizou depois de o povo tê-lo feito. Sua vida e milagres tão excepcionais e admiráveis pareciam alegorias e atributos da devoção que o atribuiriam anos mais tarde. O culto a São Benedito chegou às margens e cercanias através pelas mãos do povo. No Brasil, São Benedito obteve imediata aceitação, uma vez identificado com os negros escravos necessitados de socorro e consolação. Santo de pai africanos, tinha na Itália fama de taumaturgo, fama que chegou às senzalas. Mesmo antes de morrer e de ser canonizado, já era grande essa devoção . Cedo tornou-se santo milagroso e glorioso dos negros, também dos brancos, também dos mestiços, também nosso. Zito Cezar (Pereira) descreveu em seu Sinopse como as pessoas comuns e vários senhores bem-nascidos acorreram aos quadros desta Irmandade bragantina, dando até mais importância ao Santo Negro do que a já aprovada padroeira de Bragança, Nossa Senhora do Rosário, já que Dom Miguel de Bulhões, da ordem religiosa dos dominicanos, tinha grande devoção a esse título de Maria, sugerindo a freguesia que o escolhesse como onomástico da posterior paróquia e até 1754, com a elevação do povoado à categoria de Vila. Esse ensaio, em particular, tenta interpretar um mundo em torno do culto a São Benedito, presente em Bragança, num ambiente de cultura pulsante. Pensando numa abordagem mais ampla, o que nos encanta é a sinceridade de quem vive essa devoção como parte central de um movimentado dia-a-dia amazônico. Neste espaço plural – popular e oficial –, o povo reinventa o sagrado, onde em nome de São Benedito, a vida flui, o ethos, a visão de mundo. Isso desde a chegada da pequenina imagem de madeira talhada a um tempo de enorme significado. O santo que vem das águas, fator de grande influência na história da Amazônia exige de nós uma percepção e a re-elaboração do sagrado em nossas próprias vida de penitentes: uma fé que nos remodela e cristianiza, numa cultura popular de sentimento, de resistência e de atualização, no terreno que começou conflituoso e virou palco de lutas e identificação: a escravidão. A visão do historiador passa a versar o/sobre passado, num conceito de termos, nós todos, o costume em comum , o marco identificador de nossa integração a São Benedito glorioso, nobilíssimo membro de nossas comunidades: famílias, empresas, cozinhas, escolas, altares, sempre ligado à vida dos populares, onde há sons, sinos, barulho de povo, um burburinho de gente, um cheiro de terra pisada a pés descalços. O santo agigantou-se na geografia de Bragança, que nestes mais de dois séculos ainda influencia, emociona e percorre três regiões distintas e cheias de devotos, desde a forma que toma o trânsito até a maneira de existir do bragantino. São Benedito participa da vida do povo de Bragança, no Pará, como seu amigo ilustre e fiel intercessor: o santo de nossa devoção. O catolicismo como religião do povo foi também o espaço das manifestações culturais intrínsecas na vida desse povo religioso. Tantas vezes a exteriorização dessas devoções ganhou caráter especial, reforçando a vida comunitária, baseada na fé católica, a esperança desse povo interiorano. Falar de catolicismo popular é buscar entender o jeito que o povo encontrou, mesmo perto das cúrias quase inexistentes, para perseverar na fé ou para vivenciar seus rituais, mesmo desconsertando a moral exigida no exercício de funções especiais, como a que significava ser Juiz de São Benedito. No que se refere a sua organização econômica, as irmandades possuíam várias fontes de renda: taxas de admissão, contribuições dos oficiais das festas, as esmolas que eram pedidas por irmãos devidamente autorizados, os anuais, as doações dos benfeitores, os aluguéis de propriedades e de terras, os leilões de víveres e animais, etc. Era preciso também controlar quem administraria todos esses bens e recursos materiais. Não só pela situação de estarem bem próximo de construírem sua própria igreja, mas também de contar com o apoio da autoridade do clero. A construção de prédios bem equipados e ornamentados, revela a importância das igrejas para os negros e para as irmandades, enquanto símbolo de prestígio e espaço de vivência religiosa e social disputado em Bragança pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e pela IGSBB. Quanto ao templo, sua troca foi efetivada em 1872 , doze anos antes do início do processo em que nos debruçamos. As festas religiosas, os pomposos funerais, o socorro aos irmãos mais necessitados também eram indicativos da habilidade das irmandades para gerenciar os seus bens. Para isso cercavam-se de vários cuidados e estabeleciam várias normas para regular a atividade do tesoureiro e do procurador, como encontramos nas páginas do segundo Compromisso da IGSBB. O que também chama a atenção é que dentro da IGSBB, os negros, quer libertos, quer cativos, não podiam exercer liderança nos cargos dispostos pelos estatutos (em todos os dois compromissos, tanto o de 1798 quanto o de 1853) tomando parte apenas nas deliberações como integrantes. Os escravos e ex-escravos sempre estavam associados a algum tipo de serviço interno (andadores, rezadores, esmoladores, sacristãos) seja para a Irmandade, seja para a parte religiosa da festa, sem direcionar os rumos da confraria, a mando dos Juizes e Juízas, cargos de maior preponderância. Já foi dito que uma das principais tarefas do historiador é desfazer as teias do silêncio. É dar um sopro vital a sujeitos e vozes de um passado encoberto pelas tramas secretas e artimanhas da história. É não deixar que estes sujeitos se transformem em simulacros de deuses mortos, objetos de um futuro incerto que os reservam apenas o lugar do excêntrico.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Falecimento de Marcelo Oleto Júnior (+23.12.2009)

