segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sobre as dúvidas quanto à veneração da imagem de São Benedito em 26.12.2009

Olá amigos, Quanto à veneração da imagem do Glorioso São Benedito, tenho algumas questões para expor.

Dependendo do fim a que se destinam, as obras de arte podem ser consideradas sacras (de culto) ou religiosas (de devoção). Segundo Cláudio Pastro "a arte sacra é algo feito do ser da Igreja, da profundeza do ser cristão, é uma continuidade da liturgia e da celebração cristã e se põe a serviço da Igreja. A função da arte sacra é testemunhar Jesus Cristo. Ela é a visualização plástica do evangelho, a petrificação dos dogmas, e por isso, nos aproxima mais do verdadeiro ecumenismo cristão do que qualquer outra coisa. Ela também é educativa.".( PASTRO, 1993)

A obra de arte sacra é um fenômeno comunicativo, tem como objetivo expressar uma verdade que vai além do racional, do conhecimento humano. Seu objetivo é celebrar com a comunidade. Não é apenas a expressão do artista, mas de toda a comunidade na qual ele está inserido e a qual sua arte serve. É uma arte simbólica e teocêntrica. É a expressão de algo maior, não cabe em si mesma. A arte sacra é meio e não fim. Não tem a presunção de ser o centro, o fim em si mesma, ao contrário, sabe que serve a algo maior. Não é antropológica, nem lírica, nem acadêmica. É uma arte imaginativa, geométrica, abstrata e idealista, por isso divina.

O roubo cinematográfico e a recuperação de várias obras de arte sacra em todo o Brasil expuseram, mais uma vez, a fragilidade dos acervos do país. Faltam equipamentos, segurança e equipes especializadas para lidar com interesses inescrupulosos. Os números são implacáveis: nos últimos anos, desapareceram, no país, mais de 800 (oitocentas) obras tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em Minas Gerais, o roubo de imagens sacras do período colonial é comum. Desde 1971, foram registradas 450 (quatrocentas e cinquenta) peças desaparecidas no Estado e só parte delas foi recuperada. Pior: aumentou a preocupação de responsáveis por museus e instituições desde que os crimes ganharam outros contornos.

Não é o caso específico de Bragança, mas só um alerta. E tenho algumas respostas a esses questionamentos. A própria Igreja de São Benedito já foi vítima de assalto na quarta-feira, dia 25 de abril de 2007, durante a madrugada, quando notaram o arrombamento da janela lateral direita do templo (única), profanando a Eucaristia e roubando valores do cofre lateral do altar-mór de São Benedito. Todo cuidado é pouco! E a Paróquia providenciou um gradio para aquela janela.

Mas voltando à questão da veneração após a procissão, hoje (28.12.2009), ao ouvir a Rádio Educadora AM, às 11h57, o comunicador e professor Cledson Jair me encaminhou a questão da veneração da imagem do Glorioso São Benedito, como se eu estivesse determinando o tempo em que a imagem deveria ficar sob a veneração do público em geral na Igreja.

Vejamos. Primeiro, não havia em anos atrás a preocupação com a perda de várias peças do Patrimônio Histórico e Artístico de Bragança, material ou imaterial. É uma boa surpresa essa, e uma pergunta interessante, mais parte de nosso acervo se perdeu com o tempo. Há vários anos, desde 1997, recebi da Igreja essa missão, de retirar e colocar novamente a imagem de São Benedito em seu altar-mór, dentro dos padrões de segurança e de cuidado, que apendi com meu tio Benedito Lázaro Rodrigues. Fui consagrado a esse serviço pelo ex-vigário Pe. Aldo Fernandes da Rocha em 26.12.1997 e minhas mãos foram abençoadas para isso. Agradeço desde então essa tarefa quase divina, de poder trazer São Benedito para o povo e para a veneração de Bragança. Sou parte de todo o conjunto de pessoas preocupadas e interessadas na conservação das boas e verdadeiras tradições do povo bragantino, como historiador, marujo e católico, não o único a determinar sobre esse assunto em particular. Uma tarefa simples mas cheia de graça, espiritual e temporal. Um contato particular com São Benedito, sem nenhum propósito a mais a não ser cumprir com responsabilidade cristã e pessoal.

Na década de 80, quando comecei a me dar conta da importância de tudo o que envolve o ciclo de São Benedito e a participar efetivamente como pessoa e cristão, acompanhado de meus pais (Jocelino Nonato e Socorro Rodrigues), a imagem não ficava nem cerca de 10 (dez) minutos à veneração do povo, ia logo pra sacristia para ser retirada do andor e colocada no altar-mór, para que a missa que antigamente existia às 20h após a procissão fosse celebrada com São Benedito já no seu altar. Com o passar do tempo, precisamente em 1988, com a administração paroquial sobre a Festividade, isso começou a ser modificado, para atender ao mesmo povo e aos pedidos de vários e inúmeros devotos.