Cumpro o dever de comunicar a todos do falecimento do jovem Marcelo Oleto Júnior (*02.06.1988; +23.12.2009), filho do casal amigo e meus compadres Marcelo Oleto e Leila Rotterdan Oleto, irmão de Odilardo Neto e Nathalia Rotterdan, tio de Yasmin e Julius, ocorrido em Belém/PA na tarde dessa quarta-feira. Marcelo foi meu aluno particular de História na preparação para o Vestibular da Universidade Federal do Pará, onde obteve aprovação no Curso de Medicina na turma de 2008, nos trazendo grande orgulho e felicidade. De uma família amiga, Marcelo sempre demonstrou zelo e cuidado com a sua família, além de um exemplo de filho e irmão. Na sua jornada como estudante, sempre tão zeloso, cuidadoso, aplicado, exigente consigo mesmo e esforçado. Com os amigos, a serenidade, a timidez, mas o sorriso e a palavra amiga e incentivadora. De jeito tranquilo e ao mesmo tempo radiante, Marcelo Jr. cativou amigos entre vários círculos sociais e acadêmicos. Isso vai nos causar uma grande saudade. Era o meu 3º aluno a se tornar estudante de Medicina. E ainda meu companheiro de academia, quando nos encontrávamos com tempo para essa prática. Me encontro sofrido e extremamente triste pela sua perda tão repentina. Mas confio na misericórdia de nosso Deus, na salvação encontrada em Jesus pelo Espírito Santo e no conforto nos braços de Maria Santíssima, nossa Mãe. Um abraço à família, com nossos votos de condolências nesse momento de dor e perda irreparável. Vá em paz. Rezaremos por você. Lembraremos sempre de você. Do amigo, professor e admirador...

Feliz Natal de verdade!

Viver o Natal necessariamente não significa apegar-se às compras de fim de ano e dar ênfase demais ao comércio e aos produtos que aparecem nas propagandas. Deve-se lembrar de que a festa do Natal é a festa do aniversário de Jesus. Basta? Não! É preciso fazer com que a festa seja solidária, fazendo o bem aos demais seres humanos que nos rodeiam, amenizando a dor e o sofrimento de quem estiver ao nosso alcance. Por certo, algumas palavras nesse dia serão repetidas em nosso vocabulário, como "Feliz Natal" especialmente na troca de presentes, mas diga de coração para o mundo inteiro ouvir... Feliz Natal de verdade!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Falecimento de Manoel Messias da Cruz Monteiro Júnior

Comunico do falecimento do aluno Manoel Messias da Cruz Monteiro Júnior (*08.07.1990 / + 22.12.2009), ocorrido ontem, às 16h20, em Belém/PA. Seu velório será no Centro São José, no bairro do Morro e o sepultamento na Comunidade de Santo Antônio dos Monteiros, às 16h. Nós, amigos e companheiros consternados, nos solidarizamos com a dor de sua família, escola e LEO Clube de Bragança.
Prof. Dário Benedito Rodrigues, professor e companheiro LEO.

Marujada de São Benedito: jóia cultural de Bragança e Patrimônio do Pará

Fundada em 03 de setembro de 1798, por iniciativa de escravos da Vila de Bragança, a Irmandade do Glorioso São Benedito (e conseqüentemente a Marujada) e toda a Festividade estão intimamente ligadas às principais tradições religiosas e culturais do povo bragantino. Tanto que em todos os lares a devoção a São Benedito começou a se firmar como sua maior. No início do século XX aconteceu o processo de embranquecimento, pela entrada de brancos ao seu quadro de irmãos. Teve como documentos principais os Compromissos, próprios das antigas irmandades religiosas. E seus rituais divergem das variações existentes no Brasil, com nomes como Fandango, Barca, Chegança de Marujos. Não podendo ser dissociada do aspecto sagrado e devocional, mas fazendo parte dele, existe uma delimitação do espaço sagrado (com missa, novena e procissão) e do profano (com a dança, cavalhada, leilão, almoço) num sistema de representações bastante peculiar. Os atos religiosos eram realizados pelos padres da Diocese de Bragança. É a principal contribuição religiosa, histórica e folclórica do Nordeste paraense.

Esmolação

Conjunto de atos religiosos realizado por três comitivas de esmoleiros que percorrem as regiões dos Campos, Colônias e Praias, circunvizinhas a Bragança e outros municípios, angariando esmolas e ofertas para a Festividade. É, em muitos casos, a única presença religiosa nas localidades mais distantes da sede do Município. Cada comitiva de esmoleiros trajando opas, leva uma imagem de São Benedito, instrumentos musicais, bandeiras e executam um conjunto de canções orantes em latim, ladainhas e folias de homenagem a São Benedito, de acordo com um calendário de visitas nas casas de devotos, que pagam suas promessas hospedando e alimentando os esmoleiros.

Hierarquia – Comando das Marujas

A Marujada tem uma hierarquia que demarca significativamente os espaços entre homens e mulheres, enaltecendo a figura feminina da maruja como mais importante em todos os eventos da Festividade. A principal autoridade da Marujada é a Capitoa, de cargo e função vitalícia, que disciplina e comanda as demais marujas, numa inversão social própria do período e bastante peculiar nos cultos afro-brasileiros de resistência à escravidão e submissão das mulheres. Existem ainda outros cargos como Vice-capitoa, Capitão e Vice-capitão.

As mulheres são as figurantes principais da Marujada e desde o dia de Natal – vestidas de azul, para o Menino Jesus – e no Dia de São Benedito – com traje oficial em vermelho – impostam seus chapéus turbantes de penas brancas, aba dourada, pequenas flores vermelhas e enfeites dourados ao redor, terminando com fitas coloridas.

Vestidos do Menino Jesus de São Benedito

Como uma das heranças de tradição colonial, as imagens eram vestidas e ornadas com os mais valiosos tecidos e roupas. Para a imagem do Menino Jesus, carregado por São Benedito, desde muitos anos, são confeccionados vestidos, como pagamento de promessas, dos mais variados modelos e valores. Um grande conjunto deles é exposto à visitação dos devotos na Igreja de São Benedito em Bragança.

Cavalhada

Tem como tema principal a influência cristã, um dos eventos da Festividade de São Benedito, lembrando o combate entre cristãos e mouros nas batalhas medievais por territórios sagrados. É composta apenas por cavaleiros e suas montarias, que disputam argolinhas nas cores azul e vermelha. Vence quem conseguir alcançar o maior número delas.