Por volta das 18h30 quando a imagem retorna nos braços cansados dos marujos do andor à Igreja, milhares de pessoas circulam no templo. Aproveitamos aquela movimentação para que essas pessoas possam realizar as suas orações, terem o seu contato com São Benedito, renderem seus agradecimentos e receberem as bênçãos de Jesus atrabés dele. Nesse ínterim, já se vão cerca de 30 (trinta) minutos, entre orações, demonstrações da fé do povo bragantino e dos visitantes que acorrem a São Benedito. As ofertas também são colocadas nos locais próprios com a coordenação de um diretor da festividade ou até mesmo dos/as sacristãos/as da Igreja de São Benedito. É impressionante esse momento. Marcante e emocionante.

A Diretoria da Festividade de São Benedito, presidida pelo Pe. João Nelson Magalhães, recomendada pelo Sistema Integrado de Museus (SIM), órgão da Secretaria de Estado de Cultura (SECULT), assim como pelo Pe. Gerenaldo Messias, Vigário Geral e Pároco da Catedral de Nossa Senhora, nos encaminharam todos os cuidados necessários para a preservação da imagem de São Benedito restaurada como era há cerca de 200 (duzentos) anos.

E todos os cuidados foram tomados. Sem exageros, nem ortodoxismos, mas cuidado e paciência. O andor recebe a imagem que é presa na peça de madeira, com um parafuso em rosca de cerca de 40 (quarenta) centímetros. A imagem fica suspensa sem cordas, fios, barbantes, nada. Só o parafuso. Com o serviço prestimoso de carregar o andor, de vários marujos, a quem devotamos particular agradecimento, a imagem fica exposta à movimentação brusca, saculejos, inclinações, além da dificuldade em relação ao peso que se redobra e multiplica com os inúmeros braços desses marujos no andor, preocupados e conscientes da importância desse serviço tão incomum e importante.

E então, a imagem retorna após a Missa campal para o interior da Igreja, chegando até o altar, onde foi colocada cuidadosamente, recebendo assim várias homenagens.

Dessa parte em diante assumi a função, pela Igreja, de orar, rezar, refletir e meditar o que tínhamos acabado de vivenciar, em mais de 30 (trinta) minutos. E é um trabalho acompanhado de perto pelo Vigário que asperge a população com água benta, abençoando objetos, chaves, indumentárias, crianças, pais, casais, estudantes e promesseiros, com carinho e sempre em atuitude orante e com a vigilância da Guarda Municipal de Bragança, por se tratar de uma preciosa, valiosa e bela imagem.

E assim, a imagem saiu do altar. O andor foi trazido ao interior da Sacristia e eu retirei, com o apoio de todos os presentes, a imagem do andor, com luvas específicas. O Vigário presidiu a entronização e o retorno da imagem ao altar-mor, de degrau em degrau, rezando e abençoando os fiéis presentes e contritos. Me assombra a súbita impressão de que pode parecer uma propriedade minha essa tarefa e que a desenvolvo com firmeza desmedida ou com propósito de me promover diante disse. Não o é e nem o seria, em absoluto. Não acredito assim. É apenas uma tarefa importante e consagrada. E que, por minha decisão particular, nunca seria revelada nem mesmo pela autoridade eclesiástica.

Vamos a alguns exemplos que podem nos trazer à tona esse esclarecimento. A imagem original de Nossa Senhora de Nazaré é retirada do "Glória" da Basílica de Nazaré por pessoa autorizada e reconhecida pela Igreja e pela Diretoria da Festividade nazarena. Depois é colocada em uma redoma de vidro à prova de bala no interior da basílica, próximo ao altar central do templo, com o apoio vigilante de dezenas de homens da Guarda de Nossa Senhora de Nazaré além de segurança, por se tratar de Patrimônio Histórico tombado e reconhecido.

No Círio de Belém, a imagem de Nazaré peregrina, confeccionada para a procissão, sai da berlinda, é retirada por pessoa autorizada pela Igreja e Diretoria e entregue ao arcebispo metropolitano para ser colocada no nicho onde ela será venerada após o cortejo. Daí, ninguém tem acesso ou autorização para o toque e para o manuseio dessa imagem, que fica no CAN (Centro Arquitetônico de Nazaré) e depois, no Recírio retorna ao Gabinete do Vigário da Basílica e só depois ao Colégio Gentil Bittencourt, onde é guardada pelas irmãs daquela congregação.

Em se tratando de Bragança e de tudo o que remonta à questão inicial desse esclarecimento, é tudo igual, com o mesmo significado do cuidado e do uso da imagem, no aspecto religioso, é claro. As circularidades culturais, as imagens mentais, a questão de fé que estão nesse culto e as demonstrações de amor e fraternidade que une os bragantinos daqui e os de todos os adjetivos pátrios que se achegam a nós. E as boas e verdadeiras tradições de Bragança continuarão. Eu passarei e me encontrarei um dia, quem sabe, se Deus quiser, com São Benedito, pessoalmente. Um dia... e darei nele o abraço que senti durante todos esses anos quando carrego em meus braços sua bela imagem.

São Benedito, rogai por nós!

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