Danças da Marujada

As danças executadas por marujos e marujas compõem uma parte do ritual, como forma de agradecimento ao Santo por graças alcançadas.

a) Roda: dança que inicia e termina todo o ritual da Marujada, como forma de comemoração e agradecimento, apenas com as marujas em círculo, tendo ao centro, a Capitoa e a Vice-capitoa. É o ritual coreográfico de dança que inicia e termina todo o ritual maior da dança, como conjunto. A roda reflete e revive de forma expressiva a origem da festa, pois, nela, constituída em círculo apenas por marujas, pedem licença simbolicamente aos presentes e as autoridades para dar início a dança, assim como há quase dois séculos os escravos pediam permissão aos seus senhores para dançar de casa em casa, segundo a tradição. A roda também é executada na alvorada do dia 18 de dezembro e no encerramento da festa.

b) Retumbão: com o ritmo do lundu de origem afro-brasileira, dançado em dois casais, sendo a mais importante dança do ritual. Chorado, com o mesmo ritmo lundu em um tom musical abaixo do retumbão, dançado em par, onde os marujos iniciam o ritual tirando uma maruja pra dançar, por ordem de hierarquia. segundo ritual da dança, onde se já se contempla a figura (presença) do marujo como a de principal agente já que o capitão e vice-capitão iniciam a coreografia e “chamam” suas parceiras por hierarquia, Capitoa e Vice-capitoa, respectivamente. A presença masculina ressurge a primeiro plano, já que é condição necessária para seu início, sendo encerrado pelos mesmos casais que deram início à dança. Segundo Armando Bordallo da Silva (1981), as mulheres sobressaem-se melhor que homens nesta dança. A maruja para exibir sua agilidade, costuma a um descuido do cavalheiro metê-lo debaixo do rodado de sua saia, quando isso acontece, dificilmente o dançarino volta ao salão.

c) Chorado: Terceira representação, se constitui na verdade, numa variação do Retumbão, sendo dançado sob uma maior suavidade e lentidão dos passos e do tom, apenas por um casal, livremente escolhido e com alternância a cada final de dupla.

d) Xote: como a principal expressão de dança característica da cidade de Bragança, se incorporou à Marujada por seu significado popular, sendo de origem européia. Uma das danças incorporadas à Marujada pelos aristocratas senhores de escravos. Acoplou-se à Marujada, com variações coreográficas. Teve origem, segundo Aurélio Buarque de Holanda, certamente na Hungria, e mobiliza a maioria dos presentes no barracão, quando da sua execução e início e de forma mais tensa alcança o frenesi com alteração rítmica com que é tocado ou dançado.

e) Mazurca:de origem européia, foi introduzida nos salões pelos brancos, formada por pares de casais, livremente dispostos em fila. Mazurca: Trata-se de uma dança popular polonesa, originalmente cantada e dançada, em compasso ternário. A diferença da mazurca polonesa para a mazurca dançada pela Marujada está no ritmo. Na primeira o compasso é lento, na segunda é ritmado, por ser primitivo e de origem africana. A parte mais atraente da mazurca consiste nos seus movimentos ritmados de dois passos à frente e dois passos atrás, os quais são parecidos com o movimento das ondas do mar que avançam sobre a areia da praia e retornam ao mar. A medida que dançam, deixam transparecer a vibração de seus corpos. Na Mazurca, cavalheiros e damas com os braços envolvidos na cintura um do outro, formando um par saltitante, executam passos ligeiros, dois à frente e dois atrás. Nesse vai e vem, os pares volteiam o salão formando um círculo. A mazurca é comparada pelos próprios marujos como uma dança sensual, que expõe o sentimento, atingindo, inclusive um clímax, que se dá na aceleração do ritmo pelos tocadores.

f) Valsa: também de origem européia, introduzida no ritual pelos brancos, composta por casais livremente dispostos. A valsa se incorporou à Marujada. Assumindo certa variação no que se refere à forma de dançar, se opõe ao ritmo frenético da Mazurca por tons calmos, em círculo, por pares deliberadamente formados ( homem -mulher, mulher-mulher).

g) Bagre (ou Contra-dança): uma das mais populares e prazerosa, tendo a frente um marcador que por casais, imita uma quadrilha, também não citada por nenhum outro autor. É a única em que percebemos a presença do presidente da Marujada. É composta por casais formados livremente. Dançada também em círculo, cada par tem que decorar o lugar e o parceiro ou parceira e não errar o compasso marcado pelo mestre da dança , que é o presidente da Marujada, que acalma os sacolejos e balanços de ida e volta ao centro do salão e volteios com a troca de pares, em seqüência. Só se dança a contradança, pelo menos é o que se percebe, em momentos festivos ou em ocasiões de lazer de seus membros, para espairecer dentro do conjunto de outras danças. O Bagre é pouco conhecido, e segundo Armando Bordallo, o ritmo é parecido com o ritmo de uma quadrilha, dançado em roda. Os pares formam círculo e o narrador comanda, determinando os passos. Os pares, vão até o centro do círculo e voltam à posição inicial, fazem trejeitos e coreografia ao som da voz do marcador.

h) Arrasta-Pé: Nunca citado por nenhum autor que estudou as manifestações da Marujada. Outra dança, bastante difundida e não registrada em nenhuma obra. Configura-se sem anacronismo, como o nosso atual forró, dançado quase da mesma maneira popularmente conhecida nos salões de festas comuns.

Rituais

a) Almoço: É resultado do pagamento de uma promessa que seu organizador, no caso juiz ou juíza, fizeram ao Santo e todo juiz ou juíza tem esse compromisso em oferecer o almoço para a Marujada, um no dia 25 e outro no dia 26 de dezembro. Percebe-se no ritual do almoço, que a figura da maruja é posta a segundo plano, quando da disposição das mesmas à mesa, sendo primeiro as autoridades, juizes ao centro da mesa, convidados e personalidades e nas laterais os marujos, configura-se, portanto, a presença de uma hierarquia. A situação já foi bastante diferente quando o serviço da cozinha-cardápio- era diferente para estas facções. Ser juiz ou juíza da Marujada, corresponde ter um certo poder aquisitivo, pois as despesas não são poucas, atualmente os juizes contribuem também com a festividade, sendo patrocinadores.

b) Bendito: Reza em louvor a Deus e a São Benedito, em agradecimento pela alegria e fartura das refeições ou de qualquer outro ritual. É o canto “Benedictus”, em latim, tirado da tradição da Igreja Católica. É cantado nos “lanches” dos dias de alvorada e oferecido nos dias 18 de Dezembro, nos almoços dos dias 25 e 26 e no dia 1º de Janeiro, pela manhã.

c) Leilão: Conforme a tradição, o “leilão do Santo”, realiza-se no dia 26 de Dezembro, no barracão da Marujada. Este acontecimento dentro da festividade corresponde a um cerimonial de trocas entre o promesseiro e São Benedito, em favor de graças alcançadas. Os devotos, durante o “serviço de esmolação”, comprometem-se em levar sua “esmola” para o leilão. Estas são levadas na véspera por alguns devotos, em muitas ocasiões, as “esmolas” chegam momentos antes do início do leilão, e às vezes até durante a sua realização. E estas apresentam uma diversidade muito grande, por exemplo: são leiloados desde cachos de pitomba até animais de porte como garrotes, porcos, cabras, etc. A clientela do “leilão do Santo” é formada por pessoas dos mais diversos níveis sociais. Atualmente a Paróquia executa e organiza o leilão, existe uma diretoria que cuida desta parte, porém antigamente o leilão ficava a critério da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança.

d) Cavalhada: De acordo com a tradição, a Cavalhada é um jogo que rememora a luta entre cristãos e mouros. Quando o auto popular, entre cavalheiros, chegou a Bragança, já foi incompleto. Algumas características que permaneceram foram as disputas das argolinhas. Antigamente na Cavalhada, existia apenas uma corrida sem competição, com a participação de cavalheiros, onde inclusive a maioria pertencia ao interior, com o passar do tempo, o número de participantes aumentou, principalmente, se pode perceber a participação em maior número das pessoas da cidade e de outros lugares, atualmente a diretoria da Irmandade, através de patrocínios, angaria prêmios para o primeiro colocado. Os prêmios variam. Muitas das vezes, o prêmio é designado ao próprio cavalo. Na Cavalhada, cavalos e cavaleiros desfilam em saudação às autoridades, depois voltam à posição inicial, em desabalada carreira, saem às duplas, uma após outra, a seguir, novamente, aos pares, partem os cavaleiros abraçados até o fim. Terminada esta primeira fase da exibição, dá-se início ao jogo propriamente. Em velozes arrancadas, os cavaleiros levando na mão direita uma pequena lança de madeira, disputam uns após outros; quem consegue enfiar na lança o maior número de argolar. A Cavalhada realiza-se no dia 25 de Dezembro pela parte da tarde, na área próxima ao Aeroporto.

e) Arraial: Antigamente, percebia-se a presença de parques no arraial, atualmente deu-se lugar para apresentação de shows, com músicos da terra, denominada de noite cultural e feiras de artesanato, que comercializa produtos artesanais. Também encontram-se barracas com vendas de bebidas, refrigerantes, há também pipoqueiros, barracas de sorvetes, venda de comidas caseiras e jogos clandestinos.

f) Procissão: É na procissão que acontece o clímax da festa inteira. É nela que se vê de maneira corpórea a expressão da fé em honra a São Benedito por uma graça alcançada. Mesmo ocorrendo a cisão entre Irmandade e Prelazia (1947), na procissão, naquele momento tudo é esquecido, as antigas brigas, as divergências, todos estes personagens se unem para relembrar se auto afirmar como espaço de reprodução social e comemoração. Atualmente a procissão congrega a maioria da população bragantina e se constitui na maior representação de fé em Bragança. É maior que a procissão do Círio de Nazaré, em nossa cidade, e a extensão do seu percurso obedece ao itinerário proposto após 1988, que modificou o antigo cortejo. A procissão se estendia a uma quadra a mais da Alameda Leandro Ribeiro, no bairro da Aldeia, na Travessa Aureliano Coelho, interrompida com a interseção do prédio do Instituto Santa Teresinha. A procissão é iniciada pelo cruciferário (o que carrega a cruz), membro da Irmandade, do Santíssimo Sacramento e pelas enormes filas de marujos e marujas nas laterais, entremeadas de mais de seis estandartes em tons vermelho e branco com a insígnia de São Benedito e o menino Jesus, levado por marujos e marujas escolhidos. As filas de marujos e marujas são estabelecidas a fim de que se distribua melhor o espaço físico das ruas simétricas e estreitas de Bragança, auxiliada pelas organizações policiais, além de representar as estruturas que dominam o cenário da festa como padres, religiosos, Capitoa, Vice-capioa, juízes, autoridades, políticos. Na procissão observa-se a necessidade de se tocar ou até de se carregar o andar, beijar a fita de São Benedito, pagar promessa e agradecer ao Santo pela graça alcançada. A ordem da procissão é a seguinte:

1º) Cruciferário; 2º) Estandartes; 3º) Filas de marujos e marujas (maioria absoluta); 4º) Carros-som; 5º) Autoridades; 6º) Andor com a imagem de São Benedito e 7º) Povo em geral.

Instrumentos musicais

Rabeca, Banjo, Tambor, Reco, Pandeiro

Indumentária

Ainda com relação ao traje, as marujas usam uma blusa branco, toda pregueado e rendada e a saia, vermelha ou azul com ramagens nessas cores. A tiracolo, cingem uma fita vermelha ou azul, conforme a cor da saia e no peito ostentam uma rosa vermelha ou azul. Na cabeça ostentam um chapéu todo emplumado e cheio de fitas coloridas e no pescoço trazem colares coloridos e dourados com medalhas.

A parte mais vistosa dessa indumentária é o chapéu cuja base era feito de feltro, coco ou cartola. Os de fabrico moderno são de carnaúba, palhinha ou mesmo papelão. Seja qual for o material empregado na estrutura básica do chapéu, ele é forrado na parte interna e externa. A aba com papel dourado. Em torno formando um ou mais cordões em semicírculo, presos nas extremidades onde são colocadas voltas ou alças de casquilho dourado, prateado ou colorido. Entre as alças, por cima das voltas, são também colocados espelhinhos quadrados ou redondos.

No alto, plumas e penas brancas, formam um penacho. Da aba, na parte posterior do chapéu, descem ao longo da costa da maruja, numerosas fitas. O maior número ou largura de fitas, embora não indicando hierarquia era reservado às mais antigas.

Os homens vestem calças e camisas brancas, usam chapéu de palha e carnaúba, revestido de pano com a aba virada e fixa em um dos lados com uma flor de papel, artificial em plástico vermelho ou azul, de acordo com a saia da maruja. No braço esquerdo, amarram uma fita, com um laço.